Dispositivo óptico ajuda pessoas com problemas de visão

Publicação: 2019-03-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Tadzio França
Repórter

A tecnologia amplia o conhecimento e também ajuda a resolver alguns problemas que a vida impõe. As dificuldades parciais de visão de um aluno de medicina da UFRN serviram de estímulo para que profissionais e estudantes das áreas médica e tecnológica criassem um dispositivo óptico que atendesse a suas necessidades. O dispositivo, ainda em forma de protótipo, obteve o êxito esperado e pode ser a futura solução para muita gente com complicações semelhantes. Criatividade e empatia ajudam a enxergar mais longe.
André Borges foi diagnosticado com distrofia de cones e tinha dificuldades em exergar as projeções. Com o celular a uma boa distância dos olhos, ele vê bem o material
André Borges foi diagnosticado com distrofia de cones e tinha dificuldades em enxergar as projeções. Com o celular a uma boa distância dos olhos, ele vê bem o material

Logo que entrou no curso de medicina, André Borges descobriu que tinha uma deficiência visual  causada por uma doença degenerativa na retina chamada distrofia de cones. Com o tempo foi aumentando sua dificuldade em acompanhar as aulas que usavam projeções e slides. “Na medicina a gente precisa estudar estruturas anatômicas e outras coisas bastante específicas, e eu não conseguia acompanhar devido a visão”, conta. Até que no 8º período do curso ele encontrou o oftalmologista e professor Francisco Irochima, e sugeriu a ele uma solução para seu problema.

Diante do desafio, o oftalmologista entrou em contato com o Instituto Metrópole Digital (IMD) da UFRN, nas figuras do engenheiro Ivanovitch Silva e  equipe, para que a combinação entre medicina e tecnologia encontrasse uma solução para André. “Daí veio a ideia de criar um protótipo barato, porque o que tem hoje no mercado é de altíssimo custo. Alguns são o preço de um carro popular. Então tentamos ver o q a gente poderia fazer com baixo custo”, afirma Francisco Irochima.

Visão digital

Após seis meses de trabalho, foi concebido um dispositivo óptico vestível que funciona da seguinte forma: um suporte leve ajustado na cabeça do usuário, onde é acoplado um celular smartphone andróide com um pequeno módulo portátil sem fio que capta as imagens da projeção da aula e transmite para o celular. Há no aparelho um aplicativo que permite o uso de uma câmera externa ou do próprio celular para gravar as imagens. O usuário pode  ficar em qualquer posição, até mesmo de costas para o professor. Com o celular a uma boa distância dos olhos, ele consegue ver bem o material. 

O aplicativo contém filtros que o usuário do dispositivo pode usar para deixar sua visualização ainda melhor. “São vários filtros, se a imagem estiver pequena também dá pra aumentar o zoom pra conseguir ver mais detalhes. Posso assistir a uma sessão de slides com as mãos livres para anotar, e entendendo o que antes eu não conseguia ver”, explica André. Segundo Irochima, o mais trabalhoso do projeto foi criar o 'hardware', o suporte para a cabeça. “Fizemos vários testes até ficar confortável, porque o celular ainda é pesado, e poderia ser prejudicial à coluna. Foi um processo personalizado”, disse.

O protótipo foi testado com sucesso e passará a ser testado com um maior número de universitários com deficiência visual parcial, com apoios da UnP, UFRN e Liga Norte Riograndense Contra o Câncer. Francisco Irochima ressalta que será feito uma triagem para selecionar alunos da UnP e da UFRN que possuem deficiência parcial nos dois olhos, sendo preciso ver também se eles se enquadram e podem se beneficiar com esse tipo de dispositivo.

Startup

O próximo passo é transformar  o projeto numa startup e através disso promover melhoramentos industriais no dispositivo. Francisco Irochima explica que essa startup seria cultivada pela Inpacta, uma incubadora que pertence ao mestrado de ciência, inovação e tecnologia da UFRN. Esse projeto seria liderado pelo próprio André Borges, já que o mesmo vai se formar ainda este ano e irá para o Canadá.  A ideia é que por lá ele – com o apoio dos amigos potiguares – possa alavancar a ideia do dispositivo.

“A meta é que tenhamos investimentos pra fazer isso chegar de forma gratuita às pessoas que necessitem do aparelho, ou seja, aquilo que a gente chama de 'terceiro setor'. O  projeto deve manter sua proposta  inicial de baixo custo, chegar a muitas pessoas, e promover uma melhora no ensino e aprendizagem através da inclusão social”, analisa o oftalmologista.

Os envolvidos no projeto fazem questão de ressaltar que ele só foi possível graças a um conjunto de forças. “O protótipo teve apoio da UFRN, Programa de Pós-graduação em Biotecnologia (PPGB-UnP) e da Liga Innovation, o escritório de inovação da Liga Norte Riograndense Contra o Câncer. Ivanovitch Silva conta do entusiasmo que a turma de tecnologia teve em abraçar o projeto. “A gente não conhece o problema pelo viés biológico, mas entendemos de tecnologia, e vamos usar o nosso conhecimento tecnológico pra tentar resolver esse problema. Você sente que de alguma forma tem que resolver aquilo, você é tomado pela empatia”, diz.

Congresso vai abordar saúde óptica e inovação

Ainda de olho na relação entre saúde óptica e tecnologia, será realizado de 28 a 30 de março, em Natal, o 25º Congresso Norte-Nordeste de Oftalmologia, no Serhs Natal Grand Hotel, na Via Costeira. A programação vai  discutir bastante as inovações tecnológicas que têm sido utilizadas na oftalmologia, os algoritmos para indicação de cirurgias refrativas, a nova era das cirurgias 3D, e o que há de novo no transplante de córneas e inteligência artificial em oftalmologia. Também serão abordados novidades em nível mundial no que diz respeito ao tratamento e procedimentos cirúrgicos para doenças como catarata, glaucoma, miopia, olho seco, tumores oculares, estrabismo e descolamento de retina.

Outro grande avanço que merece destaque na área da oftalmologia são as lentes intraoculares atualmente utilizadas nas cirurgias. A modernização das lentes permite realizar procedimentos muito mais eficientes para tratar problemas de visão ocasionados pela catarata que atingem boa parte da população adulta de maior faixa etária, e que também é dependente do uso de óculos.

Segundo Marco Rey, co-presidente do congresso, “a tecnologia tem nos favorecido bastante para que as cirurgias e os tratamentos na área da oftalmologia resultem em procedimentos menos invasivos, com possibilidade de recuperação cada vez mais rápida, proporcionando uma melhor qualidade de vida aos pacientes e um resultado muito mais preciso”. A oftalmologia é uma das áreas da medicina que mais evoluíram nos últimos 50 anos, e é uma das três especialidades médicas mais procuradas entre os futuros profissionais de saúde. O professor Francisco Irochima é o coordenador da área de inovação do congresso.






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