Dilma promete governar para todos

Publicação: 2011-01-02 00:00:00
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Brasília (AE) - O governo Dilma Rousseff começou ontem com 13 citações diretas a Lula, promessas de continuidade, compromisso de erradicar a miséria, combater a inflação e mensagens de reconciliação com a oposição e militares.

A presidenta Dilma Rousseff e o vice Michel Temer sobem a rampa do Palácio do Planalto para a solenidade de transmissão do cargoNo discurso de posse no Congresso Nacional, a primeira mulher eleita presidente do Brasil inspirou-se no antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, e anunciou como prioridade do novo governo a erradicação da miséria.

Eleita com 56 milhões de votos no segundo turno, depois de uma campanha renhida com o tucano José Serra, Dilma chorou ao dizer que, a partir daquele momento, era a “presidenta de todos os brasileiros”. Citou como outras prioridades saúde, educação e segurança pública e prometeu empenho nas reformas política e tributária. “A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e criação de oportunidades para todos”, discursou Dilma, que evitou o vermelho do PT e vestiu um tailleur off-white (nova denominação para o tom pérola). “Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do presidente lula, mas ainda existe pobreza a envergonhar nosso país”. “Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento nas ruas, enquanto houver crianças pobres abandonas à própria sorte”, disse a presidente, interrompida várias vezes por aplausos.

Oito anos antes, no mesmo plenário da Câmara, ao dar início ao primeiro mandato, Lula concentrou-se na meta do fim da fome. “Enquanto houver um irmão brasileiro ou uma irmã brasileira passando fome, teremos motivo de sobra para nos cobrirmos de vergonha”, discursou. E emendou: “Se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida”.

Depois de percorrer a Esplanada no Rolls Royce da Presidência, sob uma chuva cerrada que a obrigou a fazer o trajeto em carro fechado e afastou militantes e admiradores das ruas, Dilma chegou ao Congresso às 14h40.

Nos 39 minutos de seu primeiro discurso oficial — o segundo ocorreu no parlatório — Dilma abusou, no início, da carga emocional, interrompido vez ou outra por gritos “Dilma” e o refrão petista historicamente associado a Lula Olê-Olê-Olá, mas descambou para um tom técnico e protocolar e só retomou a espontaneidade no fim, Dilma destacou o fato de ser a primeira mulher presidente do País e referiu-se a si própria como “presidenta”.

Lembrou o passado de militante contra a ditadura militar. “Suportei as adversidades mais extremas infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor. Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles esta conquista, e rendo-lhes minha homenagem”, afirmou Dilma, retomando a autenticidade do início do discurso e despertando novamente aplausos espontâneos. Nos trechos mais técnicos, a plateia, apesar de silenciosa e atenta, batia palmas sem entusiasmo.

A presidente prometeu dar garantias “das liberdades individuais, de culto, religião, imprensa e opinião”. Com isso, procurou encerrar uma das maiores dificuldades da campanha eleitoral: as notícias de que tinha posições contrárias aos princípios religiosos, como a defesa do aborto. Ao mesmo tempo, marcou diferença em relação à defesa do controle da mídia que cresceu no governo Lula.

Dilma chegou ao plenário da Câmara sorridente e bastante à vontade em um ambiente que muito raramente frequentou nos oito anos em que esteve no ministério de Lula.

Presença feminina dá o tom na posse

São Paulo (AE) - Presenças femininas deram o tom na posse da primeira mulher presidente do Brasil. Ainda no caminho para o juramento constitucional de Dilma Rousseff no Congresso, oito seguranças mulheres acompanharam o Rolls-Royce presidencial, enfrentando impávidas a chuva torrencial que caía em Brasília. No veículo, sempre ao lado da presidente eleita, a filha Paula Rousseff Araújo, chamava a atenção pela impressionante semelhança com a mãe. Procuradora do trabalho no Rio Grande do Sul, Paula tem 34 anos e é casada com o advogado e administrador de empresas Rafael Covolo. Em setembro, os dois deram a Dilma seu único neto, Gabriel.

Já no Parlatório, onde se daria a cerimônia de transmissão da faixa presidencial, o choro copioso da ex-primeira dama Marisa Letícia precedeu ao do próprio presidente Lula. E, no discurso de posse que dirigiu à Nação tão logo o antecessor se retirou, Dilma Rousseff fez questão de mencionar não só o vice-presidente Michel Temer, como a presença vistosa e discreta de sua mulher, Marcela Tedeschi Temer.

Aos 27 anos, a ex-Miss Campinas 2002 e vice Miss São Paulo no mesmo ano, tem com o vice-presidente um filho, também chamado Michel.

Presidenta dá posse aos novos ministros

Brasília – Os ministros da presidenta da República, Dilma Rousseff, foram empossados ontem no Palácio do Planalto, logo após o recebimento dos cumprimentos das autoridades estrangeiras que vieram assistir à posse. Dilma recebeu um a um para a assinatura do termo de posse e, logo depois, todos posaram para a primeira foto oficial da equipe de governo. Entre os ministros que tomaram posse, está Garibaldi Alves Filho, que assumiu a pasta da Previdência.

Tradicionalmente o primeiro ministro a tomar posse é o da Justiça, por ser a pasta mais antiga. Por isso, José Eduardo Cardozo foi o primeiro a assinar o termo, seguido de Antonio Palocci, chefe da Casa Civil da Presidência da República.

Entre os 37 ministros, nove são mulheres: Miriam Belchior, do Planejamento; Iriny Lopes, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres; Mária do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos; Ana de Hollanda, da Cultura; Ideli Salvatti, da Secretaria de Aquicultura e Pesca; Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação Social; Luiza Helena de Bairros, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial; Tereza Campello, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; e Izabella Teixeira, do Meio Ambiente.

Vários ministros empossados ontem fizeram parte da equipe do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: Antonio Palocci, que foi ministro da Fazenda; Gilberto Carvalho, que foi chefe de gabinete do ex-presidente e volta como secretário-geral da Presidência; Luís Inácio Adams, advogado-geral da União; Jorge Hage, controlador-geral da União; Wagner Rossi, da Agricultura; Guido Mantega, da Fazenda, que começou no governo Lula como ministro do Planejamento e ocupou a presidência do Banco Nacional do Desenvolvimento Social (BNDES); Nelson Jobim, da Defesa; Fernando Haddad, da Educação; Orlando Silva, do Esporte; Izabella Teixeira; Edison Lobão, de Minas e Energia; Carlos Lupi, do Trabalho; Alfredo Nascimento, dos Transportes; Alexandre Padilha, que ocupava a Secretaria de Relações Institucionais e, agora, assume o Ministério da Saúde.

destaques - Trechos do discurso

“A partir deste momento, sou a presidenta de todos os brasileiros, sob a égide dos valores republicanos”

“Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, ser presidentas; e para que - no dia de hoje - todas as mulheres brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher”.

“Na política é tarefa indeclinável e urgente uma reforma com mudanças na legislação para fazer avançar nossa jovem democracia, fortalecer o sentido programático dos partidos e aperfeiçoar as instituições, restaurando valores e dando mais transparência ao conjunto da atividade pública”.

“Valorizar o desenvolvimento regional é outro imperativo de um país continental, sustentando a vibrante economia do Nordeste, preservando, desenvolvendo e respeitando a biodiversidade da Amazônia no Norte, dando condições à extraordinária produção agrícola do Centro-Oeste, a força industrial do Sudeste e a pujança e o espírito de pioneirismo do Sul”.

“Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para atuarem com firmeza e autonomia”

“A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos”.

“Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças pobres abandonadas à própria sorte. O congraçamento das famílias se dá no alimento, na paz e na alegria. É este o sonho que vou perseguir!”

“Por sua vez, os investimentos previstos para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas serão concebidos de maneira a dar ganhos permanentes de qualidade de vida, em todas as regiões envolvidas”

“Meu governo fará um trabalho permanente para garantir a presença do Estado em todas as regiões mais sensíveis à ação da criminalidade e das drogas, em forte parceria com estados e municípios”.

“Reafirmo o que disse ao longo da campanha, que prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras. Quem, como eu e tantos outros da minha geração, lutamos contra o arbítrio, a censura e a ditadura, somos naturalmente amantes da mais plena democracia e da defesa intransigente dos direitos humanos, no nosso país e como bandeira sagrada de todos os povos”.

“Mais uma vez estendo minha mão aos partidos de oposição e às parcelas da sociedade que não estiveram conosco na recente jornada eleitoral. Não haverá de minha parte e do meu governo discriminação, privilégios ou compadrio”

Lula mantém tom emocional na despedida da Presidência

Brasília (AE) - Lula foi mais Lula do que nunca no seu último dia em Brasília como presidente da República. Das primeiras horas do dia com a família no Palácio da Alvorada até aparecer na janelinha da cabine do piloto do Aerolula, na Base Aérea, por volta de 17h30, acenando para simpatizantes, ele chorou, beijou dezenas de pessoas, posou em posição de jogador de futebol com seguranças e ouviu a banda da Aeronáutica tocar o hino do Corinthians, a música Tema da Vitória, das corridas de Ayrton Senna, e demonstrou semblante enfadonho ao ouvir várias vezes a execução integral do hino nacional.

Momentos antes de passar a faixa para a presidenta Dilma Rousseff, o agora ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conteve as lágrimas. Ao abraçar a sucessora, no gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto, na tarde de ontem, ele disse uma das poucas frases ditas em público no seu último dia de governo. “Eu e o povo brasileiro confiamos em você”, disse Lula a Dilma, com voz embargada, segundo relato de um dos auxiliares.

Com a ajuda da mulher, Marisa Letícia, ele passava logo depois a faixa para Dilma no parlatório do Planalto, diante da multidão que estava na Praça dos Três Poderes. Sem a faixa, Lula se conteve o quanto pôde, mas, ao descer a rampa do Planalto, às 17h35, caiu no choro outra vez. Dilma e o vice-presidente Michel Temer quebraram a tradição e desceram a rampa junto com Lula. Ministros do governo desceram a rampa atrás do ex-presidente para também homenageá-lo. “Agora é que vai cair minha ficha”, disse ele, brincando com ministros. Ele quebrou atravessou a rua e foi cumprimentar homens e mulheres que se concentravam atrás do alambrado.

Com os olhos vermelhos e paletó desabotoado, Lula enxugou as lágrimas em um lenço branco, apertou a mão de eleitores e distribuiu beijos e abraço e recebeu troféu de um adolescente cara-pintada. Enquanto ele se jogava nos braços da multidão, Dilma dava posse ao ministério.

Família

Lula passou a manhã no Palácio da Alvorada com Marisa Letícia e os filhos Fábio, Luiz Cláudio e Sandro. Da equipe mais próxima do presidente, só o chefe da segurança, general Gonçalves Dias, e o fotógrafo Ricardo Stuckert estiveram no Alvorada. Quando o presidente do Congresso José Sarney declarou Dilma presidente da República, precisamente às 14h52, Lula ainda estava na residência oficial. Ele deixou o Alvorada já como ex-presidente. Cerca de 30 turistas o esperavam do lado de fora do Alvorada. Nenhum militante apareceu com cartaz ou bandeira do PT.

No Planalto, ele brincou com a própria despedida do poder, abrindo as gavetas do gabinete e se “espantando” por já estarem vazias. Os assessores tinham tirado até uma imagem antiga de Cristo na cruz e amostras de biodiesel. Lula chamou Marisa Letícia e os filhos para a última fotografia da família no gabinete presidencial. De um telão, acompanhou o deslocamento de Dilma do Congresso até o Planalto. Lula soltou poucas frases durante os apertos de mãos e abraços em funcionários e assessores. Atrás do vidro, acenou para a multidão que estava na Praça dos Três Poderes.

Momentos antes de Dilma chegar ao Planalto, Lula apareceu no Salão Nobre. Acompanhado de Marisa Letícia, ele saiu abraçando e beijando os convidados. “Vocês estão com cara de ministro e eu de ex-presidente”, brincou, assim que passou ao lado dos futuros ministros.

Dilma presta tributo ao ex-presidente

Brasília (AE) - Se no Congresso, a presidenta Dilma Rousseff concentrou seu discurso nas propostas de governo, sua fala no Parlatório teve tom completamente diferente. Numa fala de 12 minutos, Dilma deixou o lado emocional tomar conta e prestou tributo ao ex-presidente Luiz Inácio da Silva, que acabara de se despedir do cargo lhe passando a faixa presidencial numa longa e calorosa troca de abraços.

“Estou muito emocionada pelo encerramento do mandato do maior líder popular que este País já teve. Ter a honra do seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guardam para a vida toda”, afirmou,

Na prática, Dilma aproveitou a melhor ocasião em toda a cerimônia de posse para homenagear o inventor de sua candidatura Sem poder concorrer a um terceiro mandato e sem ter um herdeiro político natural, a nova presidente fez um reconhecimento público ao empenho que Lula teve desde 2009 para viabilizar sua candidatura presidencial.

Ao lado do vice-presidente Michel Temer e sua mulher Marcela, Dilma disse ter certeza que o ex-presidente continuará ao seu lado, mesmo fora do governo.

“Conviver todos estes anos com o presidente Lula me deu a dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu País e por sua gente. A alegria que sinto pela minha posse como presidenta se mistura com a emoção da sua despedida. Mas Lula estará conosco. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade”, discursou.

E reconheceu que será difícil suceder um presidente que termina oito anos de mandato com alto índice de aprovação popular.

Dilma faz homenagem especial a José Alencar

Brasília (AE) - Nos dois discursos de posse, a presidenta Dilma Rousseff fez uma homenagem especial a José Alencar, que deixou ontem a vice-presidência da República. Alencar está internado desde o dia 22 de dezembro no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, e não pôde ir a Brasília. Dilma destacou a “coragem” do ex-vice.

O mesmo trecho do discurso do Congresso foi repetido no Parlatório. “Que exemplo de coragem e amor à vida nos dá esse grande homem. E que parceria essa, de José Alencar e Lula, Lula e José Alencar fizeram, pelo Brasil e pelo nosso povo”, disse a presidenta. Dilma referiu-se a Alencar como “grande brasileiro, incansável lutador” e lembrou que ele esteve “ao lado do presidente Lula nesses oito anos”.

O ex-vice, que luta contra o câncer desde 1997, foi internado para tratar uma hemorragia. Apesar de ter deixado a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), não foi liberado pelos médicos para assistir à posse de Dilma.

População se despede e comemora

Brasília (AE) - “Vim me despedir do Lula e ver a Dilma. Eles são queridos”. A frase da aposentada Jovina Soares, 70, simboliza o clima na chuvosa Esplanada dos Ministérios durante a posse de Dilma Rousseff como presidente da República. Ela deixou Cuiabá no dia 29 e viajou 12 horas de ônibus para acompanhar de perto a cerimônia em Brasília. Ficou na Praça dos Três Poderes para ouvir o discurso de Dilma. Aproveitou a oportunidade para dar adeus a Luiz Inácio Lula da Silva.

Jovina juntou-se a cerca de 30 mil pessoas - segundo cálculos da Polícia Militar (PM) - que, assim como ela, tomaram conta da capital federal para ver Dilma de perto e, ao mesmo tempo, despedir-se de Lula. Bandeiras homenageavam Dilma, Lula e o PT. Faixas exaltavam movimentos gays e até atacavam a imprensa. “Olha que lindo, ele veio buscar ela (sic)”, gritou uma militante ao ver Lula recebendo a nova presidente na rampa do Palácio do Planalto.

Quem foi para a Esplanada logo cedo não precisou espremer-se para ver o desfile de Dilma no Rolls-Royce presidencial. Todos conseguiram um lugar na grade. De 20 a 30 bandeiras do PT enfeitavam o caminho. “O clima é de tranquilidade”, afirmou o major Luis Marcelo, que cuidou da operação da PM na região.

O cenário foi bem diferente de 2003, na primeira posse de Lula, quando cerca de 150 mil pessoas acompanharam a festa em Brasília “Em 2003, vendi R$ 3 mil em sorvete, agora não devo chegar em R$ 500”, lamentou o sorveteiro Luis Sales, 56.  Por conta da forte chuva que caiu no início da tarde, Dilma foi obrigada a fazer o trajeto até o Congresso Nacional com a capota fechada do Rolls-Royce.