Diário da Quarentena - XLIX

Publicação: 2020-06-06 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Agência Brasil


Quem tiver os olhos livres das madeixas da paixão verá que a vida pública brasileira nada mereceu de verdadeiramente valioso, nem mesmo uma grande revelação de real espírito público, quando as urnas foram engravidadas por fenômenos de ocasião. O exemplo, nas últimas décadas, foi a eleição de Fernando Collor. Arrebatou as multidões fáceis, tangidas pela falsa retórica dos justiceiros lançados como o furacão “colorido”, um altruístico e vigoroso ‘Caçador de Marajás’. 

Aquele que encheu as ruas e arrastou multidões foi o mesmo que antes da metade do seu governo encheu as mesmas ruas do desejo de derrubá-lo. No governo, promoveu a grande segunda abertura dos portos, depois do Príncipe-Regente, em 1808, pondo fim ao isolamento de um Brasil de portas fechadas para o mundo, mas meteu-se numa crise de todas origens, inclusive familiares, até acabar defenestrado pelo impeachment, num período meteórico, sob as chamas da corrupção.  

Isole-se a corrupção que derrubou Collor com experiência de ex-governador das Alagoas, e que também derrubaria Dilma Rousseff, esta por crime de responsabilidade. E fiquemos apenas no plano dos fenômenos. O que produzimos de consistente na vida pública? Três núcleos foram até promissores: a vida artística, o futebol e os movimentos evangélicos. Agora, numa ascensão da Direita, os militares de todas as patentes lastreados pela inegável tradição de força e confiança.

Qual o desempenho que os jogadores, artistas, apresentadores, pastores evangélicos e os militares, todos legitimados pelo voto, oferecem à vida pública brasileira ou aos seus estados de origem? Defendem as liberdades democráticas que juraram diante da Constituição? São oradores erguendo a ira santa em defesa dos mais necessitados? Ou populistas e corporativistas, buscando vantagens funcionais e outros defendendo isenção para igrejas, clubes e seus cachês milionários? 

Esses fenomenológicos, por assim dizer, nada acrescentam ao exercício da vida pública a não ser, e apenas, o sempre aprofundamento da mediocridade, da atuação rasa e pobre que a falta de talento logo sabe denunciar. Quem conversar com qualquer carioca de bom senso vai constatar o desastre que é a gestão do prefeito do Rio, Marcelo Crivella. E quem acompanha os plenários da Câmara e do Senado logo vai perceber a precariedade dos que chagaram lá sem lastro de cultura política.

Por sobre esses exemplos, entre bolas de futebol, palcos, bíblias e dragonas, não precisa ir longe: basta acompanhar, sem aquelas madeixas das paixões, o cenário político. Nacional e local, tanto faz. Ideias, falas, manifestações. E assistirá a opereta trágica de um país perdido nos jogos da ambição e da mediocridade, a chafurdar, vaidosa e barulhenta, no charco das pequenas ideias. Enquanto a peste devora os milhares de brasileiros jogados à fogueira da inquisição do abandono.  

ALERTA - Está na hora exata da Defensoria Pública questionar essa decisão de fechar as portas de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em nome da crise. É crime em hora de vida ou morte.

PERDA - O povo de Montanhas perdeu as boas orações do padre Ailson Bezerra, administrador da paróquia de São João Batista. Vítima do Coronavírus, foi atendido na UPA de Canguaretama.

VALOR - Uma carta manuscrita de Câmara Cascudo ao escritor Antônio Olinto foi arrematada em São Paulo, leiloada por uma livraria antiquária, por um lance que ultrapassou a R$ 300 reais. 

ARROJO - Saber vencer é fazer como a empresa iFood, de S. Paulo. Durante os trinta dias de abril fez 30,6 milhões de entregas via delivery, superando o seu próprio desempenho antes da crise.

NOME - O seridoense Mércio Gomes, um dos maiores antropólogos do Brasil, pode disputar a vaga de Murilo Melo Filho na Academia Brasileira de Letras. Ele foi secretário de cultura do Rio.

BASE - Autor de livros referenciais sobre a cultura indígena no Brasil, mestre e doutor, Mércio é autor do livro “O Brasil Inevitável”, no qual retoma a linha das grandes visões do homem brasileiro.

FLOR - Vem ai, e alambicada sob o olhar de Mano Targino, uma cachaça artesanal, de pequena produção, para os que gostam da musa: ‘Flor do Sertão’. Suave como um velho e milagroso elixir.

BEIJO - Do filósofo Luiz Felipe Pondé provocado sobre a vida virtual que virá depois da peste, agora que o mundo já aprendeu a viver na solidão: “É ideal, mas só para quem não gosta de beijar”.

SUCESSO - Explode nos Estados Unidos, e esgota em apenas vinte e quatro horas de vendas, a nova tradução para o inglês do mais estudado dos romances de Machado de Assis: ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’. A edição é da Penguin Classics e chegou às livrarias na quarta-feira.

FORTE - O sucesso é explicado pelos elogios da revista ‘The New Yorker’, a mais credenciada publicação de crítica literária nos EUA, à nova tradução, de Flora Thomson-DeVeaux, com um prefácio apontado como consagrador, de David Eggers. Já estaria esgotado na própria Amazon. 

GLÓRIA - A trilha gloriosa do ‘Bruxo do Cosme Velho’ já tem na sua história a consagração de nomes como Harold Bloon, Wood Allen, Susan Sontag e Philip Roth. Antes da nova tradução de ‘Brás Cubas’ já registrara o sucesso com os seus contos muito bem recebidos pelos americanos.  





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