Do menino de engenho à festiva Danuza D'Sales

Publicação: 2018-01-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Mesmo sem maquiagem não é raro Arruda Sales ser chamado na rua pelo nome de Danuza, a drag queen que ele incorpora há pelo menos 30 anos, desde que conquistou os natalenses com sua irreverência em programas de sucesso nas rádios potiguares. Mas a confusão dos fãs está longe de tirar Arruda do sério. Afinal, Danuza D' Sales é uma das drag queens mais solicitadas para eventos no RN e em estado vizinhos.

Em cena do curta inédito Verde-Limão
A drag queen potiguar em cena do curta inédito Verde-Limão

Nascido em São José de Mipibu em 1955, no Engenho Mipibu, Arruda tem uma longa trajetória artística em Natal. Pioneiro da cena transformista na capital potiguar, sua história se cruza com a de muitas casas de evento da cidade e a do carnaval, entre os mais famosos a Bandagália. Também comandou o Frenesi Café Teatro (no prédio da Samaritana, na Ribeira), no início dos 80. Além da vida noturna, Arruda também é artista plástico e artesão. O desenho e a pintura foram suas primeiras manifestações na arte, e apareceram quando ele era ainda criança, riscando o chão de casa com carvão.

Nesta entrevista descontraída – em que muitas brincadeiras não couberam no papel –, Arruda lembra de sua infância no Engenho Mipibu, em São José de Mipibu, onde viveu até 1964, antes de vir morar em Natal. No papo, ele conta várias histórias, como sua relação com a pintura, a vez em que conheceu Henfil, o projeto de montar um espetáculo sobre Zila Mamede e, claro, a experiência como Danuza Sales. “Pra você ter uma ideia, 90% do assédio que sofro nas festas são de mulheres. Elas querem conferir tudo. Pegam no meu peito para ver se é enchimento e passam a mão lá embaixo para saber como eu escondo o bilau”. 

Em desfile da Banda Gália, na Praia do Meio, anos 1980
Em desfile da Banda Gália, na Praia do Meio, anos 1980

Vida rústica
No Engenho de papai a gente fazia rapadura e mel. No do meu avô ele produzia cachaça. Lembro que a gente botava talo de bananeira em cima da rapadura para embranquecer. Era um processo bem artesanal. Também tínhamos casa de farinha na fazenda, fazíamos beiju, queijo. A gente criava animais, como ganso, pavão, galinha. Até café minha família já plantou pra torrar e tomar. Naquele tempo era tudo rústico, manual, sem energia elétrica. A geladeira era a gás e à noite precisávamos ligar as lamparinas.

Brincadeiras de menino
Minha infância foi toda no Engenho. Vivia a maior parte do tempo lá, só sai para ir a escola, no Marista de Natal. Meus primeiros brinquedos foram osso de mocotó. Depois comecei a fazer bonecas. A gente também ia muito para o Rio Mipibu pegar peixe e tomar banho. Uma parte do rio passava na fazenda. Hoje o rio está totalmente poluído. O que sempre me preocupava naquele tempo era a queima do canavial. A queima só podia ser feita à noite. Ficava aquele fogo enorme, vermelhão, depois a fumaça tomava conta.

Pastoril
São José de Mipibu era muito pacata, pequena. No São João a cidade ficava em festa. As famílias competiam para ver quem fazia a maior fogueira, decoravam as casas com bandeirinhas. Tinha que fazer até a cola com goma porque não vendia por lá. Eu adorava assistir as apresentações de pastoril. Tinha aquela rivalidade entre o grupo azul e vermelho.

Tapioca de feira
Sou da época da ladeira do Japão. Subia aquela ladeira escorregadia todo sábado no lombo do cavalo para ir a feira. Sempre gostei de feiras. Adorava ir ver as bonecas e panelas de barro. Gostava de comer picado e tapioca. Tapioca de feira tem outro sabor. 

Primeiros desenhos
Meus primeiros desenhos eu fazia com carvão no chão de casa. Mamãe ficava irada. Depois, no colégio, ganhei o incentivo de alguns professores. Me matriculei na escolinha de arte Cândido Portinari, com o professor Newton Navarro. Era nos anos 70. Newton era boêmio, faltava muito. Eu não seguia seu traço, mas ele elogiava meu trabalho.

A infância na tela
Nas minhas pinturas sempre mesclei profano e religioso, abordando lendas e outros temas, como bailarinas, que era uma coisa que eu gostava quando vivia em São José de Mipibu. Ficava fascinado com circo. Quando comecei a pintar reproduzi o mundo imaginário lúdico que vivi na infância. Hoje estou sem tempo para pintar. Tem gente me cobrando, dizendo que nunca mais viu trabalho meu. Tenho que voltar as telas.

Amizade com Henfil
Na época que Henfil morou em Natal fui bater na casa dele pedir para ele fazer o texto de apresentação da minha exposição. Ficamos amigos. Ainda hoje tenho o cartaz. A exposição foi na Biblioteca Câmara Cascudo, na época a diretora era Zila Mamede.

Danuza D Sales
Arruda Sales - Artista plástico e drag queen

Zila Mamede
Tenho um projeto de montar um monólogo sobre Zila, no estilo do que Beth Goulart fez com Clarice Lispector. Estou precisando dar uma mudada, fazer algo não caricato. Já inicie a pesquisa. Consegui os vídeos dela na TV-U, os livros, entrevistei pessoas que conviveram com ela. Até uma roupa semelhante ao que ela usava no vídeo da TV-U eu comprei num brechó. O texto quem está fazendo é o Tarcísio Gurgel. Ele já me entregou 30 páginas e faltam mais algumas para completar uma hora de espetáculo. Chamei a Sônia Santos para me dirigir, queria um olhar feminino. Quero estrear esse espetáculo em 2018.

Danuza D'Sales
Danuza já tem uns 30 anos. Ela começou no rádio. As pessoas primeiro conheceram sua voz. Mas eu ia montado para o estúdio. Fez muito sucesso no rádio. Depois comecei a me apresentar com ela, o que faço até hoje. Sou convidado para todos os tipos de evento. Estive no reveillon do Iate Clube e terça passada comandei uma aula da saudade em Campina Grande.

Drag Queen
Quando comecei como transformista já tinha gente  fazendo em Natal. Alguns faziam escondido da família. Eu, não. Sempre falei pros meus pais que eu era artista. Agora sou drag queen. Na cidade tem uma turma nova se apresentando. O pessoal me tem como a mais idosa. As drags de hoje são todas magrinhas, fazem novas performances, usam outras maquiagens. Eu nunca mudei minha maquiagem. Me arrumo em 20 minutos, até com pouca iluminação.

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