Diário do Avoante

Publicação: 2010-07-04 00:00:00 | Comentários: 1
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Nelson Mattos Filho - Velejador-avoante@ig.com.br

A náutica é cheia de histórias que fazem a alegria de velejadores e frequentadores dos palhoções e alpendres nos clubes espalhados pelo mundo. São as conhecidas histórias de palhoção.

É nesse alegre ambiente clubista onde acontecem as mais fantásticas velejadas, as mais terríveis tempestades, os mais fortes ventos, as mais altas ondas e onde ninguém nunca enjoou, quem enjoa é o outro. Mas, a verdade é que no palhoção, banhado por litros e mais litros de cerveja gelada e umas cachacinhas para variar, as histórias são realmente muito engraçadas e acrescidas de grande criatividade.

Uma dessas histórias, segundo o contador, aconteceu no Iate Clube do Natal, muitos anos atrás, e vou relatar aqui. Não sei o nome dos envolvidos, mas qualquer semelhança é apenas mera coincidência.  Pode ser que você nem ache graça, mas eu me diverti e dei muitas risadas.

Conta-se que um veleiro laser estava encalhado na prainha ao lado do Iate Clube e sendo a mesma numa área do Exército Brasileiro. No palhoção do clube um velejador estava super entretido em tomar sua cervejinha, muito descontraído, quando apareceu um Soldado, armado até os dentes, e ordenou a retirada do pequeno barco daquele local. O velejador virou para o Soldado, olhou para o barco invasor e disparou: - Não tiro. O Soldado, vendo sua autoridade ser questionada, ajeitou o fuzil e ordenou novamente que o barco tinha que ser retirado imediatamente. O velejador tomou mais um gole da cerveja e sem olhar mais para o Soldado falou: – Eu não tiro!

O Soldado fez uma cara de interrogação imaginando que aquele durão fosse mais uma autoridade, e se retirou do local sem mais dizer nada, para logo em seguida vir acompanhado de um Cabo e mais outro Soldado. Apontou para o velejador e disse para o Cabo que aquele era o sujeito.

O Cabo chegou perto do velejador e disse que ele tinha que retirar o barco de qualquer maneira, pois estava dentro de uma área militar. O velejador disse que já tinha falado que não tirava e ponto final. O Cabo ajeitou o cinturão, deu meia volta e retornou para o Quartel, para voltar acompanhado de um Sargento e mais dois soldados.

O Sargento, vendo que o caso era grave, engrossou a voz e chegou arrebentando: - O  Senhor vai retirar o barco ou não vai? O velejador mais uma vez disse que aquele barco ele não retirava de jeito nenhum. O Sargento disse que ia mostrar como ele retirava e que poderia até dar voz de prisão. Mas, parou um pouco para refletir, recolheu a tropa e voltou para o Quartel.

Meia hora depois apareceu um jipe vindo em alta velocidade com um Tenente, o Sargento, o Cabo e mais dois Soldados. O Tenente desembarcou e foi até a praia examinar a situação. Parlamentou com os subordinados, coçou a cabeça e se dirigiu até onde estava o velejador insolente.

O velejador que acabara de pedir mais uma cerveja e nem queria saber de outra vida, nem pressentiu a aproximação do Tenente.

O Tenente que acabara de ser despertado de uma soneca e queria acabar logo com aquela peleja, aproximou-se do velejador e falou: – Bom dia Senhor, o que esta havendo por aqui? O velejador despretensiosamente respondeu: – Bom dia Tenente, mas para mim está tudo bem e ainda vai melhorar. O Tenente então perguntou: – O Senhor desobedeceu à ordem do meu pessoal para retirar aquele barco da praia? O velejador falou que não tinha desobedecido nada, apenas que ele não retiraria o barco. O Tenente, mais vez muito educado, perguntou: – Mais, por que Senhor? Aquela é uma área militar e o Senhor não pode parar o barco ali, pois está passível de apreensão e inquérito militar. Vamos, por favor, facilitar as coisas pelo bem da boa vizinhança.

O velejador deu mais um gole na cerveja, olhou para o barco e para o Tenente e respondeu: – Tenente, eu não vou retirar aquele barco dali, porque ele não é meu!

 O Tenente fechou a cara, disse um muito obrigado e um bom final de semana ao velejador e lançou um olhar travante para os homens sob seu comando e em seguida gritou: -.... Vamos voltar para o Corpo da Guarda que eu tenho um acertozinho para fazer com vocês...

O jipe saiu rasgando o chão e a partir daquele momento não apareceu mais nenhum Oficial.

Até hoje ninguém sabe de quem era o barco.

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Comentários

  • carratu

    Muito bom, já ouvi esta história pessoalmente do próprio Nelson.