Diário da Quarentena - XXXVII

Publicação: 2020-05-23 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Ao contrário do escritor formal, assim tido e havido pelo uso nobre e luxuoso da palavra, o cronista é um especialista em miudezas, respondo ao leitor. Se não fosse cronista, seria camelô, de tabuleiro cheio de gangas e bugigangas. E ganga, aqui, há de ser tudo. Do tecido mais barato às ninharias e rebotalhos que a gente vai colhendo com as mãos dos olhos - esse meio jeito invisível de guardar as migalhas e nelas encontrar pequenas histórias da vida tola e comum de todos os dias. 

O leitor tem razão, melhor é ser escritor, naquela contenção própria de quem sente as dores do mundo. Não sendo, e se varrido pela banalidade, vive do pouco que sobra. Esse farelo não serve à nobreza literária. Mas, há uma diferença em favor do cronista: não ter os deveres para com a profundidade dos grandes temas. O cronista é raso, naturalmente e assumidamente superficial, feito para tocar de leve as flores e os espinhos da vida real e, às vezes, transformá-los em sonhos.   

 A crônica nunca foi muito bem compreendida. O artigo se consagrou no mesmo espaço - o jornal - assim como o ensaio jornalístico, curto e mais atual. A crônica, não. Sempre padeceu no purgatório das coisas efêmeras. E olhe, Senhor Redator, que nunca lhe faltaram marcas nobres como Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, para falar de antes de ontem. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, de ontem; ou de hoje, um Luis Fernando Veríssimo.

Poucos reconhecem que a única nobreza da crônica é justamente a sua relação íntima com todas as coisas banais. É ser capaz de, sem soberba, garimpar no cascalho os minúsculos diamantes quando, no brilho quase invisível, contam, por exemplo, a pequena história de amor como nunca foi contada antes. E como é desafiador para quem colhe idéias e maneja palavras contar a história de amor que ninguém ainda contou. Ou flagrar a beleza tristíssima dos olhos escondida pelo riso. 

A rigor, o cronista não tem obrigação nenhuma de saber das novidades. Sua alma é feita de sensações e afeições já meio antigas e que só por isso, por inesperadas, às vezes despertam algum interesse no leitor. Contamos histórias, é verdade, e este ofício não tem nada de fácil como parece a alguns. Pequenos romances, novelas e contos de algumas poucas linhas e uns rápidos minutos de leitura. Ou o cronista fisga o olho do leitor na primeira frase ou a crônica desce no gole de café.

E se um cronista tivesse que justificar a utilidade da crônica, diria que é nenhuma. Por uma razão simples: a crônica não foi criada para ser útil, principalmente se a sua utilidade é apenas para se deixar tingir daquele utilitarismo dos doutos. Sua inutilidade, desculpem a soberba do vitupério, é justamente o que há de mais nobre com a sua carne de segunda. Se, às vezes, na artimanha das palavras, biografa a alegria, a tristeza, o amor ou o ódio do leitor, é apenas invenção de cronista...  

COVID - O médico Marcos Zerôncio, de Natal, foi o único brasileiro no encontro da Sociedade Dominicana, a vídeoconferência sobre Covid-19 na área das inflamações do aparelho digestivo. 

BRILHO - Ele é considerado hoje um dos mais qualificados em doenças inflamatórias intestinais no continente sul-americano. Sua exposição, no melhor espanhol, foi transmitida para todo Caribe. 

VIVA - Ninguém creia na morte da JBS, o célebre frigorífico dos irmãos Batista: acaba de doar R$ 700 milhões de reais à luta contra o Coronavírus. Assim: R$ 400 ao Brasil e R$ 300 aos EUA.

ALIÁS - A julgar pelas notícias, os irmãos Batista estão com suas empresas muito bem blindadas nos Estados Unidos e é de lá, do braço americano, que vem reconstruindo sua fortaleza industrial. 

SÉCULO - A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras tem dois séculos a celebrar: neste 2020 os cem anos do Cardeal Dom Eugênio de Araujo Sales; e, em 2021, os 100 anos de Aluizio Alves.

TRALHA - Natal vai ganhar uma nova loja de conveniência, a Tralha. Especializada em produtos nacionais, internacionais e locais. Com os produtos Cangaíra, de Mano Targino, e seus presuntos. 

RESPOSTA - Caningar é verbo transitivo direto, diz a regra, como você informa. E Caninga é substantivo. Sabe-se: “caningar é chatear, incomodar, perturbar”. A quem está à beira da morte?
 
OLHO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama quando ouviu um companheiro de mesa reclamar das mulheres que passam e não deixam sequer um olhar: “Pior são as que ficam”.

EFEITO - Um empresário local ligado ao turismo, desses com os pés no chão, afirmava esses dias que a crise no setor será uma das maiores passados os efeitos do Coronavírus. Tende a se prolongar por mais tempos dos que nas outras áreas pela fragilidade da nossa estrutura e ausência de gestão. 

BASES - Na sua opinião, contando com mais de vinte anos de experiência, o Ceará, a Paraíba e Pernambuco dispõem de estruturas de governo eficientes, a partir das quais a retomada será mais fácil para o verão que marca a estação alta. A menos que os efeitos do Covid-19 se prolonguem. 

CRISE - Na sua avaliação, a crise do turismo tende, hoje, a se aprofundar ainda mais fortemente no Estado, depois de quase dois anos praticamente perdidos. Chega a admitir que outros hotéis correm risco de colapso. E avisa: “Os que estão bem, sobreviverão. Mas, nem todos vão suportar”.   





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