Djalma Maranhão em fatos e fotos

Publicação: 2016-12-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Um prefeito folião, que saia fantasiado junto ao povo nas festas populares. Um gestor que se reunia com os intelectuais da época para definir ações nas áreas de cultura e educação, duas de suas maiores bandeiras. Essas são facetas do político Djalma Maranhão (1915-1971), que além da faceta política, foi atleta, professor de educação física, dirigente de clube, jornalista, diretor de jornal, militante do Partido Comunista, que depois se reorganizou em outros partidos, até ser cassado e banido do país na Ditadura Militar, quando morreu em 1971, exilado no Uruguai.

Figura icônica da história de Natal, sua vida e trajetória política foi revisitada por meio de acervos fotográficos diversos, alguns inéditos, agora organizados na publicação do livro “Djalma Maranhão 100 anos: uma fotobiografia”. Realizada pelo escritor Adriano de Sousa e pelo fotógrafo Giovanni Sérgio Rêgo, a obra será lançada na próxima quinta-feira (8), às 18h30, no Palácio José Augusto, sede do legislativo estadual.

Na ocasião também estará montada uma exposição fotográfica com curadoria dos autores. Viabilizado  através de remanejamento de recursos de emenda parlamentar do deputado Fernando Mineiro (PT) – é ele inclusive que assina a apresentação do livro – uma parte dos exemplares será destinada à bibliotecas públicas.

De acordo com Giovanni Sérgio, a ideia de investigar a história de Djalma Maranhão surgiu em decorrência da proximidade do seu centenário natalício, celebrado no dia 27 de novembro de 2016. “A gente viu o que tinha publicado sobre ele e vimos que caberia uma fotobiografia”, diz o fotógrafo em entrevista ao VIVER.

Grande parte das fotos são do acervo do ex-deputado estadual Roberto Furtado, secretário de finanças na gestão Djalma Maranhão e advogado do ex-prefeito na época da prisão. “Ele pegou e escondeu vários álbuns com fotos de Djalma Maranhão antes que os militares o destruíssem. São centenas de imagens que estavam guardadas com ele esse tempo todo e agora vêem a público”, diz. Além do acervo de Roberto Furtado, para a pesquisa também foi investigado os acervos de Haroldo Maranhão, sobrinho neto de Djalma, o da Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura de Natal, dentre outros.

O trabalho levou um ano e meio para ser concluído e traz registros raros da infância e juventude, bem como da época de atleta de basquete, futebol e de boxe, passando por sua vida política, até seus últimos dias. Segundo Giovanni, o mais demorado foi a restauração de algumas fotos e a identificação de algumas pessoas nas imagens. Para essa parte da pesquisa os autores contaram com o auxílio do jornalista Woden Madruga, do historiador Cláudio Galvão e do amigo Nathanias Von Sohsten.

Para o lançamento, os autores contam com a parceira  Assembleia Legislativa do Estado e da OAB-RN. Para o presidente do órgão, Paulo Coutinho, o livro é uma forma diferente de contar a história, que “transporta o leitor para a época e mostra como as coisas aconteciam, desde detalhes simples, como a vestimenta das pessoas, até o modo como trabalhavam”. “As imagens falam por si só. Giovanni Sérgio e Adriano de Sousa são profissionais que dispensam comentários. É um material de excelência, com qualidade na pesquisa e na produção", diz.

O livro faz parte de um projeto maior, chamado Djalma 100, lançado em 2015 em alusão ao centenário do político. A exposição depois será levada para para o Conselho Federal da OAB, em Brasília, e ao Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) Djalma Maranhão, em Itaguaí, no Rio de Janeiro. Dentro do projeto ainda está previsto uma biografia a ser escrita por Roberto Furtado.

Uma anomalia na história de Natal
Militante do Partido Comunista entre os anos 1930 e 1946, foi pelo Partido Trabalhista Nacional que Djalma Maranhão esteve a frente da prefeitura de Natal. A primeira vez nomeado pelo governador Dinarte Mariz (UDN), para o quadriênio 1956-1959. Depois, eleito  com 64% dos votos, quando pela primeira vez os natalenses elegeram um prefeito pelo voto direto. Esta gestão começou em 1961 e terminou 1964, quando foi preso pela Ditadura Militar.

Homem que soube transitar junto ao povo e às camadas altas da sociedade natalense, Djalma é citado pelos autores no livro como uma anomalia na história de Natal. “Nos métodos e nos resultados, sua atuação como prefeito evidencia por contraste o quanto a gestão pública entre nós sempre esteve abaixo da linha de miséria política e que a média dos nossos gestores é mesmo medíocre”, escrevem na Nota dos Autores.

Para Giovanni, ele foi o político mais notável na educação e na cultura de Natal. “Fazia lançamento de livros baratos. Construiu bibliotecas em áreas de passagem, próximo a paradas de ônibus. A ideia das praças culturais dele era incrível. Ele foi, sem dúvida, o maior incentivador da cultura de Natal. Tanto da cultura dita letrada, como da popular. Ele conseguia ter esse trânsito”, diz.

Além das várias obras, como construção do Palácio dos Esportes e da Rodoviária da Ribeira, o ex-prefeito se destacou por apostar na educação como agente transformador da sociedade. Em 1961 lança a campanha “De pé no chão também se aprende a ler” (reconhecida pela Unesco como válida para as regiões desenvolvidas do mundo). “Djalma pensava a escola como um espaço que qualquer um podia participar. Aberto, de palha, sem paredes, com atividades de música e atividades voltadas para os adultos”, comenta. “Ele recebia e marcava reuniões com autoridades nesses espaços. A gente não vê mais isso”.

Djalma foi preso no dia seguinte ao golpe militar. A noite, a câmara municipal ainda vota por unanimidade seu impeachment. “O pensamento de esquerda na época era muito grande. Os projetos de educação de base estavam muito ligados a essas ideias. Os militares observavam isso”, conta o fotógrafo. “Ele foi durante anos do Partido Comunista,  seu irmão Luiz Maranhão era dirigente nacional do Partido. Os militares viam Djalma como uma figura muito perigosa, tanto que tentaram destruir algumas de suas obras, como as praças de cultura, hoje inexistentes”.

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