DJs de Natal criam pista virtual e farão som por 12h seguidas

Publicação: 2020-06-26 00:00:00
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Tádzio França
Repórter

Quem prestou atenção na noite alternativa de Natal nos últimos dois anos sabe que a cena eletrônica da cidade está em plena ebulição festiva e cultural. Até que uma pandemia surgiu e desligou o som e as luzes por tempo indeterminado. Daí quem aprecia a dança e o encontro teve que se reinventar, ou melhor, se “remixar”: assim estréia hoje (sexta) a Rádio Meladonna, uma plataforma de radiodifusão on-line criada por DJs e produtores locais com objetivo de levar a pista para a internet e manter a cena em movimento. O lançamento será uma maratona de 12 horas de transmissão, das 17 às 5h, ao som de nove DJs e interações ao vivo.  

Créditos: Brum


A Rádio Meladonna é uma clara homenagem ao Bar da Meladinha, um dos points do Beco da Lama, na Cidade Alta, e berço da nova cena eletrônica da capital. As noites de quinta-feira no local são famosas. Esse é o fervo que inspirou a pista virtual do novo projeto. “Estamos tentando manter abertas as pontes que levam aos laços emocionais que criamos na vida noturna, são esses laços que mantém a cena quente com ou sem pandemia, e é por eles que continuamos nos movendo”, diz o DJ e produtor cultural Frank Aleixo, um dos idealizadores da maratona.

Tapete vermelho
A estréia da Rádio Meladonna trará entrevistas com produtores que terão programas nesta primeira leva de produção, sessões musicais com sugestões feitas por eles e, claro, os DJ sets a cargo de Ajé, T. Yuri, Ioana, B-Waves, Lizz, Hunter, Dandarona, IVNU e Raquel Pires. Aguarde muitas variações de house e techno pra dançar. “Como toda boa estreia, vamos iniciar o evento com um tapete vermelho. Talvez o menos glamouroso que se tem notícia. Tudo será feito por áudio transmissão. O lado bom é que ninguém terá o look criticado”, brinca o produtor.

A pluralidade da cena eletrônica natalense também estará representada nos encontros virtuais. “Temos gente que desenvolve diferentes trabalhos artísticos, pesquisas sonoras e acadêmicas. Portanto resolvemos aproveitar esses potenciais para expandir nossas conversas na rádio”, diz Frank. Cada produtor ficou responsável pelos seus próprios formatos e estuda a melhor maneira de abordar os assuntos sobre os quais têm conhecimentos e deseja abordar.

Frank Aleixo cita como exemplo dos assuntos que vão permear a rádio on-line, os trabalhos de Saionara de Jesus e Ubiratã, dois estudantes negros de Ciências Sociais com pesquisas, leituras e vivências que lhes dão propriedade para falar sobre questões raciais no Brasil. “Nada mais natural que ambos tenham um programa abordando esses temas. E como também são clubbers, já encontram uma maneira de colocar música no meio e dinamizar a conversa”, explica. Segundo ele, o bate-papo é uma forma de levar à quarentena aquele momento no fumódromo da boate, ou aquele momento na mesa de bar, no qual vários assuntos são discutidos.        

Alguns programas da Rádio serão quinzenais e outros semanais, vai depender dos produtores e dos formatos. Toda semana haverá pelo menos quatro ou cinco transmissões. “Nosso objetivo no futuro é ter pelo menos uma transmissão diária”, diz Frank. Antes da rádio o produtor já vinha fazendo experimentações no formato, através da live ‘Simpaticona da Boate’, todos os domingos, na qual atende pedidos dos ouvintes via chat, e fala sobre música e ‘otras cositas mas’, sempre com humor e muita informação.

Resiliência clubber
O homenageado Bar da Meladinha representa um ponto de virada na cena eletrônica da cidade. Segundo Frank, foi através dele que o acesso democrático às ações ocorreu da melhor maneira. “Foi lá que conseguimos construir a pista com a qual sempre sonhamos”, afirma. O bar é um espaço aberto à experimentação artística, possibilitado pela recepção calorosa dos proprietários Neide, Chico (in memorian), Daniel, e de todos que fazem a Meladinha.

As restrições impostas pela pandemia trouxeram problemas, mas também reforçaram a importância da cena para a cidade, segundo Frank. “Às vezes na rotina de produção ficamos presos às dificuldades imediatas de fazer parte do setor cultural em Natal. Agora, encaramos diariamente a falta que aquele movimento faz, de ter esse momento de encontro, expurgo e expressão”, diz.

O produtor acredita que “quando tudo isso passar” virá uma fase de intensa reconstrução da cultura. “Muitos aparelhos culturais já estão bastante prejudicados, e o que vejo pela frente é bastante trabalho. No ‘novo normal’ teremos muito a fazer, muitas prioridades a repensar, e algumas saudades para continuar lidando”, diz. Mas de uma coisa ele tem certeza: as clubbers continuarão dançando, produzindo e se expressando. “Precisamos disso”, enfatiza.

We like it virtual
O projeto We Like it Deep, uma das festas mais articuladas da cena natalense, também já ligou o som nas redes sociais: neste domingo fará a 2ª edição de sua “Virtual Party”, com discotecagens transmitidas ao vivo da página no Facebook. O line up conta com duas estreias, trazendo vertentes como downtempo e afro: Maco Maltauro (MG) e Physis (RN). A parte noturna fica por conta dos veteranos Blue&Red (RN) e Iordz (PB), com muito tribal, house e disco. O som irá das 16 às 21h.

Segundo Melson Diniz, DJ residente do projeto, pensa que mesmo com o “um quê” de escapismo, as lives dançantes usam do aspecto transformador da música, enquanto arte, para "transformar a dor" ao promover um pouco mais  de alento e diversão. “Ao mesmo tempo, é uma forma de se manter próximo das pessoas em um momento onde o distanciamento físico é necessário para o bem de todos", diz. A We Like it Deep completou quatro anos de festas em junho de 2020.

Serviço:
Rádio Meladonna. Sexta, das 17 às 5h, no link https://mixlr.com/radiomeladonna
We Like it Deep – Virtual Party II. Domingo, das 16 às 21h, no facebook.com/weLOVEitdeep






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