Diário da Quarentena - XLVII

Publicação: 2020-06-05 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Toda conversa vem de uma meada de assuntos e cada meada tem seu fio. Um dia desses resolvi provocar Mano Targino e perguntei se ele conhecia a expressão ‘fulengo’. Não viveu no sertão velho e por isso não a herdou. Ouvi, há muitos anos, do historiador Oswaldo de Souza, pianista formado no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, conservador técnico do Patrimônio Histórico, e que tinha no gosto os hábitos que o tempo esquece e depois relembra. 

Oswaldo, é bom fixar, é filho de Cícero de Souza, irmão do governador e romancista Antônio de Souza, o ‘Policarpo Feitosa’, de ‘Gizinha’. Foi menino na vivenda que existiu na esquina da Prudente de Morais com a Potengi, diagonal com a Praça Pedro Velho, derrubada a tromba de trator, hoje edifício que até outro dia tinha o nome de Potengi Flat, modernidade ianque que venceu a tradição arquitetônica da cidade sempre em nome do grande progresso. 

Oswaldo era bom cozinheiro, quando ninguém era chamado de chef. Cozinhava para os amigos, e com a bela alquimia, aqueles pratos da mesa nordestina tradicional. D. Lourdes, sua mulher, paulista de origem alemã, enfermeira do esforço de guerra sem ter saído de São Paulo, sabia do segredo das ervas de gosto e de cheiro, mas dizia que os pratos do sertão eram tarefas de Oswaldo. Seu vatapá era imbatível, assim como os belos assados de carneiro e de cabrito. 

Era um marchante das Rocas que cuidava de conseguir o ‘carneiro-mamão’, de até três meses, de preferência, ou então o ‘fulengo’, que era como ele chamava o cabrito com a mesma precocidade. Fazia as bandas ao forno e o mistério estava justamente em ter a carne tão tenra que se desfazia na boca. Quando achava que havia acertado mais do que nunca, e posto que era conservador histórico, dizia sempre, com regozijo: “Merece ser tombado pelo Patrimônio”. 

Tudo só para reconhecer que não há no acervo do Guia Ortográfico o registro das duas expressões: ‘carneiro-mamão’ e ‘cabrito-fulengo’. O ‘mamão’ é de mais fácil percepção pelo sentido macio da polpa do mamão, se comparada à maciez da carne precocemente abatida. Já a expressão ‘fulengo’, e que só ouvi até hoje de Oswaldo de Souza, permite a aproximação pela força da semelhança. Não existe nem no “Vocabulário do Criatório”, de Oswaldo Lamartine. 

Está no dicionário dos falares alagoanos, hoje no Google. Provavelmente vem de ‘mole, sem força, fraco, sem valor’. Como vive no linguajar popular dos baianos, significando ‘fraco e raquítico’, e é dança popular em Cachoeira, uma cidade histórica próxima a Salvador. Há outros caminhos, mas um presidiário a escrever longe dos livros, pode muito pouco, quase nada. E até onde andei e anotei, nada tem com ‘Fuleco’ que parece ser o perdedor nos jogos de azar. 

PESOS - Pelo menos dois advogados pesos pesados exigirão, na Justiça, o pagamento da dívida do governo federal a seus clientes, quando da desapropriação dos 1.500 hectares do aeroporto. 

TESE - Diógenes da Cunha Lima e Ezequias Pegado defendem a tese a partir da Constituição:   a lei maior manda pagar em espécie, de forma prévia, e justa. Há vinte anos prevalece o calote.

GUERRA - O potiguar Jessé Souza lança novo livro: “A guerra contra o Brasil: como os EUA se uniram a uma organização criminosa para destruir o sonho brasileiro”. Sextante, SP, R$ 39,9.

ELOGIO - Exemplar os gestos do prefeito Álvaro Dias e do secretário George Antunes na busca do ponto comum. Com os dois a luta contra a pandemia fica mais fácil. Venceu a cidade. 

PACTO - Nas sociedades marcadas pelo confronto exacerbado, como hoje vive este Brasil, o vício reside na busca de vitoriosos e derrotados. A soberania da política está em saber pactuar.

FORTE - O prefeito Álvaro Dias chutou o pau da barrava e surpreendeu a própria imprensa mergulhada na letargia de mapas estatísticos sem enxergar a grave ameaça à vida do natalense. 

BREU - Da Redinha vem a reclamação: escuridão, com lâmpadas queimadas nos postes. Cadê a Taxa de Iluminação Pública? Cadê a luz para se diminuir a violência? Cadê as providências? 

CHARME - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, abatido depois de noventa dias de reclusão: “Resta a máscara a esconder o silêncio do rosto como se os olhos não falassem”.  

SINAIS - Há mais de duas semanas que as áreas técnicas do Governo e da Prefeitura já temiam a elevação da curva de contaminação, quando o rastro andasse na direção dos bairros afastados e de mais difícil isolamento social. Um quadro que parece já instalado nestas últimas 48 horas. 

COMITÊ - O agravamento, ontem, teve a constatação do Comitê Científico diante de números registrados e aumento de 75% na hora de colapso da rede hospitalar com alguns hospitais já fechados, inclusive com Unidade de Pronto Atendimento (UPA). O lockdown seria a solução.

PIOR - A estrutura montada em Natal enfrenta fortes pressões, muito acima da capacidade de atendimento, diante da deficiência das cidades vizinhas com suas populações elevados e sem serviços médicos compatíveis. Para uma fonte da área médica, o lockdown deveria ser adotado.   






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