Diário da Quarentena - XXXVI

Publicação: 2020-05-22 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


As palavras também se rebelam. Até na boca e nas mãos dos que são mais treinados para o ofício da fala e da escrita. O exemplo flagrante veio na frase recente, e profundamente infeliz, do ex-presidente Lula. No regozijo de agredir ao presidente Jair Bolsonaro, interpôs, pela força do ímpeto, um ‘ainda bem’ como juízo de valor. Se tivesse dito que um monstro devastador veio para revelar outro monstro, ambos ferozes e deploráveis, teria escapado do destrambelho injustificável.

Quem maneja com a palavra sabe, ou deveria saber, que muitas vezes só se percebe a força e o sentido do dito quando apresentado em letra de forma. A mensagem pertence a quem recebe. Na rebelião, a fera foge da jaula e morde os próprios lábios de quem abriu a boca. É comum, no improviso, fugirem os impropérios. E nem sempre pedir desculpa basta para fechar a ferida aberta. Como o gato, a palavra tem sete fôlegos ou sete vidas. Ou como os tigres famintos e devoradores. 

É como o gesto que escapa das mãos. O mundo viu, espantado, quando em cena ao vivo o Papa Francisco, jesuíta com voto de humildade, arrancou sua própria mão das mãos de uma pobre mulher, e ainda deu um tapa, que ela desejava apenas, e só, tocá-lo mais intensa e demoradamente pelo místico de poder ter a mão do Papa entre as suas. Não houve nenhuma intenção de agredi-lo e nem ele de revidar, mas a cena, inesperada, ganhou o mundo, agora eterna na memória coletiva.  

A rigor, ninguém escraviza a palavra e o gesto. Ninguém. Não é à toa que a crítica tem hoje tão grandes e eruditos estudos sobre a psicanálise, e perscrutando até os contos de fada, como nos atos falhos que acabam revelando desejos ou afirmações que não poderiam ser manifestados ou expostos. É que as palavras são matizadas pela tintura das intenções. São traidoras das melhores argúcias. Falar e escrever é um jogo com todos os riscos e perigos e jogado acima dos desejos.  

Palanqueiro de longo curso, nem assim Lula está imune ao pôquer e os seus blefes no jogo com as palavras. A sua frase não foi apenas deselegante. Foi desastrosa. Festejou a tragédia que naquela hora já ceifara dezoito mil mortes. Agrediu não ao seu algoz, a quem a opinião pública, na fora coletiva e anônima no plano individual, já vinha e já vem condenando, a julgar pelas pesquisas. Agrediu a quem perdera milhares de pais, filhos, irmãos e amigos. Foi um estrupício. 

O próprio Jair Bolsonaro, na sua gramática de quartel, paga a seu modo o preço de abrir a boca como se fosse uma jaula, soltando as feras de sua ira nascida de um forte temperamento muitas vezes sem fronteiras e caída nos deslimites. Aliás, a condição de proeminência de Lula e Bolsonaro sempre vai exigir sua forma de liturgia. Eles enfrentam o tribunal draconiano da opinião pública, essa usina de heróis e bandidos que, para condenar sem apelação, basta uma palavra.

VALOR - Um grupo de imortais, em homenagem ao Dr. João Wilson Mendes Melo, deseja ter Luiz Eduardo Brandão Suassuna para sucedê-lo na “Academia Norte-Rio-Grandense de Letras”.

JUSTO - Luiz Cláudio tem todas as credenciais. Como o antecessor, também foi Pró-Reitor de Assuntos Estudantis, professor de História da UFRN, historiador e um católico de bela atuação. 

BREU - Vários postes estão com suas lâmpadas queimadas em toda extensão do Quartel da PM, na Av. Rodrigues Alves. Mesmo sendo sede da força policial militar a escuridão é injustificável.

PRELO - Até final do ano a Câmara Federal lança as novas edições de ‘O Homem que Pintava Cavalos Azuis’ e o ‘Perfil Parlamentar’. É Djalma Marinho, segundo Diógenes da Cunha Lima.  

COICE - Foi na ponta do queixo dos dezoito mil brasileiros mortos a frase desrespeitosa de Lula gratificado pelo monstro do Coronavírus ao revelar outro monstro. E soltou a desculpa amarela. 

EFEITO - O maniqueísmo é irracional. Há brasileiros contra a cloroquina porque Lula é contra; e favorável porque Bolsonaro quer. A ciência, senhora da razão científica, o Brasil já descartou. 

AVISO - Esta coluna em hora nenhuma propôs que o ‘Sistema S’ mudasse de ideia quanto ao uso de ‘Caninga’. Transcreveu Houaiss. Esta coluna sempre soube que o ‘Sistema S’ pode tudo.

GESTO - Compre livros na Cooperativa Cultural do Campus, via WhatsApp. Basta consultar sua seleção de livros no comunicacaocooperativacultural@gmail.com. E faça seu pedido on line.

ERRO -  Conhecedores do outro mundo que é Brasília, estão convencidos de que não prospera o projeto de lei da deputada Natália Bonavides propondo o imposto sobre grandes fortunas Pode até fazer sentido. A ideia é antiga, mas não deve acontecer desligada de uma reforma tributária ampla. 

ALIÁS - Para as mesmas fontes, o imposto sobre grandes fortunas não se aplicaria aqui no Estado, mas nas ricas economias de São Paulo, Rio, Minas, Paraná, Rio Grande do Sul. E não fará milagres tributários como espera a deputada. Mesmo que possa representar mais alguns milhares de receita. 

LUTA - Médicos infectologistas de Mossoró, pelas informações que chegam, estão convencidos de que a vizinhança com o Ceará exige uma forte ação de controle do movimento de contaminação que vem dos altos índices cearenses. E nós não somos eficientes em matéria de barreiras sanitárias.





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