Política
'Digna de dó', afirma Bolsonaro
Publicado: 00:00:00 - 14/09/2021 Atualizado: 23:18:27 - 13/09/2021
O presidente Jair Bolsonaro afirmou ontem que as pessoas que foram às ruas no domingo protestar contra seu governo são uma minoria "digna de dó" e não fazem parte da maioria da população, formada por "pessoas de bem". A apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, o chefe do Executivo ainda ironizou a presença de cinco pré-candidatos à Presidência nos atos de São Paulo.

Alan Santos/PR
Jair Bolsonaro leu para os apoiadores o artigo 1º da Carta Magna, segundo o qual “todo o poder emana do povo”

Jair Bolsonaro leu para os apoiadores o artigo 1º da Carta Magna, segundo o qual “todo o poder emana do povo”


"A maioria da população é de bem. Essa minoria que é contra, que muitos foram às ruas são dignos de dó, de pena", afirmou. "Viram em São Paulo cinco presidenciáveis aglomerados?", questionou Bolsonaro.

Entre os cotados para disputar o Planalto em 2022, estiveram presentes na Avenida Paulista o governador de São Paulo, João Doria (PSDB); o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM); o ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes (PDT); o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e a senadora Simone Tebet (MDB-MS). "Citaram questões pessoais. Não vão me tirar daqui com isso de jeito nenhum", declarou Bolsonaro.

Foram registradas no domingo manifestações contrárias ao governo em todo o País, mas com adesão em número menor em comparação com 7 de Setembro, como destacou mais cedo o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB). Os atos reuniram setores da direita que abandonaram o presidente, como o Movimento Brasil Livre (MBL), e algumas figuras da esquerda, mas parte desse campo resistiu a ir às ruas com ex-bolsonaristas.

Em outro descumprimento às recomendações de especialistas em saúde, o presidente ainda reforçou a apoiadores que não se vacinou contra a covid-19. "Eu não tomei a vacina e estou com 991 [de nível de imunoglobulina G, o IgG, um marcador de anticorpos]. Eu acho que peguei [covid] de novo e nem fiquei sabendo", acrescentou aos presentes.

Interferência
Questionado por uma apoiadora sobre a dificuldade do exame Revalida, prova do Conselho Federal de Medicina (CFM) para autorizar o exercício da profissão no País por médicos formados no exterior, Bolsonaro respondeu que não tem interferência no órgão. "Zero, zero interferência. É igual [às] agências aqui no governo. Pessoal pensa que eu mando, mas não mando em agências, não".

Bolsonaro ainda leu aos apoiadores presentes o artigo 1º da Carta Magna. "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição", frisou o chefe do Planalto, pedindo aos presentes intensificação de estudos sobre a realidade País. "Alguns idiotas não aprendem nunca, mas temos de dar conhecimento às pessoas que não têm ainda".

Discurso
De olho nas eleições de 2022, o presidente também resgatou alguns aspectos do discurso conservador que o alçou ao comando do País em 2018.

 Contrário ao politicamente correto, contou a apoiadores algumas "piadas" . "Todas as mulheres são torcedoras do Botafogo, não vou falar por quê", afirmou, arrancado risos de simpatizantes. "O Brasil está chato. Você não pode contar uma piada. Eu só conto piada em círculo reduzindo e sabendo que ninguém está gravando".

Jair Bolsonaro ainda insistiu em sua retórica de que a inflação dos alimentos é culpa da política do "fique em casa" adotada por Estados e municípios durante a pandemia, desprezando, mais uma vez, o efeito cambial do fenômeno e o impacto de questões políticas na alta do dólar.

"As coisas ruins não acontecem de uma hora para outra, a não ser um raio. O Estado é bonzinho, vai dar comida para você, tome isso, tome aquilo. Quando você ver, a água ferveu de mais. É assim que começam os regimes de exceção e terminam da forma mais trágica possível, como da Venezuela", declarou o chefe do Executivo, voltando a forçar comparações com o país vizinho. "Se o Brasil tiver aqui um caos, convulsão social, não vai ser diferente de Venezuela".

Partidos tentam acordo para retomar protestos
Partidos e movimentos de esquerda, centro e direita voltam a dialogar nos próximos dias na tentativa de unificar as agendas de protestos contra o governo Jair Bolsonaro. A ideia é promover uma manifestação conjunta em 15 de novembro, data que marca a proclamação da República. 

Mas a criação de uma frente ampla e diversa em defesa do impeachment parece distante no horizonte. Líderes da campanha nacional Fora Bolsonaro, que iniciou as manifestações presenciais em 29 de maio, criticaram o “fracasso” de público nos atos de ontem, capitaneados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua (VPR) e Livres, que atuaram diretamente na mobilização pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016. 

“O fracasso das mobilizações deste domingo demonstra que quem quiser realmente o impeachment de Bolsonaro terá de sentar para conversar com a esquerda”, afirmou ao Estadão o presidente do PSOL, Juliano Medeiros. “Somos os únicos com capacidade de mobilização além do bolsonarismo. Estamos abertos a construir iniciativas com qualquer um que esteja contra Bolsonaro, mas sem adesismo.” 

No evento de ontem na Avenida Paulista, os presidenciáveis João Doria (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB) e Alessandro Vieira (Cidadania) defenderam uma aproximação entre os lados antagônicos do espectro político e fizeram comparações sobre a mobilização atual com o movimento das Diretas Já, na redemocratização.

A agenda unificada será discutida em uma reunião, nesta quarta-feira, com representantes de 9 partidos de oposição em Brasília. Pelo desenho inicial, siglas e grupos à esquerda planejam fazer uma manifestação nacional mais ampla que as anteriores em 2 de outubro. Conduzem a preparação desse protesto PT, PSOL, PSB, PDT, PCdoB, Cidadania, Solidariedade, UP e Rede.

Para o coordenador da Central de Movimentos Populares (CMP) e um dos líderes da campanha nacional Fora Bolsonaro Raimundo Bonfim, Doria, Mandetta, Ciro e Tebet “partidarizaram” o ato na Paulista, algo que, segundo ele, o ex-presidente Lula não teria feito. “Esse ato foi construído com o objetivo de isolar (a esquerda). O MBL não tem legitimidade para ser porta- voz de um movimento como as Diretas Já”, disse Bonfim. 

Do lado da direita, também há resistências à união. O mote “nem Lula, nem Bolsonaro” não foi aposentado, como chegou a ser anunciado pelos organizadores. Para o deputado estadual Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, do MBL, não existe interesse em uma composição com o PT: “Nem da parte deles, nem da nossa”. 

O deputado estadual José Américo (PT), membro da Executiva Nacional do PT, avalia como “positiva” a manifestação deste domingo. Mas diz que é preciso certa “maturidade” de alguns dos movimentos que estiveram na Avenida Paulista antes de o partido do presidente Lula se juntar as fileiras. 

“Esta é uma primeira tentativa de unificar os movimentos”, afirmou Magno Karl, diretor do Livres. Ele disse que conta com a adesão de outras organizações para que o movimento cresça, incluindo siglas de esquerda como o PT. “Espero que isso aconteça, mas respeito a estratégia eleitoral diferente”.

Convocados por grupos de centro-direita, manifestantes foram às ruas neste domingo, em 15 capitais, pedir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Mas a divisão da oposição ao governo acabou esvaziando os atos organizados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua (VPR) e Livres.

O número de pessoas que aderiu aos protestos foi bem menor do que o contabilizado nas manifestações de 7 de Setembro, quando o presidente ameaçou o Supremo Tribunal Federal e pregou desobediência a decisões judiciais. 

O maior ato foi o da Avenida Paulista, em São Paulo. De acordo com estimativa da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, cerca de 6 mil pessoas compareceram à manifestação, ante 125 mil estimadas pela Polícia Militar no mesmo local no dia 7.

Foi o primeiro protesto pelo impeachment de Bolsonaro encabeçado por esses movimentos, que ganharam projeção durante a campanha pelo impedimento de Dilma Rousseff (PT) em 2016. A adesão foi além da direita, alcançou presidenciáveis do centro democrático em São Paulo, o PDT e centrais sindicais ligadas à esquerda. Principal partido de oposição, o PT ficou de fora, inspirado pelo mote original do protesto: “nem Lula, nem Bolsonaro” .

Os movimentos pretendiam evitar o uso das manifestações contra Bolsonaro como palanque político, mas presidenciáveis participaram dos atos e discursaram em carro de som na Avenida Paulista. A tônica dos discursos dos pré-candidatos foi a união de grupos diversos em torno do afastamento de Bolsonaro.










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