Dicionário de ressignificados

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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George Wilde
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O poeta norte-americano Walt Whitman diz que há multidões dentro da gente. Seguindo o seu raciocínio, penso que somos feitos de multidões de milhares de nós mesmos. Diariamente, ao amanhecer, nascemos o que sonhamos ser. E, ao anoitecer, morremos o que realmente somos.

Nessa metamorfose diuturna, diante dos desafios atuais, estamos reaprendendo a viver. Encontrando novos sentidos para o que achávamos que já sabíamos. Estamos escrevendo um Dicionário de Ressignificados. De A a Z.

Amor: o que rimava melhor na poesia até se transformar no alicerce mais concreto da esperança e da alegria. Beijo: algo que já foi muito parecido com um “até já”. E, agora, virou sinônimo de desejar. Compaixão: atributo de ocasião, que se transformou no elo invisível da união. Deus: a última instância da fé. E, mais do que nunca, hoje em dia, é o cara que nos coloca de pé.

Economia: tudo aquilo que a gente guardava para o que ainda não existia até se converter em nada diante da redescoberta do precioso tempo com a família. Família: habitantes debaixo de um mesmo teto, que pouco interagiam. E, agora, passaram a se reunir à mesa, como há muito tempo não se via. Generosidade: qualidade humana que dava mais as caras em época de Natal até virar um atributo atual e universal. Humanidade: todos aqueles que se achavam o Rei da Cocada Preta do Planeta, mas se viram obrigados a descobrir a sua total impotência e limitação da pior maneira.

Inspiração: era palavra doce ligada à inteligência até ser um exercício respiratório vital para a sobrevivência. Janela: segundo o poeta, a alma se via pelos olhos chamados metaforicamente por ela. Agora, é o ponto de fuga da paralisante rotina que transforma casa em cela. Liberdade: o que já foi um grito eloquente é, nesse momento, um desejo latente. Medo: o que se confundia como o antônimo de coragem. E, hoje, aparece aí transvestido de ansiedade. Números: a sua principal função antes era quantificar até tomar o lugar de nomes em uma lista de pessoas que nunca mais vão voltar.

Otimismo: era a rotina vista com um leve sorriso. Agora, um passo atrás para quem está à beira do precipício. Paciência: o que já foi um substantivo feminino na Gramática e se transformou em uma virtude nossa diária. Realidade: aquilo que a gente sempre achava que poderia melhorar até ganhar forma de uma dura lição sobre sonhos que não se devem adiar. Saudade: era o abraço virtual para os amigos que queriam se encontrar, que virou um sentimento dormente que tira dos olhos o brilhar.

Ter: antes, verbo extremamente irregular na Língua Portuguesa. Agora, regular no sentido da vida que se deseja. Universo: tudo o que abraçava os planetas e as estrelas. E, hoje, o cenário ideal para enxergar a nossa irrelevância no tempo e no espaço das certezas. Vida: período com início, meio e fim, que servia de palco para as pessoas usarem máscaras exigidas pela sociedade. Atualmente, a maior dádiva da verdade. Xadrez: jogo bastante conhecido pela sua estratégia, que, pelas mãos do acaso no tabuleiro da existência, transforma, em tempos como o agora, qualquer um de nós em apenas peças. Zelo: palavra antes jogada no fundo da gaveta do vocabulário do dia a dia. Agora, voltou à moda para o bem de quem a vida a gente compartilha.

Reaprender a viver em meio ao caos é um complexo exercício que vai muito além de aforismos. Começa a partir do entendimento de que não se constrói o futuro com tijolos do passado.


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