Dias-pino

Publicação: 2019-03-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio galvão
daciogalvao@globo.com

Agora no final do mês de março vai fazer oito meses do falecimento de um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos: o carioca Wlademir Dias-Pino. Em 1956, lançou no Museu de Arte Moderna em São Paulo, o movimento da poesia concreta com Ferreira Gullar, Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos. Morreu lúcido produzindo arte conceitual. Foi curioso e fecundo o diálogo artístico que manteve com a prática poética de vanguarda em Natal, durante o período de barra pesada, da ditadura militar, dos anos de 1960 e início dos anos de 1970. Conexões com Falves Silva, Anchieta Fernandes e em especial Moacy Cirne de quem era muito amigo. Ambos morando no Rio de Janeiro participaram da famosa “rasgação” de livros vinculados ao cânone da literatura nas escadarias do Teatro Municipal. Eram os estratégicos arroubos do movimento do poema-processo. Dias-Pino fez da vida a arte como ofício, compromisso e militância. Sua Enciclopédia Visual cataloga milhares e milhares de imagens. Foi obsessivamente seu último moto contínuo.

Apresentado por Moacy Cirne o conheci e certa vez o entrevistei nas alamedas do Museu da República. Calmo, generoso, compulsivo. Falava por associação, por parataxe. Precisava colher subsídios para a Dissertação de Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN. Me ocorre que é prudente proclamar no mês do carnaval, o pioneiro da decoração carnavalesca abstrata-geométrica no Brasil, realizada em 1958, no Rio de janeiro, na Praça Mauá. Ali inaugurou uma definitiva virada estética. Voltaria à ação no carnaval de Cuiabá, nos anos de 1973 e 1977. Plásticos e técnicas serigráficas serviram de suportes para coletivizar as formas retas ou curvilíneas (elementares e ou complexas) comumente trabalhadas por ele. Motivava o autor da AVE e SOLIDA, dois livros seminais para a história das últimas vanguardas literárias ocorridas no país, o desafio sensorial de mudar a perspectiva do ver. De comunidades coletivas enxergar funcionalidade em desenhos ou gráficos fora do engessamento figurativo ou mimético. Ou seja, semelhança quase nem sempre. Ou quando presente sempre transgressiva. Cor sobre cor. Era craque ao lidar com o preto. Com o prata. Com o roxo. Sem misturas conseguia no exercício bicolor um resultado impressionante imprimindo seus poemas visuais o em diálogo com outros de autores diversos. Tinha no sangue a marca da apropriação. Nela acreditava pelos desdobramentos e novas versões que possibilitava. E claro, quebrava a áurea da autoralidade. Desconstruir a ideia de genialidade foi um dos preceitos do poema-processo, movimento que liderou com Álvaro de Sá entre os anos de 1967 e 1972, e que não abria mão da criação coletiva e descentrada.

Com Regina Pouchain vinha criando abundantemente experimentos digitais numa natural migração na lida com novos meios. O livro, A Marca e o Logotipo Brasileiros, em parceria com João Felício dos Santos, 1974, tem posfácio do filólogo Antonio Houaiss para quem o poeta era “um dos mais perspicazes pesquisadores do país”. Pino abraçou o design gráfico como ferramenta essencial para seu trabalho. O ensaísta Angelo Mazzurchelli Garcia enxerga as bases do racionalismo e da objetividade nas artes originadas em dois polos: “As raízes do design gráfico racional podem ser detectadas nos movimentos de cunho geométrico e abstrato na Rússia (Construtivismo) e na Holanda (De stijl). Os artistas e ativistas Piet Mondrian, Laszlo Moholy Nagy, Theo Van Doesburg estão no ponto inicial da discussão. Essas questões desembocam no Brasil, vincadas à literatura com a deflagração do concretismo, neoconcretismo e o poema-processo.

Falves Silva é o poeta visual que mais traz no seu trajeto criativo a influência de Dias-Pino. A dinâmica horizontal, vertical, geométrica, e espiralada tributa o artista carioca com quem manteve frequentes articulações. Sempre longe e fora de holofotes Wlademir tem seu trabalho sendo exposto em agendas de dois museus referenciais: Centro Georges Pompidou, em Paris, e o Museu Reina Sofía, em Madri. Do gueto midiático Lorenzo Falcão, lá de Cuiabá, fala no“depoimento do brilhante Octavio Paz, poeta e ensaísta mexicano, ganhador do Nobel de Literatura em 1990, que apontou Wlademir como o principal poeta visual do mundo.










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