Diário da Quarentena - XXXIX

Publicação: 2020-05-26 00:00:00
A+ A-
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Foram bonitas, Senhor Redator, as manhãs e tardes de maio. Se não foram como as manhãs de abril, do poeta Lêdo Ivo, aquelas de quando o mar se ausenta, foram elegíacas. De um sol que encheu a vida de alegria com os cantos, trinados e gorjeios, e até nos pios dos passarinhos humildes e sem nome. Nos dias chuvosos que não são tristes, mas cismarentos. Primavera tímida que não fugiu dos longes, agora que os ipês e as sucupiras esconderam a beleza no silêncio verde dos morros. 

Bonitas, principalmente, pela paz de um mundo sem novidades, de horas estiradas e lentas que se vão indo sem notícias que sirvam aos jornais. Abril, mês dos meus anos, foi embora calmo e sem pressa e veio maio que, este ano, com a peste, não pôde ser das noivas, como antigamente, e se é possível esse acento diferencial que um acordo ortográfico fez cair de moda. E se insisto em usá-lo é só por viver inconformado com umas tantas coisas modernosas que inventam de vez em quando. 

Gosto de abril não por mim mesmo, mas porque nele, em um dos seus dias, nasceu meu pai, e foi dele que herdei essa fé mariana que reencontro a cada maio. E lembro do meu pai e meu avô na procissão, cumprindo o mês de Maria. Das novenas que ainda vivi na matriz da minha cidade, a Elevação do Santíssimo, a bênção humaníssima que vinha das mãos de Monsenhor Honório, o santo da minha terra. Da retreta que saudava, num dobrado marinheiro, um cisne branco em noite de lua.

Nem sei se há alguma serventia para os outros essas lembranças tão antigas, imprestáveis, tão pessoais. A culpa é das tardes de maio. De repente, tudo flutua no mar da memória afetiva. E passam como se boiassem na correnteza do rio da infância que corre na alma parnasiana, feita de miudezas que não servem mais. Sim, passam entre os barcos adormecidos na noite sem fim dos seus cavernames, com suas quilhas caladas, seus tombadilhos mortos, lavados pelas marés em preamar. 

É que os anos, de vez em quando, e com o movimento suave das lembranças nessas tardes fagueiras, acordam saudades que dormem na solidão do sótão. A gente acaba sentando na poltrona que ficou, com seu forro puído, e vai desfiando notícias velhas de um jornal amarelado e sujo que o tempo abandonou. Onde foi parar o velocípede das circunavegações que fazia naquelas marítimas viagens diante do meu mar antigo? E o trem que dava voltas e voltas nos olhos curiosos do menino?

Como no poema de Manuel Bandeira, nunca vou esquecer das minhas noites de São João, no colo da minha mãe, e meu pai soltando fogos e balões. A vida parecia tão fácil para o menino, então filho único, sem saber que o tempo escondia perigos. Só fui apresentado à tristeza anos depois, ao perder minha tia Edianewbe. Ainda tenho, nas retinas fatigadas, como no verso célebre do poeta, o seu riso carinhoso que a beleza dessa manhã reacende. Como se fosse uma primavera de verdade.  

TESTE - Um dos mais tradicionais e qualificados leitores da coluna, do grupo de risco - pela idade e as comorbidades das quais é portador - já luta há dias para testar o Covid-19 através da Unimed.

TORNEIO - Cliente de um dos mais credenciados infectologistas da cidade, não tem êxito quando tenta marcar via sistema on line. E a Unimed montou a unidade só para atender casos do Covid-19. 

DÍFÍCIL - Não é justo duvidar da Unimed, um o plano de saúde do melhor padrão de médicos no Estado, mas às vezes a burocracia, pela demora, acaba sendo interpretada por descaso e desapreço. 

ANIMUS - Ao argumentar com hemorroidas e oxiúros como metáforas do ódio da oposição ao seu governo, fica provado: a solução para blindar Jair Bolsonaro é contratar um ministro- proctologista.

MARUJO - Para Ruben G. Nunes, esse velho marujo de muitas travessias marítimas nos olhos das mulheres que amou nos mares de mundo: gratíssimo pela força. Tê-lo como leitor é um privilégio.

AZUL - Quem escreve e salva a alma confinada e triste, é Luiz Rezende Puech, o grande livreiro que largou o expediente e curte no jeito requintado de ser e de quem sabe usufruir a alegria de viver.

VIVA! - Cláudio Burrão, assim chamado por velho carinho, saiu do hospital e foi para casa são e salvo, depois de enfrentar o Coronavírus. Curou-se principalmente com sua grande alegria de viver. 

FOCO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, vendo as críticas aos ministro Celso de Melo, do STF, ao divulgar a gravação da reunião ministerial: “Pior do que petista só bolsonarista”.

ARENA - Duas leituras caminham com seus pés de lã nos corredores agora virtuais da Assembléia Legislativa, de olhos pregados na formação da Comissão Parlamentar de Inquérito. Os cinco nomes são, na visão de algumas cobras peçonhentas, um bom retrato dos caminhos que a CPI pode trilhar.

NOMES -  Lá estão dois adversários declarados da prefeita Rosalba Ciarlini - foi durante seu governo a construção da Arena das Dunas, objeto da CPI: Alysson Bezerra, do Solidariedade, um candidato das oposições a Rosalba Ciarlini; e a deputada petista Isolda Dantas, indicada pelo partido.

MAIS - O tom da CPI passa pela escolha do presidente. Duro, se for o deputado Sandro Pimentel (PSOL); ou o deputado-coronel André Azevedo. Tem o deputado Tomba Faria, mas este parece não querer tanto. O presidente da AL, Ezequiel Ferreira, lavou as suas mãos. Como Pilatos? Nem tanto...  






Deixe seu comentário!

Comentários