Cena Urbana - Vicente Serejo
Do quão
Publicado: 00:00:00 - 24/11/2021 Atualizado: 00:31:27 - 24/11/2021
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Divulgação
Homenagem a Olavo Bilac

Homenagem a Olavo Bilac


Não sei dizer, Senhor Redator, se foi Cronos, o deus quantitativo do tempo, ou se Kairós, o deus qualitativo, aquele que sabe as horas oportunas de todas as coisas. Um deles protegeu a mim, o acusado de ser um parnasiano ultrapassado, e colocou outra vez na vitrine estilosa das palavras da moda o uso do ‘quão’. No passado, foi um sonoro advérbio de tempo a adornar a escrita e a fala e que vivia na forma de ‘quam’ nos verbetes de dicionários do português arcaico. 

O poeta Jarbas Martins, um dos melhores da tribo, muitas vezes, em seus artigos e falas, taxou de parnasiano o estilo deste cronista. Disse a verdade, mas foi injusto quando pareceu insinuar que este escrevinhador de jornais temia assumir o estilo passadista. Meu pai gostava de sonetos parnasianos, cantantes e sonoros, daí o jeito impossível de ser moderno, ainda que nem assim seja eterno, só para lembrar o verso célebre do poeta Carlos Drummond de Andrade. 

Venho acompanhando a redescoberta do ‘quão’ e sua nova glória, mas até agora as suas aparições não haviam assanhado esta alma setentona e comedida. Li em alguns artigos, aqui e ali, e ouvi algumas poucas vezes saindo da boca de comentaristas e repórteres de tevê. Ia indo bem, como se diz, de alma apascentada, quando dei de cada com um ‘quão’ no título do artigo de Tatiana Prazeres, senior da Universidade de Negócios Internacionais e Economia de Pequim.

Ora, Senhor Redator, foi muito. Não pude mais ficar quedo e calado. Era a hora certa de fazer a defesa do meu tão humilhado gosto condoreiro, bem filtrado em versos alexandrinos, luminosos e cantantes, como a primavera. Por isso vou à luta, fazendo este registro que, se não bastar aos meus acusadores, bastará a mim mesmo, eu que vivi esses anos todos sem merecer do mundo o menor realce, mesmo amando as palavras e a elas devendo a própria sobrevivência.

Então, fica posto que não há palavra antiga que não possa voltar a ser moderna. Basta ir buscá-la em algum lugar da memória, afinal nunca renegam o seu passado. Vivem hibernando umas e dormitando outras, nas páginas dos dicionários antigos e novos. Quando li o título do artigo de Tatiana Prazeres - ‘Quão confucionista é a China hoje?’ - senti um alívio justo e merecido, até pelo renascimento de Confúcio na revalorização de suas lições de autoconfiança.  

Foi bom que depois de tantos usos por comentaristas e articulistas locais, saísse de uma ‘senior fellow’ um ‘quão’ assim, solenemente posto no alto da página da Folha de S. Paulo, para tratar das coisas importantes do mundo. É verdade que na velhíssima China ainda impera o velho Partido Comunista. Hoje vale a riquíssima China que depois de uma revolução cultural não renegou o passado para ser uma das maiores economias do mundo. Quão eterna é a China!  

ESTILO - De um deputado estadual tucano que não quer botar o bico de fora: “Nós chegamos a um ponto tão ridículo que não sabemos se somos governo no Estado e oposição em Brasília”.

ASSIM – Aqui, os tucanos apoiam a governadora Fátima Bezerra, do PT; em Brasília, bem ao contrário da posição nacional, nossos tucanos apoiam o ministro Rogério Marinho ao Senado. 

MÉRITO - Fez muito bem a Câmara Municipal de Natal ao conceder o Mérito Elino Julião a Terezinha de Jesus. Foi a cantora que pioneiramente abriu o mercado do show para as mulheres. 

TUCANAGEM - Risível, para não dizer ridículo, o espetáculo protagonizado pelos tucanos na prévia para escolha do candidato da sigla a presidente da república. Eles são traidores entre si.

BRASIL - Somos uma terra de contrastes, já dizia Roger Bastide. O novo feriado nacional, 13 de março, é data de morte de Irmã Dulce, a santa brasileira. E não a do nascimento, 13 de maio.

ERRO - O cronista, vítima do alemão chamado Alzheimer que certas noites aparece para uma visita, grafou ‘Lima’ no lugar do legítimo ‘Cabral’ de Daniel, novo secretário de comunicação.

COMO? - Nosso Lula da Silva salta das suas estranhas certezas e compara os dezesseis anos de Angela Merkel no poder com os dezesseis de Daniel Ortega. Sem medo nenhum do inferno.

BABA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando o olhar gordo do vaidoso babando na própria e esfarrapada fantasia de jacaré engomado: “O ridículo denuncia o falso”. 

INVISÍVEIS - O tema do Enem sobre os brasileiros sem identificação foi inspirado no livro ‘Invisíveis’, da mossoroense Fernanda da Escossia, filha e neta de jornalistas de Mossoró. Ela é casada com o jornalista Mário Magalhães, autor da biografia de Mariguella e que virou filme. 

VAREJO - Dizia dia desses, entre uma estante e outra da livraria do Campus, um bem treinado nas lides petistas do território acadêmico: “Hoje a governadora Fátima Bezerra paga o preço de um tempo atravessado nos últimos dois anos por uma pandemia que jogou o governo no varejo”.

MAIS - Segundo o petista, aposentado da UFRN, o prefeito Álvaro Dias aproveitou melhor o enfrentamento da Covid, como ação de governo, do que a governadora que aceitou uma gestão burocratizada: “A luta contra o Covid, é inegável, acabou sendo um mérito pessoal do prefeito”.   

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