Diário da quarentena - LXXXII

Publicação: 2020-07-16 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Não pergunte, pacientíssimo leitor, pelo interesse do cronista na sua inútil preocupação com o caminho luminoso de Vênus e orquestrado pelos galos quando anunciam as madrugadas. Há os que são assim, especializados em sonhos sem futuro, doutores em coisa nenhuma. Aliás, nunca soube por onde anda o futuro. E se sei que chega a cada dia, é só pela teimosia de acreditar que há sempre outro dia. Cada segundo engendra o mistério do tempo no universo insondável. 

No meu ofício de vigia da noite, sem borla e sem capelo, sei apenas que há uma ordem misteriosa, uma gradação inexplicável de distâncias e ritmos. Primeiro, cantam aqueles galos distantes, longe, no oco do mundo, quase imperceptíveis. Depois, cantam os mais de perto e, por fim, os bem vizinhos. Enquanto isso, acredite, Vênus vai subindo, subindo, até desaparecer bem no alto, encandeada pelo sol quando pula os morros e cai aqui, bem aqui, nesta varanda. 

E sou sincero: não sei explicar nada disso. Se descrevo, é por culpa dos olhos sem sono, notívagos, perdidos entre palavras que nascem e morrem na memória a cada minuto que passa. Não procuro utilidade nas horas mortas. Nem adiantaria. Seguem o ritmo que os poetas um dia viram - é a harmonia das coisas superiores. Não cabe a um escrevinhador de jornal saber se serão assim para sempre, ou se mudados os ventos e as marés, leva-se a vida como precisa ser.

Um dia ouvi de Sanderson Negreiros uma coisa muito bonita que nunca entendi direito, embora fascinado pela beleza: as velhas cancelas das primeiras fazendas repetem no mundo os movimentos de rotação e translação. Veja a transcendência. Sanderson não descobriu nada disto nas suas aulas de geografia e conhecimentos gerais. Não pode ter sido. É preciso ter uma certa e sublime noção do mistério da vida para ir tão além, se não há na matéria apenas a matéria. 

Também reconheçamos, se não é exigir muito, a rara utilidade dos especialistas em coisa nenhuma. É preciso não saber tanto e de tudo. Um dia, visitando a casa nova e bonita de uma amiga, notei a ausência de sua biblioteca que era tão rica nas ciências sociais. Na dúvida, andei outra vez a casa toda nos seus dois andares. E convencido, quis saber o que havia feito dos livros. Ela respondeu, sem demora: ‘Doei. Quem aumenta seu saber, aumenta a sua dor”.  

Talvez esteja ai o tanto permitido aos olhos humanos na pouca compreensão da vida e do mistério que é vivê-la. Então passei a notar que o tempo ensina a consciência de desaprender o que antes parecia uma riqueza. Com os anos, e como um navio envelhecido pelas noites de mar, é melhor ir deixando um pouco da carga em cada porto. Abrindo espaço, no convés, para as saudades e os sonhos. Como os piratas que viviam nos oceanos a beleza das águas desertas... 

JOGO - A oposição, não declara, mas já trabalha com a hipótese de que o esvaziamento da sessão de ontem, da AL, foi uma manobra do governo com apoio velado do presidente da casa.

HUMOR - O bom humor, com a fuga dos governistas, ficou por conta do deputado José Dias, da oposição: “Já vi minoria fugir, mas, em 34 anos de Assembleia, nunca vi a maioria correr”. 

POSIÇÃO - Um deputado liga para explicar que a oposição não é contra o projeto de reforma da previdência: ‘Mas não precisa escancaradamente privilegiar os fortes e castigar os fracos”.

DÚVIDA - Reluz nesta tela a pergunta de um leitor que pede espaço: “Qual seria, no plenário da AL, o voto do então agressivo deputado Fernando Mineiro para a reforma da previdência?”

BREU - A julgar pelas reclamações que chegam a esta coluna a escuridão faz tanto medo aos moradores de alguns bairros como o Coronavírus. Cadê a Taxa de iluminação cobrada a todos?  

CHIADO - Não adianta a área da saúde do governo resmungar. O prefeito Álvaro Dias superou os próprios limites financeiros da Prefeitura e fixou bem sua imagem na população natalense. 

RANKING - O grupo Riachuelo está na 39ª posição no ranking das cem empresas doadoras financeiras para a luta contra o Coronavírus. Fez até agora a doação de R$ 18 milhões de reais.

ALIÁS - Ainda na edição de junho da Forbes, o empresário Flávio Rocha aponta o programa Pro-Sertão, no RN, como um exemplo de luta pela retomada da economia, mesmo na pandemia.

SINAL -  O placar de 13 a 11 que cravou a derrota da oposição pelo debate presencial da PEC da Previdência evidencia, até agora, a coesão da bancada oposicionista e revela que o governo não cuidou de pactuar antes da chegada ao plenário, alijando o Poder Legislativo da articulação.

MAIS - Ainda assim, o presidente da casa, Ezequiel Ferreira, ao apoiar os 13 votos, evitou que a discussão fosse presencial, sob a pressão das representações sindicais, punidas por quem devia representá-los na luta contra uma injusta cobrança da faixa entre um e seis salários mínimos.  

PIOR - A vitória de 13 a 11 alivia, mas expõe também a posição constrangedora do governo petista e, portanto, sindicalista: afastar a sua base sindical, sobre a qual construiu sua história e a própria vitória, aliando-se à força da caneta presidencial da AL que tanto criticou no passado.