Do sim, do não

Publicação: 2020-08-08 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgação


Há uma velha boutade, curada pelo tempo, que o mundo é feito das pessoas do ‘sim’ e das pessoas do ‘não’. As do sim, quando podem, dizem sim, ou lutam para que o desejo, se legítimo, seja possível. E aquelas do não, que batem a porta e cruzam os braços convencidas de que ‘ordem é ordem’. Fecham-se na má vontade. Não é à toa que a tradição popular consagra, no brasileiro, a verdade jocosa de que aqui todo mundo é autoridade, até o guarda da esquina. 

Ou, no limite, na forma de afirmação, quando é um vício, aquele de perguntar se o outro sabe com quem está falando. Há pouquíssimos dias, um desembargador de São Paulo, de forma absurdamente agressiva, não só ligou para o superior de um policial, em Santos, na vã estupidez de tentar mostrar que sendo uma autoridade não podia ser multado ao infringir a lei - ele, sem usar máscara - como se, sendo homem da lei, tivesse o direito de ferí-la rasgando a multa. 

Nem por isso, é justo desconhecer e distinguir o bom policial de vigilantes destituídos de boa formação profissional. Se não pensasse assim, e assim não agisse, este cronista não teria merecido a Medalha do Mérito da Polícia Militar do Estado, quando era seu comandante geral o coronel Francisco Araújo, atual secretário de segurança. Foi dele que recebi o gesto, certamente por defender o papel da PM, e não os excessos que não representam sua tradição. 

O primeiro compromisso da ação policial é o de orientar e defender a sociedade que é representada pelos seus cidadãos e cidadãs, individual ou coletivamente. Os excessos existem e sempre existirão, mas não podem ser vistos como a tradição dos seus princípios. O estado de violência levou a sociedade a abrigar a formação de grupos paramilitares que distorcem muitas vezes o verdadeiro sentido de sua ação protetora, quando travestidas de verdadeiras milícias.

A má formação, e se sob a égide de algum espírito autoritário que nem sempre rompe a falsa capa com a qual esconde a incivilidade, se revela. Venerar a ordem sem questioná-la no Brasil inzoneiro, é a manifestação típica dos que buscam a afirmação pelo ‘não’. Não admitem o ‘sim’, e enxergam como diminuição de sua ‘autoridade’. E se têm nas mãos o poder do ‘não’, ai, então, é um estrupício. As ditaduras são regadas assim, com a água podre da intolerância.

É célebre o episódio que teria ocorrido na II Guerra Mundial. Uma esquadrilha, depois da missão de bombardeio nas linhas inimigas, retornava ao porta-aviões na última reserva de combustível. Pousariam direto, sãos e salvos, se avistassem o porta-aviões na noite escura, de luzes apagadas por segurança de guerra.  O comandante, avisado pelo rádio de um dos aviões, descumpriu uma norma de ferro, e deu a ordem: “Iluminem o porta-aviões”. Foi condecorado.  

LUTA - Embora tenha, definidos, cerca de quatorze candidatos a prefeito, a sucessão em Natal dificilmente sairá do confronto Álvaro Dias versus Jean-Paul Prates, este pela força do governo.

LASTRO - Para uma fonte petista, nesta hora, e embora sem nunca ter sido votado em Natal, Jean-Paul tem chances de ampliar seu lastro de apoio material até por ser senador da república.

SACADA - A ideia criativa da temporada de marketing dos dias dos pais coube à loja Oticalli ao escolher o jornalista Fernando Campos como modelo, ali, ao lado do seu pai, Hílder Campos.

TOQUE - Nando, filho de Hílder, é deficiente visual e por isso foi a grande inspiração do seu avô, Fernando Paiva e do pai, ao criarem a Casa Durval Paiva. Aliás, modelo para todo Brasil. 

ALIÁS - Fernando Campos, embora muito jovem, faz sucesso no seu blog com os vídeos que produz na série ‘Na visão do Cego”. A quem desejar acessar este é seu perfil: @nandopcampos 

HUMOR - De uma velha raposa política quando soube que o governo procura nas gavetas uma bala de prata para abater uns dois deputados da oposição: “Bala de prata só mata lobisomem”. 

AGITO - Amanhã, domingo, no calçadão do Midway, às 10h, os técnicos de som, luz e roadies fazem um ato público. Sem shows, eles já sofrem há seis meses, desde que a pandemia chegou.

RETRATO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, depois de ouvir uma longa discussão, já meio acalorada, sobre a nossa atual bancada federal: “Nunca foi tão bocó”. E riu. 

AVISO - Não foi por falta de aviso desta coluna ao informar, há cerca de um mês, as ameaças, via redes sociais, à estátua de Câmara Cascudo e à Coluna Capitolina, quando a presidência do Instituto Histórico comunicou à representação local do Patrimônio Histórico e ao setor policial.

NOMES - Dias depois, o Ministério Público confirmou ter relatório de 65 páginas identificando 23 servidores da área da segurança pública do movimento ‘Policiais Antifascismo’. Segundo a relação do MP-RN, são vinte policiais militares, dois civis e um bombeiro. Seriam 579 no país. 

AINDA - A coluna cuidou de informar o lançamento da tradução do livro ‘Antifa - o manual antifascista’, de Mark Bray, edição da Autonomia Literária, já à venda no Brasil. O movimento condena símbolos da Itália fascista, daí a ameaça à ‘Coluna Capitolina’. Eis este novo Brasil.     


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