Diário da Quarentena - LXXXIX

Publicação: 2020-07-24 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgação


Tenho comigo, Senhor Redator, há anos, que o radicalismo não leva ninguém à idiotice. Não leva. Os radicais são prisioneiros das suas próprias convicções, mas sabem manejar bem os argumentos que servem à sua certeza de ferro. Os idiotizados são os sectários, caudalosos e apopléticos, donos de ideias que não nascem deles, sem senso de confronto, e que borbulham no lodo pegajoso, quando não caem na velha servidão voluntária sem nenhum resguardo lógico.  

Para flagrar os radicais, basta provar do requinte dos lógicos e logicamente sustentados pelo discernimento crítico. Como outro dia, ao fazer a leitura, enviada por Aluísio Lacerda, do artigo de Ascânio Seleme, ex-editor de O Globo. Ele defende a tese de que está na hora de acabar com o ódio ao PT. Dono de 30% do eleitorado, é o que basta, segundo a sua visão, para se perceber que sem o eleitorado petista não é possível promover uma conciliação nacional.

No Brasil de hoje parece que há um forte processo de cristalização nos dois eleitorados definidos e nítidos, segundo demonstram as pesquisas: os petistas e os bolsonaristas. Somando, quando nada, reúnem cerca de 60% dos votos válidos.  Restam, em tese, 40% que abrigam os flutuantes e decisivos, mais os brancos, nulos e abstenções. É mais ou menos esse o Brasil que vai às ruas em 2022, mantida a polarização que hoje nutre, de bom proveito, para os dois lados.   

Para Celeme, nesse quadro feito de números projetados, mas plausíveis, não é possível florescer no Brasil de hoje um projeto de conciliação com a rejeição aos eleitores do PT, como quer parecer aos sectários bolsonaristas que só degradam o papel verdadeiro da Direita. Como não se justifica o repúdio intolerante aos nossos conservadores. Ora, eles existem e praticam seu ativismo nas mais avançadas civilizações. Não é diferente neste varonil Brasil brasileiro. 

É Celeme quem escreve, referindo-se aos petistas: “Esse grupamento político, talvez o mais forte e sustentável da história partidária brasileira, tem que ser readmitido no debate nacional. Passou da hora dos petistas serem reintegrados”. Depois: “Ninguém tem dúvida que os malfeitos foram amplamente punidos. O partido teve seu ex-presidente e maior líder preso e uma presidente impedida de continuar governando. Outros líderes foram presos e afastados”.  

Desassombrado, a serviço de ideias e não de dogmas, Celeme condena a gritaria contra o PT. “Já cansou”, afirma. Nos petistas, também vicejou o sectarismo e este pagou caro. Ele não tem dúvidas: ou o Brasil inclui no debate político o PT e todas as tendências ou não promove o debate. Não é a luta que nos atrasa e deslegitima a abrir o “caminho comum de paz social e prosperidade”, como adverte. É o sectarismo. Mas, ainda existe jornalismo no Brasil. 

TRAVA - Já é hora, a sete dias do 31 de julho, a data-limite, para alguém avisar à governadora Fátima Bezerra que o caminho é negociar com a oposição o projeto de reforma da previdência.

SABE - Com a sua experiência política, ela sabe que é assim. O presidente Jair Bolsonaro não fez outra coisa com o Fundeb. Recuava, como recuou, ou colhia uma bruta derrota em plenário. 

ALIÁS - No governo, ninguém sabe mais dessa verdade do que o presidente do IPERN, Nereu Linhares, sempre um defensor da instituição e dos segurados mais fragilizados. Ou mudou?

TRAVA - A governadora não removerá a trava se não recuar de algumas injustiças nascidas da visão precária da sua área técnica. Por achar que tendo o presidente domesticaria a Assembleia. 

NATAL - Racine Santos relança ‘Uma cidade vestida de sol’, de 1986, com as ilustrações de Newton Navarro. É lá que os bem-te-vis do seu quintal cantam como os galos de João Cabral.

JATO - Duríssima a entrevista à revista Cult do sociólogo potiguar, hoje de projeção nacional, Jessé Souza, sobre a Operação Lava Jato. Para ele, a Lava Jato foi desde o início coisa de máfia.

RUIM - O poeta Armando Freitas Filho festejou os seus oitenta anos dando uma entrevista e não se negou a falar de política, ao atirar: “Jair Bolsonaro é tão ruim que destruirá Bolsonaro”. 

SONO - De Nino, ao ouvir de um amigo a preocupação das mulheres com a beleza dos cabelos escovados: “Prefiro vê-los quando acordam - belos, íntimos, naturais, e ainda cheios de sono”.

MAL - Quando invadem os olhos e os ouvidos de uma sociedade, mesmo aldeã, tragédias tão dolorosas como a de irmãos que se matam e um casal que se destrói pela violência, é sinal de que estamos diante, desgraçadamente, da banalização do mal, como alertava Hannah Arendt.

ALIÁS - A grande filósofa alemã que denunciou o genocídio contra os judeus na Alemanha nazista, tem dois grandes leitores no Brasil: Celso Lafer, ex-ministro do exterior, seu ex-aluno; e Eduardo Jardim, filósofo. Nesta Natal trágica, quem conhece Hannah Arendt é Ivan Maciel 

ALIÁS - Por falar em Ivan Maciel, nunca é muito registrar sua posição exemplar, de firmeza e argumentação, ao defender no seu artigo de sábado, nesta TN, a necessidade de um pacto social para enfrenar a desigualdade. E sugere que se comece pelo imposto sobre as grandes fortunas.