Diário da Quarentena - LXXXI

Publicação: 2020-07-15 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Perdoe a impertinência, talvez conservadora para esses tempos feitos de tantos conflitos, Senhor Redator, mas não acredito na alma humana dividida em gêneros. Se não se nasce mulher, torna-se mulher, na grande lição de Simone de Beauvoir, é o que basta para ter certeza de que assim somos feitos, homens e mulheres. Pela força da formação cultural que tem raízes ainda nas velhas famílias patriarcais, quando o homem era condenado, sabendo ou não, a se achar superior.

Como não é de todo tão estranho que tenha sido necessário criar a expressão ‘feminicídio’ para expressar com absoluta propriedade a morte só por ser mulher. Distinguiu-se do homicídio em razão de sua raiz machista. O que de certo modo também divide o ser humano, erradamente, em dois gêneros, quando a separação homem versus mulher já não expressa a realidade. São dois os sexos, não a sexualidade que é a forma de exercê-los. Cada um cumpre a força de seus desejos. 

O Aurélio e o Houaiss ainda não registram a expressão, assim como não chegou a ter um lugar no ‘Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa’, de 2009, na sua quinta edição oficial da Academia Brasileira de Letras, guardiã do nosso acervo vocabular. E que tem sido atenta sob o olhar de Evanildo Bechara. Tanto que dicionarizou expressões nascidas do uso corrente como ‘xerocar’ e imexível’. Mas há de chegar a sua vez, se está na boca do povo, o que lhe legitima. 

Também não se pode desconhecer, sem negar propriedade de uso, ser da tendência natural espelhar em um certo maniqueísmo quando a sociedade, de forma tácita, reflete o saber coletivo no relevo conflituoso. Daí o machismo e o feminismo em estado de conflito, reflexos de um bem e de um mal, dissimulados ou não. O que não evita, numa dialética canhestra, a possibilidade de mulheres machistas e homens feministas, se tudo que é humano é humanamente compreensível.  

Mas há, de todo modo, uma pandemia de ismos no mundo. Tem ismo pra tudo e todos os gostos. Se de um lado garante a riqueza expressional da língua, se somos uma língua viva e de cultura, de outro é um incentivo a um excesso de classificação, mesmo com a hoje certeza de que os falares ganharam sua boa soberania. O poeta Manuel Bandeira já sinalizava para essa bela ambiguidade da ‘língua errada do povo, língua certa do povo’, no poema ‘Evocação do Recife’. 

É que os gêneros não bastam para classificar e dividir as almas nesse mundo de hoje em dia. São formas insuficientes, já pobres de propriedade para quem deseja ser livre e livremente exercer seu jeito de ser e de viver. As palavras, disse o poeta Gilberto Avelino, apascentam. Na medida em que justificam novos hábitos, costumes e tradições. Uma dinâmica que já se sabe há anos, quando a vida nem suspeitava dos conflitos que acabaria por abrigar. Rezemos ao Senhor.

SENHA - De José Dias, negado o pedido de Kelps Lima para a PEC da Previdência ser debatida e votada ao vivo, para a governadora Fátima: “Ela pode ser muito sabida, mas não é inteligente”.

MOITA - Ninguém cometa o erro de subestimar a promotora Juliana Limeira como alternativa para a chefia do MP na eleição do próximo ano. Ser discreta - e ela é - não significa não ter votos. 

CERTO - A prática mostra que o Comitê Científico estava certo no RN, quando radicalizou na defesa do confinamento. Tornou possível a abertura, igualmente essencial, se feita na hora certa.

ALIÁS - Abrir as portas não basta. Há um temor coletivo ainda muito forte, segundo revelam as   pesquisas. A postura cuidadosa do comércio será muito importante na reconquista da confiança.

IMORTAL - Há quem defenda o nome de Dácio Galvão, secretário de cultura da Prefeitura de Natal, para ocupar a vaga de Paulo Macedo na imortal Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.   

ALIÁS - Se for candidato, e sair eleito, é a própria vanguarda, iconoclasta e inovadora, a cruzar a portada da Casa de Manuel Rodrigues de Melo. Hélio Galvão, seu pai, ocupou a cadeira dois.

GESTO - Nos EUA, 40 milionários sugerem que se cobre mais impostos de quem pode pagar. A reforma previdenciária aqui tira dos mais fracos. A questão é de civilização. Não é de riqueza.

CAPRICHO - De Nino, lendo para um amigo algumas mensagens e cartas bonitas que recebe e esconde numa gaveta do criado mudo: ‘Nunca dou aos invejosos o cabimento de alimentá-los’. 

PLACAR - Com ou sem o deputado Sandro Pimentel - 11 votos com ele - a oposição tem dez votos, número que hoje impede o governo de obter os 15 votos exigidos legalmente para aprovação da PEC da Reforma Legislativa que, no RN, cobra mais dos pequenos e isenta os grandes salários.

JUDAS - A conta dos dez votos é garantida pela oposição, mas existe o temor de que o governo consiga atrair dois nomes da oposição, facilitado pela sessão não presencial e livre da pressão sindical. Resta indagar: quais serão os dois Judas traidores dos mais fracos assalariados e dos pequenos aposentados e pensionistas?  

DUPLO - Proposta do Governo Fátima Bezerra é reduzir 50% a isenção da base social, de seis para três salários, para manter em 16% os grandes salários, superiores a R$ 25 mil. Os pequenos pagam o privilégio dos grandes. Injusto para um governo popular com o velho sotaque socialista.