Dias, noites

Publicação: 2020-01-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgaçãocolunacoluna

Ainda que se queira ou não queira, Senhor Redator, os anos do tempo fiam e afiam os dias da vida. Como se o exaspero da juventude fosse cedendo lugar, não à perfeição, mas ao relento calmo das horas. São poucas, pouquíssimas, as novidades que chegam e quando tudo já foi visto. A condição humana, no frigir das décadas, é a mesma, reservadas aqui e ali as singularidades pessoais que traçam o espanto e a personalidade de cada um. 

Como nos versos da canção saudosa e tristonha, já fui moço, já gozei a mocidade, e sei que aqueles anos vigorosos da juventude são tão naturais quanto os dias lentos e longos da maturidade. Se foi indispensável correr quando a vida tinha pressa, e agora é inevitável levar os dias devagar, é que tudo tem sua hora. O tempo sabe construir e desconstruir as ilusões. E, se é bom vivê-las, nos arroubos do ódio e do amor, vem o tempo de esquecê-las.

E como nos versos do soneto célebre, se outros chegam lúcidos e cheios de vida à sepultura de Emengarda, é natural que outros, os já passados em anos, cheguem bêbados de vida. Embriagados da alegria que é viver. Carregando seus dias luminosos e suas noites de trevas, mas também as madrugadas quando chegam apagando a escuridão, mesmo que depois se transformem em tardes e noites, num ciclo de horas e horas, instantes e instantes.

De repente, sem que se note o tempo passar, todos os lugares comuns, enfadonhos e monótonos, ganham um certo sentido. Uma varinha de condão vai tocando as coisas e elas vão ganhando relevância. Os gestos, silenciosos ou barulhentos. Não importa. Vão caindo nos seus leitos próprios. Cada coisa reassume o velho papel que parecia inútil e desbotado e até as coisas mais insignificantes jogam o jogo que separa o essencial do não essencial.

Não é uma faxina como metáfora do se desfazer. Cada coisa, a seu tempo, teve um encantamento que a manteve no armazém da alma, no móvel da sala, ou no criado mudo. Viver é conservá-las de alguma forma e de tal maneira que mesmo desaparecidas dos olhos venham quando a memória for buscá-las longe, muito longe. Há qualquer mistério nessas coisas, reais ou reais. Até a mais dura materialidade, com um tempo, também se desfaz.

A maturidade - pode não passar de pobre impressão existencial - revela bem mais precisamente algumas coisas que pareciam insubstituíveis. Coisas que vão adormecendo, em algum lugar. Aqui, ali, tanto faz. A vida, aos poucos, vai ficando simples. Naturalmente simples. Até que reste nos olhos e nas mãos, ou sobre os ombros, tão apenas, as horas de cada dia. E será sempre assim: quando tudo está feito, começa o tempo do nunca mais...

TIRO - Polida a bala de prata do governo para aprovar a reforma estadual da previdência com duas espoletas carregando: com a pólvora governamental e outra a pólvora legislativa.

TÁTICA - O governo quer sair bem posto no debate interno com o fórum dos servidores, mas sabe que poderá sofrer emendas quando a proposta chegar ao plenário da Assembleia.

POSIÇÃO - Como sindicalista, a governadora Fátima Bezerra orientou para não se atentar contra os menos favorecidos, ativos e inativos. Do contrário, joga sobre si a força sindical.

BALA - A retórica está pronta: se a aprovação demorar, o argumento será de que retardará  a venda de royalties do petróleo, impedirá convênios federais e atrasará a folha de pessoal. 

TESTE - A posição da Assembleia, no que não for norma da reforma federal, revelará até que ponto vai esse atrelamento do Legislativo ao Executivo, se são aliados incondicionais.

ESTE - O romance de Antônio de Souza, o Policarpo Feitosa, não é ‘Gente Arrancada’, mas ‘Os Molluscos’, 1938, edição ‘Officina Gráfica Relato Americano’, Rio de Janeiro. 

ÁGUA - Há quatro dias, desde ontem, a Redinha está sem água. Mas as contas da Caern chegam religiosamente em dia. Nesse ponto - cobrar - a gestão é de uma competência comovente.

PERIGO - De Nino, inesperado contra o que chama de um novo animal na floresta: “Com a volta da direita, os tecnocratas voltaram. Arlequins sabidos que dominam os bastidores”.

TORMENTA I - Esta parece ser a palavra-marca da tormentosa vida política brasileira, a julgar pela presença em três livros, de autores, datas e editoras diferentes, que retratam o Brasil de Dilma Rousseff, do período Michel Temer e hoje, do governo de Jair Bolsonaro.

TORMENTA II - O primeiro deles - ‘Dias de Tormenta’ - do jornalista Branco Di Fátima, edição Geração, 2018, mostra a força dos movimentos de indignação contra as ditaduras e a contradição de ser servido para a volta da direita ao poder. E desta vez pelo voto direto.

TORMENTA III - ‘Mil Dias de Tormenta’, Objetiva, 2019, de Bernardo Franco, conta como foi a crise ‘que derrubou Dilma e deixou Temer por um fio”. Agora, abrindo 2020,  ‘Tormenta’, livro  da jornalista Thaís Oyama que, antes de sair, abala o capitão Bolsonaro.





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