Diário da Quarentena - LXXVII

Publicação: 2020-07-10 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Volto, Senhor Redator, sempre volto, quando a madrugada vem. Volto para olhar desta minha pequena gávea a janela notívaga que teima em iluminar a noite. Sozinha, como um farol a rasgar a escuridão. Há qualquer coisa mágica na sua vigilância solitária. É como se esperasse, aberta e com sua luz furando a escuridão da noite, um pouco de esperança nesses tempos feios e fúnebres que roubam das horas a grande alegria da vida soltando tristes ais de desenganos. 

E sei, por dever deste ofício de lidar com as palavras, que ‘velante’ não se usa mais e deixou os dicionários mais modernos, filhos dos ditames contemporâneos.  No entanto vive na solidão dos velhos guias ortográficos da língua antiga. Conheci no verso magistral do poema de Edinor Avelino, o maior poeta da minha aldeia, saudoso e distante da sua terra. E carrego até hoje como um amuleto inesquecível, parte da vida esse antigo e velante farol de Alagamar. 

‘Macau’ é um poema longo, de longo amor cantante, lembrando ‘a enseada, o mangue que pampeia, um sugestivo ponto de abrigar’. É quando o poeta lança os olhos naquele seu mar antigo a banhar o ‘alvor da areia’, iluminada pelos fachos do pequeno farol do seu mar. Naquele tempo, ele ainda não havia mergulhado na grande solidão de sua cegueira e por isso ainda via ‘as ruas compridas, os sobrados’, mergulhados nos belos azuis dos seus horizontes azulados.

Edinor foi o grande poeta dos silêncios. Conta Câmara Cascudo, no prefácio encantado de ‘Sínteses’ - Pongetti, Rio, 1968 - o único livro que publicou, que sua revelação foi ainda em 1921, quando, a convite de Ezequiel Wanderley que organizava a primeira antologia poética do Rio Grande do Norte, enviou o poema ‘Apologia do Silêncio’, com versos que começam assim: ‘És a paz, e és também a origem do mistério / transcendental, que alarga o manto sobre nós’.

É Cascudo quem escreve: ‘Os alexandrinos soaram como ‘ouro novo, impecáveis na nobre cadência... batendo a sonoridade do metro magistral’. E registra que lendo esses versos o poeta Henrique Castriciano teria saudado, dizendo: ‘Vale um livro!’. Naquele 1921, o poeta tinha apenas 21 anos, ele que nascera no mesmo 1898 de Câmara Cascudo. Já fazia parte de ‘Sínteses’, livro que esperou 49 anos para ser publicado, gesto de Manuel Rodrigues de Melo.

Não sei dizer a razão da magia quando todas as noites olho a janela notívaga que mantém aceso seu facho de luz acendendo o caminho de algum bom fantasma que virá, quem sabe. E lembro o poeta que vi numa única manhã na calçada de sua casa, na Rua da Frente, a vencer a cegueira, para sentir o seu mar. O seu mar antigo que no seu soneto triste ele ouvia, depois de convertê-lo em si mesmo como o mar da vida, a deixar ‘correr o pranto de todas as saudades’. 

GRAVE - Corajosa e de boa fé a avaliação do ex-ministro da saúde, médico Nelson Teich. Não negou a tensão da esfera privada, mas alertou: uma nova onda de contaminação seria desastrosa. 

EFEITO - Para ele, o não isolamento rigoroso de certas áreas, dentro de grandes cidades e nos municípios que as cercam, pode elevar brutalmente a contaminação. Já perdemos muito tempo.

ALIÁS - Se o controle do Coronavírus fosse apenas uma questão de poder econômico os EUA não estariam como os campeões de contaminação e morte. Lá também falhou o confinamento.

DETALHE - E não foi por falta se assessoramento e alerta ao serelepe Donald Trump. A Casa Branca conta com o médico Anthony Fauci, apontado como o maior infectologista do mundo.

TABU - Uma fonte credenciada do governo avisou a esta coluna: ‘Não aposte em programa de privatização”. E acrescentou: “Fátima Bezerra não quer ouvir falar esse o assunto”. É um erro. 

VENENO - Da cobra criada, anos destilando veneno na mata da política: “Fátima não perdeu a guerra contra o Covid-19. Mas ninguém ganhou. Ela não aplicou a vacina da comunicação”. 

PERIGO - Tem um novo golpe na praça. De repente aparece na tela do seu computador apenas uma frase, aliás até bem educada e ardilosamente posta assim: “Confirme se este e-mail é seu”. 

REZA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama desconfiado da reza dessas almas que parecem fervorosas: “Os carolas quanto mais rezam mais vivem abraçados ao seu rancor”.

IMPASSE -  O requerimento do deputado Kelps Lima pedindo que o julgamento da reforma da previdência só ocorra em sessão presencial, pode gerar um impasse. A decisão será na terça feira próxima. O limite legal da aprovação nos estados acaba a 31 deste mês de julho em curso.  

LUTA - A PEC da reforma exige de 15 votos e a oposição tem dez. Nesta hipótese, a aprovação só será possível com a força do presidente tirando dois votos oposicionistas para somá-los aos treze da bancada governista. O PSDB é um híbrido - pró e contra governo. Tudo pode ocorrer.  

CONTA - Há duas hipóteses: obter 15 votos e diluir o desgaste em nome da maioria, caminho que é possível com a força da presidência; ou a sustentação da obstrução com a possibilidade dos 11 votos, se confirmado o apoio do deputado Sando Pimentel. Sem discussão não passará.