Internacional
Disputa alimenta especulações
Publicado: 00:00:00 - 22/04/2012 Atualizado: 12:14:12 - 21/04/2012
Daniela Milanese
Agência Estado

Londres (AE) - Um candidato de esquerda ganha chances de vitória em eleição presidencial e os mercados começam a exibir movimentos especulativos temendo mudanças desfavoráveis. O enredo, já visto pelo Brasil, se repete agora na França. Embora com intensidade bem menor do que a turbulência gerada antes da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, os ativos financeiros passam a exibir volatilidade em Paris diante das chances de vitória do socialista François Hollande. As pesquisas indicam que ele e o presidente Nicolas Sarkozy devem liderar as votações do primeiro turno neste domingo, para então se enfrentarem no segundo turno, em 6 de maio.
François Hollande quer renegociar pacto fiscal da Europa para permitir iniciativas que estimulem a atividade econômica na zona do euro
Analistas consultados pela Agência Estado apontam que os mercados estão apresentando comportamento atípico nos últimos dias, alvo de especulações provocadas pela liderança de Hollande nas pesquisas. O motivo é o receio do desconhecido. “Como sempre, os mercados não gostam de incertezas”, afirmou Manuel Maleki, economista sênior do ING em Bruxelas.

Nos últimos dias, a Bolsa de Paris registrou desempenho aquém de seus principais pares europeus. Depois do tombo de 2,05% na quinta, o índice CAC só conseguiu subir 0,46% na sexta, dia de recuperação em Frankfurt (+1,18%) e Madri (+1,92%), por exemplo. No mercado de dívida, a diferença entre os juros pagos pela Alemanha e pela França aumentou. Também avança o custo para se proteger de um calote francês - os contratos de CDS chegaram a 210 pontos base na sexta-feira, uma alta de 10 pontos base.

O cenário vem permeado de suspeitas e especulações. A forte queda exibida pela Bolsa de Paris na quinta-feira foi atribuída a um relatório do Citigroup distribuído aos clientes, apontando que uma agência de classificação de risco poderia cortar o rating da França, fato negado pelo governo.

Nos bastidores, questiona-se o momento da publicação do relatório, pouco antes do primeiro turno. “A volatilidade mostra que os mercados estão mais nervosos do que o normal, então não é impossível que algumas mesas de operação tenham tentado ganhar dinheiro com o relatório”, disse Dominique Barbet, economista do BNP Paribas em Paris.

Analistas não acreditam num corte do rating francês neste momento. “Eu ficaria muito surpreso com qualquer mudança agora, pois as agências precisarão de tempo para conhecer a estratégia econômica do vencedor das eleições”, afirmou Maleki, do ING.

As movimentações mostram que a corrida presidencial passou a ter um peso sobre a postura dos investidores, à medida que uma decisão se aproxima e Hollande ganha espaço. “Você obviamente não pode desconectar uma coisa da outra, pois os mercados não gostam de incertezas e eleições democráticas não são controláveis”, disse Fabrice Montagné, analista do Barclays Capital, em Paris. “O aumento da diferença entre os juros da Alemanha e da França reflete alguma tensão na esfera política”, afirmou Raphael Brun-Aguerre,do JPMorgan.

Crise vai limitar ações econômicas

O compromisso com a austeridade e o pacto fiscal da União Europeia está no centro das preocupações dos investidores em relação ao processo eleitoral na França. Apesar do perfil moderado do candidato socialista François Hollande, há dúvidas sobre a manutenção da aliança com a Alemanha na campanha por cortes de gastos públicos na zona do euro. Entretanto, analistas consultados pela Agência Estado apontam que, na prática, o vencedor estará limitado pelas circunstâncias da crise. Portanto, não veem diferença tão substancial entre as decisões a serem adotadas após as eleições.

Os planos específicos para combater o déficit público ficaram de escanteio durante a campanha eleitoral, por se tratarem de um tema espinhoso. De forma geral, tanto Hollande como o presidente Nicolas Sarkozy se comprometeram a reduzir o déficit público e fizeram declarações de incentivo ao crescimento econômico, cada um a sua maneira.

Hollande quer renegociar o pacto fiscal da Europa, de forma a dar mais flexibilidade aos compromissos e permitir iniciativas que estimulem a atividade econômica. A perspectiva de recessão no bloco passou a ser apontada como um dos principais riscos para o cumprimento das metas fiscais.

“As pessoas (nos mercados) estão com medo de qual será o compromisso fiscal de Hollande caso ele vença”, disse Raphael Brun-Aguerre, analista do JPMorgan em Londres. “E também existe a questão da governança na Europa, pois acredita-se que pode ser mais difícil conseguir acordos com Hollande do que com Sarkozy.”

O atual presidente francês também levantou questionamentos ao afirmar que o Banco Central Europeu deveria fomentar a expansão econômica, algo que obviamente vai contra a avaliação da Alemanha, favorável ao conservadorismo da política monetária.  Mas entre os analistas prevalece a visão de que o vencedor terá de adotar visão pragmática - Hollande já afirmou que Lula é um de seus inspiradores e o ex-presidente brasileiro de fato caminhou para o centro após ganhar as eleições em 2002. “As trajetórias fiscais que os dois candidatos querem atingir são similares e o processo de negociação na Europa vai restringir as visões de Hollande”, disse Brun-Aguerre. “No geral, não existem tantas diferenças.”

Ainda assim, os investidores irão acompanhar mais de perto a movimentação para alianças no segundo turno. O candidato da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, foi um dos destaques da campanha eleitoral e chega ao primeiro turno com 14,5% das intenções de voto - Hollande tem 28%; Sarkozy, 25%; e candidata de extrema-direita Marine Le Pen, 16%, segundo pesquisa da CSA.

Se existe o risco de Sarkozy guinar à direita para ampliar a base de apoio, Hollande também poderia flertar com propostas mais atraentes à Frente de Esquerda. “Hollande poderá fazer concessões a Mélenchon”, disse Manuel Maleki, economista sênior do ING em Bruxelas. Depois da disputa presidencial, ganham importância as eleições para o parlamento da França, em junho. “O primeiro turno da eleição presidencial poderá dar as primeiras impressões sobre o balanço de poder para as eleições gerais em junho”, afirmou Fabrice Montagné, analista do Barclays Capital, em Paris.

Candidato exalta líderes sul-americanos

Paris (BBC) - Jean-Luc Mélenchon, candidato às eleições presidenciais deste domingo - e terceiro colocado em algumas pesquisas de opinião pública -  diz se inspirar em líderes sul-americanos como Luiz Inácio Lula da Silva, Cristina Kirchner, Rafael Correa e Hugo Chávez. Mélenchon, candidato da Frente de Esquerda – coalizão de oito partidos, sendo os principais o Partido de Esquerda, fundado por ele, e o Comunista – registra entre 13% e 15% das intenções de votos, segundo pesquisas de diferentes institutos.

Ele afirma que a “revolução cidadã”, tema de sua campanha, foi inspirada por Rafael Correa, presidente do Equador. “É o voluntarismo do Chávez, do Lula, de Correa, de Cristina Kirchner que me serve como fonte de inspiração e também me reconforta. Essas personalidades tiveram um voluntarismo para romper com as tradições e foram criticadas por isso”, diz. Mélenchon afirma ser amigo de longa data do ex-presidente Lula. “Eu o conheci na época em que ninguém o recebia em Paris.”

O candidato, atualmente deputado europeu, já foi ministro da educação do ex-premiê socialista Lionel Jospin entre 2000 e 2002. Ele deixou o partido socialista em 2008 para criar o Partido de Esquerda. Segundo Raquel Garrido, porta-voz do candidato para as questões internacionais, o Partido dos Trabalhadores brasileiro representou um “elemento chave” para Mélenchon.

“Lula criou um instrumento político que não estava apoiado em antigos partidos. Com o Lula, surgiu um novo tipo de esquerda, independente da social-democracia. Isso nos fez refletir”, disse Garrido à BBC Brasil. Lula também é uma fonte de inspiração em outras áreas, diz a porta-voz. “Ao pagar a dívida externa brasileira, Lula mostrou que o Brasil quis obter independência em relação ao Fundo Monetário Internacional”, afirma. “Lula defendeu também a autonomia do Brasil em relação aos Estados Unidos e criou uma política de alianças entre países do hemisfério sul”, diz Garrido.

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