Diário da Quarentena - LXXX

Publicação: 2020-07-14 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgação

A ninguém, nem àqueles de uma consciência democrática mais precária, é dado duvidar do Poder Legislativo como o garantidor, por essência, da pluralidade das ideias democráticas na vida republicana. Nem por isso, todos os agentes exercem com dignidade a vida parlamentar, dentro e fora dos plenários. A sutileza da percepção reside em separá-los da política como arte e ciência. Que os maus não justifiquem o sacrifício do essencial, sob pena de se cair na ditadura. 

Mas, há os embustes, os embusteiros e flibusteiros, com seus discursos que, às vezes, pregam fáceis no sentimento popular. O mais cretino e recente deles é a ‘Nova política’, o selo que foi inventado nas cinzas úmidas do rescaldo que ficou do incêndio que devorou vários deles no fogaréu da Lava Jato. Aliás, por justiça, diga-se: políticos e empresários aliaram-se no botim, vindos de todas as origens, acima e abaixo, sob o protagonismo do PT na conjugação de todos. 

Acontece que não tínhamos bons genes para fecundar uma saudável ‘Nova Política’. E veio um monstrengo, nascido em laboratório, com a missão de poder alegar que nada seria pior do que antes. Como se o horror tivesse ficado nas sombras dos palácios planaltinos, estiolado e morto por um sol que a tudo iluminaria afastando as sombras. Só que não viemos de uma nova e saudável revolução de hábitos e costumes. Estamos tão caudalosos e inseguros como antes.

O argumento do ‘não rouba e não deixa roubar’, verbo e escudo reluzentes dos novos justiceiros, nada tinha de autêntico. Eram tão frágeis seus pés de barro, do messiânico presidente Jair Bolsonaro ao bendito reformador Sérgio Moro, justiceiro e passional, que cedo começou a desmilinguir-se na convulsão da qual não escaparam nem o próprio Ministério Público, os filhos do presidente e suas relações escusas com as milícias e alguns governadores da ‘Nova política’.  

Mesmo o Poder Judiciário, guardião da Constituição e suas garantias, já tem provado o sal amargo de um ativismo jurídico que se não é um mal em si mesmo, caiu na intolerância que hoje criva e crava o debate deste país num açodamento desregrado. Só os caudalosos da servil servidão - use-se a redundância como reforço, destituídos de consciência crítica, não enxergam a desorganização política, social e econômica que nos joga no abismo sob os olhos do mundo.

Não há ‘Nova Política’. É embuste a enganar os que de novo apostaram numa nova ética política. Não mudamos. Para não ir longe, basta pôr os olhos na política local. Na proposta de reforma da previdência, o governo gravou a base da pirâmide, limitou em 16% a contribuição dos grandes salários, reajustados antes no mesmo patamar, e dissimula o despudor de aprová-la numa aliança de fortes alavancas, unindo fisiologistas do Executivo e Legislativo. Nova? 

DUPLO - Para um procurador do MP a instituição terá em 2021 um ano movimentado com duas eleições: mandato do procurador-chefe e vaga do MP no TJRN. É a luta por glória e poder.

VITÓRIA - Quem apostou que o Coronavírus infectaria a saúde financeira da folha de pessoal errou. Até agora os salários estão em dia e neste mês de julho não será diferente. Foi um desafio. 

SAUDADE - Do poeta Rubem G. Nunes, máscara de extraterrestre, olhando de longe seu neto querido: “A saudade é um vírus do bem e do mal, mas precisa do doce remédio de um abraço”.

LUXO - A editora Global, hoje detentora das edições Aguilar, anuncia para o segundo semestre a ‘Poesia completa e prosa seleta’, de Manuel Bandeira. Dois volumes e numa edição de luxo. 

AGENDA - O grupo Saber Educação, representado em Natal pelo Colégio Cei-Romualdo, faz seu Saber Talks, quarta-feira, dia 15, às 19h, uma conversa quem vai reunir dois pesos pesados.

QUEM - A webinar reúne o historiador Leandro Karnal e o psicólogo Rossandro Klinjey no papo ‘Quais os aprendizados adquiridos nessa nova realidade’: https://tinyurl.com/SaberTalks 

CUIDADO - Domingo, 19, segundo proclama o velhíssimo lunário perpétuo, é o plenilúnio, a noite de lua cheia. De horas abertas e danações, dos ódios, das paixões e das perigosas tentações. 

DEFEITO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ouvindo seu companheiro de mesa lamentar o medo: “No tímido, os desejos são sempre impossíveis. É um defeito de alma”.

LUTA - O governo precisa de quinze votos para aprovar a PEC da Previdência. Com onze na oposição, sobram treze na bancada governista. Quem serão os garfados até dia 31, a data-limite? Qual será a força que irá garfar? Da governadora ou do presidente da AL? Ou dos dois, juntos?

QUEM? - Nos corredores sussurrantes da Assembleia há quem aposte que se o governo tem só treze votos, dois terão que ser garfados antes do dia 31 deste mês, prazo para aprovar a PEC da previdência A pergunta que rasteja no granito lustroso do Palácio José Augusto é: Quem cairá?  

SAÍDA - Para alguns observadores do jogo político, com os olhos mais perfurantes, só há uma solução política perfeita: gerar nos bastidores, entre os gabinetes da governadora e do presidente da Assembleia, uma razão política plausível. Para a glória de uns e a injusta derrota de outros.