Diário da Quarentena - XLV

Publicação: 2020-06-02 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


É verdade, aqui há um cuidado do cronista em não nomear o dito e o não dito dos leitores. Para preservá-los. Importa o que questionam. Pode ser tético, diriam os hermeneutas, ou apenas patético e até peripatético. Tudo tem algum sentido se o que se afirma e oferece serve ao atrito das ideias. O inútil só é inútil quando não consegue cumprir aquilo que os velhos cronistas chamavam de desiderato. Ou seja, se não carrega a força e o desejo na instigação do espírito. 

Ninguém que tenha meio século de vida exposta nas páginas de um jornal pode temer as pedradas da desafeição. Se não é feito de mera grosseria, jogadas pelos desafetos gratuitos, tudo vale no jornalismo. A serventia está nos fatos, se são reais e se interferem, de alguma forma, na vida coletiva. Não importa que sirva apenas ao exercício das ilações. Muitas vezes, ir bem além do apenas provável leva o raciocínio a romper os limites e a jogar os olhos por sobre os muros.

Outro dia, de forma bem humorada, um amigo defendeu mais temas políticos. Do que as divagações líricas ou sobre livros. Para ele, é urgente a discussão permanente sobre a liberdade de expressão como bem essencial. Tem razão. Liberdade de expressão não tem lado, é um direito de todos. Que a sociedade se divida, entre bolsonaristas uns e lulistas outros, é um direito natural, e mesmo com a incômoda sensação de ser impossível escolher o melhor. Com a liberdade, não.

Não é fácil, no século XXI, ouvir a grosseria discriminatória de Paulo Guedes, o ministro da economia de um governo eleito democraticamente, dizer, num regozijo de podre crueldade: “Já colocamos a bomba no bolso do inimigo”. São inimigos, pois, os servidores públicos a quem perpetra explodir a vida? Ele que se declarou filho de pai funcionário público e mãe professora, que fez fortuna por capacidade, sim, mas ao gerenciar os fundos de pensão, um dinheiro público?

O neoliberalismo caboclo que o Brasil hoje põe em prática é uma mistura de perversidade e perversão. Os sacrifícios precisam ser aceitos, se para todos. Desconhecer as castas formadas ao longo dos anos posteriores à promulgação da Constituição é punir os mais fracos. Quem lançar os olhos na pirâmide salarial vai constatar que não estão na base as distorções, mas elas existem lá no cume, nas bem encasteladas elites e os seus elevados salários, berloques e penduricalhos. 

A discussão política não pode ser postergada, mas a vida tem muitas faces. Nesta hora, há ser permanente o enfrentamento de posições e ideias em busca dos freios e contrapesos, base salutar da independência e harmonia dos poderes no sistema democrático de direito. Para que todos tenham vida, o Estado tem que atuar a serviço da Nação e da paz social. A economia, com o Deus do Mercado, só cresce se não repousar, permanentemente, sobre a inquietação social. 

GESTO - Uma coragem digna tocada pelo destemor a entrevista de George Antunes, secretário de saúde de Natal, ao criticar duramente o fim do confinamento social. É uma tragédia anunciada.

PICO - Todos os cálculos, e Antunes demonstrou, será em torno de 15 de junho, se mantido o confinamento. Só então será alcançado um platô e quinze dias depois virá a queda do Convi-19.

CRIME - Antunes classificou um verdadeiro crime o fechamento do atendimento da Unidade de Pronto-Atendimento de Parnamirim. UPA não pode fechar a sua porta. Por qualquer motivo. 

VACINA - Nestes tempos de pandemia o bem vacinar-se passou a ser investimento. Nas clínicas particulares as vacinas vão de menos de R$ 100 até R$ 680 reais. De gripe A1N1 até meningite.

RETRATO - Foi varrido de vez, como esta coluna anunciou, o nome de Henrique Castriciano da Escola Doméstica de Natal. Uma instituição que vende a tradição que ela mesma não respeita.

FEIO - Na sua fachada, com novas placas, foi mantido apenas o nome de Noilde Ramalho como se a criadora de tudo. Os que hoje ganham com a Liga negam quem a criou sem ganhar um tostão. 

BORDUNA - De Leandro Karnal, professor, mestre, doutor, o escambau: “Se alguém acha que o conhecimento traz a felicidade, recomendo assistir a uma reunião de docentes de universidade”.

LEMBRE - Definição de ‘borduna’, do Antônio Houaiss, para quem não gosta de índios: “Arma indígena de ataque, defesa, caça. Peça cilíndrica e alongada, feita de madeira dura; tacape, clava”. 

RISCO - Não basta ao Ministério Público achar que deve haver redução no valor da mensalidade escolar. Não lhe é dado ser simples assim. É preciso preservar o princípio da razoabilidade, se há circunstâncias plausíveis e se houve ou não uma redução dos custos, mesmo com aulas remotas. 

MAIS - É muito pouco provável que as boas escolas, e temos várias de qualidade incontestável, tenham dispensado seus professores movidas por dificuldades transitórias. O MP deve ter todo cuidado para não extrapolar e generalizar, antes de atentar contra a saúde financeira das escolas. 

AINDA - Não cabe ao MP desconhecer os direitos do consumidor, posto que tem a proteção da lei, mas também não pode perder de vista sua função social na busca de evitar a redução de empregos. A hora é grave para diretores, professores e alunos. E ninguém vai se salvar sozinho.





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