Do amor à pátria

Publicação: 2019-08-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


BANDEIRA


Morto Miguelinho, diante da forca e do Conde dos Arcos, a quem não negou a assinatura que seria, e foi, o fim de sua vida, e depois de cinquenta anos de jornalismo, tomei o cuidado de não mais acreditar em herói nas terras de Poti. Não proíbo a ninguém colecioná-los nem nego o escárnio de negá-los. Fica tudo acertado. Ninguém precisa duvidar que o inferno são os outros, como avisava Jean-Paul Sartre nas calçadas do Café Deux Magots naquela Paris existencialista.

Samuel Johnson, certamente a essa altura visto como petista deste lado de cá do mundo, nesta Aldeia Velha de Poti, advertia que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. E era um inglês da mais fina gabardine britânica. Portanto, isto posto, fica banido deste espaço qualquer amor que não seja feito deste chão com os meus sonhos e não com o pavilhão nacional a drapejar no céu de anil. Muito ou pouco, se ninguém sabe de que matéria são feitos os nossos sonhos. 

Não há nada mais perigoso do que o patriotismo quando arrancado do universo simbólico e usado como escudo. Em geral acaba sendo o útero de ferro das ditaduras mais cruéis. Foi assim com o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini. E em todos os casos com a leniência feia e pegajosa de nossa velha e sonsa classe média. Estamento feito de ideologia corsária que prega o mundo privatizado e ao mesmo tempo vive apojada direta ou indiretamente nas tetas do poder.

No Brasil, para não cansar os caminhantes, a classe média foi às ruas na Marcha com Deus pela Liberdade, em 1964, contra o perigo do comunismo. Quatro anos depois, em 1968, voltou às mesmas ruas contra a própria ditadura na passeata dos cem mil. Por precaução, os militares defenderam uma anistia ampla, geral e irrestrita. Ora, se de repente, dessa classe média macunaímica, e seus falsos heróis, irrompessem justiceiros para julgá-los e levá-los à forca?

A pátria para nós nunca foi coisa fácil. Desde as margens plácidas do Ipiranga, até hoje. D. Pedro, amando loucamente, não queria voltar a Portugal. Verdadeira ou falsa, ainda ecoa nos ouvidos a frase que saltou dos livros estudantis da escola risonha e bela, e caiu nos nossos ouvidos, ele montado num cavalo branco, símbolo dos heróis: “Laços fora, soldados! As cortes de Portugal querem nos escravizar!” E soltou seu brado retumbante: “Independência ou Morte!”.

De lá pra cá, não tem sido fácil. Contraditoriamente, a luta é o que nos enche de ânimo e preguiça, como na rapsódia de Macunaíma e na canção tropicalista de Caetano Veloso. Que os patriotas façam as suas louvações - a loucura é livre. E que os renegados da pátria tomem a sopa azeda do altruísmo que lhes foi posta à mesa. Aqui, depois de Miguelinho, não tem mais heróis. Que eles, os novos, e como as mãos do poema de Mário de Andrade, desvivam como viveram.

PODER - O empresário Tião Couto, ao assumir o PSD, passa a ter um domínio politico sobre dois partidos, já que continua no PL. O gesto põe seu nome outra vez no cenário da luta política.

ALIÁS - Para um bom observador da política mossoroense o fato ganha força econômica com a presença de Tião e se credencia por ser um partido já controlado no Estado por Robinson Faria.

FRACO - Quem já demonstra sinais de forte desnutrição na terra de Santa Luzia é o MDB do ex-senador Garibaldi Filho. A vereadora Isabel Montenegro preside a Câmara, mas sem forças.

COCÔ - A pérola estilística do presidente Jair Bolsonaro, sugerindo fazer côco dia sim, dia não, acabou na charge no Charlie Hebdo, sobre o lábaro estrelado. A barbárie espantou os franceses.

HQ - Osni Damásio garante que será das mais inovadoras a Feira de Livros e Quadrinhos, na Arena das Dunas, o período de 12 a 15 de setembro. Mais de cem horas de atividades culturais.

HISTÓRIA - O presidente da Academia Norte-Riogradense de Letras, Diógenes da Cunha Lima, convidou o historiador Manoel Neto para fazer conferência sobre o RN e o descobrimento.

ENGASGO - Não há prazo oficial para a retomada das obras de recapeamento da A. Hermes da Fonseca na faixa no sentido Petrópolis-Salgado Filho. Concorrência sem grana não tem solução.

PROFECIA - Do profeta radical e romântico do Grande Pronto depois de umas andanças pelo Centro Administrativo: “Aldemir Freire herdou uma equipe superada. O seu destino é patinar”.

ÚLTIMA - Nunca a nossa conversa foi tão longa e tão sem tempo marcado, como daquela vez na livraria do Campus. Encontro casual, numa manhã de horas vadias. Encontrei Carlão - Carlos de Souza - sentado à mesinha de vidro e lendo alguns livros. Há uns dois anos. Ele parecia bem.

OMEROS - Carlão era - não sei de outro - o maior leitor em Natal de Omeros, o longo poema épico de Derek Walcott. Dividido em livros que se dividem em capítulos. E como sabia do fato, provoquei a fera. Ele sabia tudo. Saiu interpretando detalhes que só um grande leitor sabe anotar. 

PERDA - A morte de Carlão não é uma questão de apenar citar o velho e surrado jargão de que o jornalismo fica mais pobre. Não. Desta vez empobrece mesmo. Pelo lastro cultural que sempre foi o alicerce do seu jornalismo de qualidade na tessitura do texto e que sabia erguer com talento.




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