Diário da Quarentena - XXXVIII

Publicação: 2020-05-24 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Nunca esqueci. Um começo de tarde, entrevistando Newton Navarro na sua casa de Nova Dimensão, ele oferecendo um coelho ao forno que elogiava e insistia sem que chegasse a coragem para aceitar. Anotei quando pôs toda força de um superlativo absoluto sintético na frase célebre de Guimarães Rosa: “Se ele tivesse vivido em Natal, teria dito que viver é perigosíssimo”. E lavou os olhos de uma discreta ironia ao registrar a falta de apoio para divulgar sua obra de artista plástico. 

Anos depois, como se as ideias de algum modo se encontrassem, ouvi de Luiz Maria Alves, sempre dele, que Natal era a aldeia das mais conspícuas nulidades. Logo bem assim, dito de forma inesperada, pareceu um impropério. Mas depois, mastigando melhor para ajudar no apuro do gosto nas teias finíssimas das papilas gustativas, fui sentindo mais fortemente seu fel se é que o sentido tem paladar. Somos feitos de heróis que nunca lutaram e nobres de um reinado que jamais existiu.

Nem preciso lembrar os nossos abandonos. De Miguelinho, o herói da liberdade; de João Maria, o santo dos pobres; de Varela Santiago, o protetor das crianças. Pra quê? Fico no chão que nos restou, com sua fauna contemporânea, para usar o coletivo mordaz, e verdadeiro, de Esmeraldo Siqueira. Nossos animais foram e são todos eles muito racionais. E tão racionalmente certeiros que hoje pululam na nossa história antiga e moderna como se fossem grandes construtores de destinos.  

Fazer o quê, Senhor Redator, se foi a herança que nos coube, se assim seguimos o cortejo das nossas frustrações? Somos o que desejamos ser. Sem tirar nem por. E se não fomos mais, mais não fizemos para que fôssemos. Tudo aconteceu na consagração destrambelhada descendo ladeira abaixo na disparada dos desastres que colecionamos nesse falso fulgor. Somos o que somos. Nada mais. E assim seremos, por muito tempo, se entregamos nosso destino às conspícuas nulidades.  

O que nos aprisiona não é a falta de fortunas - do níquel ou da grandeza de ideias - mas a incapacidade de não sabê-las como algo possível no altruísmo estéril que compôs, até hoje, as loas melosas das nossas copiosas adjetivações. Só viriam do gesto, da capacidade de superação, da boa vaidade e do bom orgulho, tudo quanto não tivemos. Caímos no pedantismo tolo e hoje pagamos pelas ideias pobres que jamais fecundaram e fecundarão a terra fértil. Já arde o risco da miséria.

Desde a Capitania de João de Barro, inóspita por abandono, até os dias de hoje, mais de quatro séculos depois, teimamos no escambo das frases de efeito e afiamos a nossa loquacidade feérica e inútil. Nos floreios de uma oralidade que, se impressionou nossas multidões ignaras, não foi além. Amesquinhamos a nós mesmos nos torneios provincianos em torno de um poder que não pode. Como os sargaços que vão e vêm, com as marés, em tristes e inúteis marolas de desilusões.

ALÍVIO - Tem gente convencida de que recebendo de ajuda federal praticamente um bilhão de reais, o governo e prefeituras na nova aliança, abrirão a porta do cofre da União. Apesar da crise.

AJUDA - A grana, se for apenas esta, analisa a mesma fonte, não resolve, mas pode ser a varinha de condão junto a Planalto que parece ter entendido ser mais difícil governar sem os governadores.

MASSACRE -  No Brasil o Covid-19 já provocou 40 milhões de pedidos do seguro-desemprego e matou mais de 20 mil. Os bolsonaristas acham tudo natural. E festejam a cloroquina e a tubaína. 

CRISE - A reunião dos governadores não deixou como fruto apenas a ajuda financeira. A herança maior foi a demonstração de que os governantes tinham a Câmara, Senado e o Supremo Tribunal.
DETALHE - É que a Constituição, no regime federativo adotado pelo Brasil, deu aos estados uma autonomia legal sobre seus territórios. O confinamento do Covid revelou e o Supremo confirmou. 

BLEFE - De um pequeno empresário local que prefere não ter o nome exposto à ira manhosa dos malabaristas da aldeia: “O Covid prova que os pequenos são desprotegidos. Era tudo marketing”.

BANDIDO - Da médica Angelita Gama, 87 anos, hoje a maior cirurgiã do aparelho intestinal na América do Sul, depois de 14 dias de UTI com Covid-19, na síntese perfeita: ‘É um vírus bandido’.

LEITURA - Nas livrarias brasileiras, duas traduções: ‘Contra a Interpretação’, ensaios literários de Susan Sontag; e ‘Migração e Intolerância’, com quatro ensaios-conferências de Umberto Eco.

‘E DAI?’ - Um leitor, em razão da crônica de sexta-feira - sobre a rebelião das palavras - escreve para lembrar a resposta do presidente Jair Bolsonaro naquele ‘E daí?’ grosseiro e desrespeitador na hora em que o Brasil ultrapassou cinco mil mortes. Já estamos além de vinte mil vidas ceifadas. 

ALIÁS - Só para lembrar: naquela hora, quando o Covid-19 contabilizou mais de 58 mil vítimas fatais de americanos mortos, bateu os 58 mil soldados americanos que perderam a vida na Guerra do Vietnam. Agora já morreram 85 mil norte-americanos. Pode chegar a duas guerras do Vietnam.   

TRÁGICO - Como mostram os números, o Covid-19 é a peste que se transforma na maior tragédia já enfrentada pelo mundo no último século, depois da Gripe Espanhola (1918-1920). A estimativa, em 1920, foi de 50 milhões de mortos. A peste do Covid-19, 100 anos depois, mata em todo mundo.


















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