Internacional
Disputas levaram papa à renúncia
Publicado: 00:00:00 - 17/02/2013 Atualizado: 12:55:55 - 16/02/2013
Jamil Chade - AGÊNCIA ESTADO

Cidade do Vaticano - Cansado e sem energia, mas também isolado politicamente. O papa Bento XVI, oficialmente, renunciou ao pontificado por conta de sua fragilidade. Fontes próximas ao Vaticano, porém, afirmam que a exaustão não tem a ver apenas com a sua saúde, mas também com a disputa de poder que marcou seus últimos meses no trono. A renúncia teria sido uma reação extrema ao que muitos classificam de governo paralelo, que teria se formado à sua sombra e sob comando do cardeal Tarcisio Bertone. Por seus aliados, Bento XVI optou por sacrificar seu próprio cargo, na esperança de recolocar a Igreja num caminho de maior coesão, forçando uma nova eleição.
Lombardi lembra que renúncia não foi uma decisão improvisada
Fontes nas embaixadas estrangeiras junto à Santa Sé relataram ao Jornal O Estado de S. Paulo, na semana passada, os bastidores dos últimos meses de Bento XVI. Dizem que o papa renunciou de livre vontade, mas consciente de que já não mandava sozinho na Santa Sé e, com os poucos anos que lhe restavam de vida, não conseguiria fazer o que havia planejado diante de resistência de seus ex-aliados no plano de fortalecer a Igreja.

De forma indireta, a Santa Sé confirmou que a fragilidade não vinha de sua saúde. “O papa é uma pessoa de grande realismo e conhece os problemas e as dificuldades”, disse o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi. “A renúncia foi uma mensagem à Cúria, mas também a todos nós”, disse. “Foi um ato de humildade, sabedoria e responsabilidade.”

Segundo Lombardi, não havia um problema específico, mas sim uma visão “mais ampla da Igreja no mundo. “Não foi uma decisão improvisada. Foi algo muito lúcido.” A possibilidade de renúncia era cogitada por Bento XVI desde abril de 2012, após viagem ao México e a Cuba.

O papa alemão chegou ao trono com a promessa de que conduziria uma limpeza na Igreja. O resultado, porém, foi o oposto e o equilíbrio de poder que havia durante os anos de João Paulo II ruiu.

Suas decisões de punir cardeais simplesmente foram ignoradas ou levaram anos para serem cumpridas, em um desafio claro ao poder do papa. Foram os casos de Roger Mahony ou de Thomas Curry. Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, foi outro que acabou sendo protegido por anos, apesar das denúncias. Por mais que tenha tentado, Bento XVI jamais conseguiu implementar sua ideia “de tolerância zero” em relação à pedofilia. “Quanta sujeira na Igreja”, chegou a declarar.

Mordomo teria sido usado para acentuar jogo do poder

Bento XVI também deu indicações de que poderia rever algumas de suas posições, como a questão do preservativo. Cardeais mostraram-se irritados e se apressaram em negar o debate. Esse não seria o único caso de desobediência. Bertone tomaria medidas à sua revelia, até mesmo punindo aliados do papa. Em uma ocasião, teria chorado.

Amigo pessoal do papa, Bertone foi a pessoa que mais recebeu poder dentro da Igreja em 2005. Mas, em alianças com membros da Cúria, teria criado situações em que colocava Bento XVI contra esses cardeais. Para evitar uma disputa direta, o papa optou inicialmente por não questionar as decisões de seu ex-aliado. Mas isso teria ido longe demais.

Um dos casos que revelou o poder de Bertone foi o do cardeal Carlo Maria Vigano, que alertou Bento XVI sobre suspeitas de corrupção nos contratos do Vaticano. O caso chegou até a imprensa italiana. Imediatamente, Bertone decidiu nomear Vigano como núncio nos Estados Unidos.

Também pesaram a revelação de corrupção no Banco do Vaticano, seguido pelo descobrimento de que próprio mordomo, pessoa que o vestia e estava em sua intimidade, havia roubado documentos que expunham a corrupção na Igreja.

Para diplomatas, um indício de que Bento XVI não acreditava que o mordomo havia agido sozinho foi sua decisão de perdoá-lo, mesmo depois que um tribunal do Vaticano o condenou. Em agosto, Bento XVI foi à casa que o Vaticano dispõe nos arredores de Roma para descanso. Fontes no Vaticano confirmaram que já naquele momento ele estava isolado. Nos últimos meses, o papa abandonou o confronto. Aos que chegavam com alguma intriga doméstica, respondia: “Eu sou um papa velho”.

Um clube dominado por europeus

Brian Murphy - Associated Press

Cidade do Vaticano (AE) - A face da Igreja Católica mudou profundamente durante a vida de Bento XVI. As comunidades católicas do Ocidente são hoje menores e mais velhas, enquanto as da África, da América Latina e de bolsões na Ásia florescem, proporcionando juventude e energia ao catolicismo. Essa transformação, no entanto, não se refletiu na composição do conclave de cardeais que elegerá o próximo papa. A composição do conclave continua - pelo menos no que diz respeito à divisão regional de cardeais - um retrato mais do passado do que um reflexo dos caminhos da Igreja nas últimas décadas.

Os europeus ainda dominam o conclave. Eles representam mais da metade dos 117 cardeais que se reunirão na Capela Sistina para a votação. Mas as pressões para a Igreja Católica no século 21 - manchada por escândalos de abusos sexual e perda de influência no Ocidente - podem pesar nas deliberações e nas escolhas dos cardeais. Enquanto o conclave não começa, os católicos se questionam se o papado voltará para um italiano, se irá para outro europeu, para a África ou se atravessará o Atlântico.

O papa polonês João Paulo II encerrou 455 anos consecutivos de papado italiano com sua surpreendente eleição em 1978. Ter sucessivos papas não italianos, entretanto, não significa que o momento é propício para outro papa que não seja italiano. Deve haver apoio à volta do papado para um italiano uma vez que a burocracia do Vaticano, conhecida como cúria, precisa de uma mão firme no comando. Como sempre, os italianos estão no controle da rede de escritórios e conselhos que gerencia desde as principais políticas do Vaticano à administração diária da cidade-Estado. As teorias a favor de um papa italiano sugerem que apenas uma pessoa de dentro pode guiar os aliados e influir para trazer reformas para a cúria, cujos líderes recuaram diante da tentativa de reformas de Bento XVI.

Enquanto isso, o embaraçoso escândalo do ano passado sobre o vazamento de documentos no Vaticano expôs a má administração no alto nível e a resistência em pressionar para haver uma transparência financeira maior. Com vinte e oito membros, os italianos possuem de longe a maioria dos votos entre os cardeais com menos de 80 anos. Esse número sozinho é maior do que a quantidade de cardeais africanos e asiáticos combinados.

Uma possibilidade italiana frequentemente considerada é o cardeal Angelo Scola, de 71 anos, arcebispo de Milão. Scola é conhecido por sua visão conservadora sobre assuntos sociais e de família. Mas ele construiu a reputação de compassivo em relação a problemas como pobreza, provavelmente influenciado por seu trabalho de formação no nordeste da Itália. Scola também parece confortável com a persona pública, necessária ao papado nos dias atuais. Ele ficou famoso por desenvolver uma forma aberta de contato com a população ao atender a qualquer pessoa que o quisesse ver, sem necessidade de marcação prévia, durante o tempo em que foi Patriarca de Veneza de 2002 a 2011. Outro candidato italiano possível é o cardeal Gianfranco Ravasi, diretor do escritório de cultura do Vaticano. Alguns outros também desportam como fortes candidatos.

Candidato de linhagem aristocrata

Em termos absolutos apenas, os cardeais europeus podem perfeitamente bem decretar que o papado vai permanecer em seu continente se essa for a sua única preocupação. Dos 61 cardeais, mais da metade dos elegíveis para o conclave são europeus. Embora seja pouco provável que apenas a geografia seja um fator decisivo no conclave, ela não está muito longe do pensamento de muitos em relação ao aumento da confiança dos prelados vindos da África e América Latina.

Se os poderosos italianos fiéis à Scola ou a outro candidato papal, por exemplo, não obtiverem apoio suficiente, eles podem lançar seu apoio a um colega europeu. Esse tipo de movimento refletiria a zona de conforto da Igreja moderna após os papado polonês e alemão. O problema é que muitas dioceses europeias, como muitas do Ocidente, foram duramente atingidas pelos escândalos de abuso sexual durante a década passada. Embora nenhum dos possíveis competidores papais europeus estejam diretamente implicados, existe a possibilidade de haver uma consideração cuidadosa entre os cardeais sobre que potencial contágio viria junto com a escolha.

Entre os nomes que circulam como escolhas europeias possíveis está o cardeal Christoph Schoenborn, de 68 anos, arcebispo de Viena que foi confrontado por escândalos de abuso sexual na Áustria que incluíam seu antecessor. Schoenborn, de linhagem aristocrata, estudou teologia sob o manto do futuro Bento XVI e é conhecido por sua visão estrita da doutrina da Igreja e tradições. Mas ele sugeriu, durante a crise de abuso sexual em 2010, que o Vaticano empreendesse um exame profundo de como educa seus padres. Ele também atiçou um debate amplo entre os teólogos católicos ao reconhecer a possibilidade de uma evolução divinamente guiada, conhecida como “design inteligente”, que desafia as visões tradicionais da Igreja.
África

O tamanho relativamente pequeno do bloco africano de 11 membros entre os cardeais votantes não reflete a crescente influência do continente nos assuntos do Vaticano. A previsão é de que o número de africanos católicos possa ultrapassar o de europeus até 2030, possivelmente durante o reinado do próximo papa.

Mesmo assim, o número de cardeais africanos tem permanecido estável nas três últimas décadas. A crescente comunidade católica africana destaca a tendência geral sobre o cristianismo no continente, onde os cristãos têm forte influência sobre a fé dos africanos.

As dioceses africanas têm prioridades diferentes das Ocidentais. Elas envolvem questões de pobreza crônica e a tentativa de conciliar os rígidos ensinamentos do Vaticano contra contraceptivos e camisinhas com a necessidade de combater crises causadas pelo excesso populacional e pela aids.

Para escolher um papa africano, seria necessário um conclave disposto a fazer uma das mais históricas decisões da Igreja. Um dos que são considerados possíveis candidatos a papa, o Cardeal Peter Turkson, de Gana, afirmou que a perspectiva de um pontífice africano “não está tão longe”. Turkson, de 64 anos, foi escolhido para liderar o escritório do Vaticano para assuntos de justiça e paz em 2009. Mas ele sofreu um grande revés no ano passado, ao ser forçado a pedir desculpas após fazer alarmantes previsões sobre o crescimento do Islamismo na Europa.

Análise

As tensões internas da Igreja atual

Leonardo Boff - Teólogo, filósofo e escritor

Adital - Não me proponho apresentar uma balanço do pontificado de Bento XVI, coisa que foi feito com competência por outros. Para os leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada Papa. A questão central é esta: qual a posição e a missão da Igreja no mundo? Antecipamos dizendo que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo.

O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos a Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco de espiritualização e de idealismo. Se demasiadamente próxima do mudo, incorre-se na tentação da mundanização e da politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra transcendente.

Como viver esta tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do testemunho e o do diálogo. O modelo do testemunho afirma com convicção: temos o depósito da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias para a salvação; temos os sacramentos que comunicam graça; temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira; temos o Papa que goza de infalibilidade em questões de fé e moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isto tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há salvação.

Os cristãos deste modelo, desde Papas até os simples fiéis, se sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a conversão e é um gesto de civilidade. O modelo do diálogo parte de outros pressupostos: O Reino é maior que a Igreja e conhece também uma realização secular, sempre onde há verdade, amor e justiça; o Cristo ressuscitado possui dimensões cósmicas e empurra a evolução para um fim bom; o Espírito está sempre presente na história e nas pessoas do bem; Ele chega antes do missionário, pois estava nos povos na forma de solidariedade, amor e compaixão. Deus nunca abandonou os seus e a todos oferece chance de salvação, pois os tirou de seu coração para um dia viverem felizes no Reino dos libertos. A missão da Igreja é ser sinal desta história de Deus dentro da história humana e também um instrumento de sua implementação junto com outros caminhos espirituais. Se a realidade tanto religiosa quanto secular está empapada de Deus devemos todos dialogar: trocar, aprender uns dos outros e tornar a caminhada humana rumo à promessa feliz, mais fácil e mais segura.

O primeiro modelo do testemunho é da Igreja da tradição, que promoveu as missões na África, na Ásia e na América latina, sendo até cúmplice em nome do testemunho da dizimação e dominação de muitos povos originários, africanos e asiáticos. Era o modelo do Papa João Paulo II que corria o mundo, empunhando a cruz como testemunho de que ai vinha a salvação. Era o modelo, mais radicalizado ainda, de Bento XVI que negou o título de “Igreja” às igrejas evangélicas, ofendendo-as duramente; atacou diretamente a modernidade pois a via negativamente como relativista e secularista. Logicamente não lhe negou todos os valores mas via neles como fonte a fé cristã. Reduziu a Igreja a uma ilha isolada ou a uma fortaleza, cercada de inimigos por todos os lados contra os quais importa se defender.

O modelo do diálogo é do Concílio Vaticano II, de Paulo VI e de Medellín e de Puebla na América Latina. Viam o cristianismo não como um depósito, sistema fechado com o risco de ficar fossilizado, mas como uma fonte de águas vivas e cristalinas que podem ser canalizadas por muitos condutos culturais, um lugar de aprendizado mútuo porque todos são portadores do Espírito Criador e da essência do sonho de Jesus. O primeiro modelo, do testemunho, assustou a muitos cristãos que se sentiam infantilizados e desvalorizados em seus saberes profissionais; não sentiam mais a Igreja como um lar espiritual e, desconsolados, se afastavam da instituição mas não do Cristianismo .

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte