Dois poetas que o vento (quase) levou

Publicação: 2020-03-11 00:00:00
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Michelle Ferret
Repórter

Como um apanhador de desperdícios, João Cândido vive de juntar vidas. São máquinas de datilografar, fitas cassetes, obras de arte, pedaços do tempo dentro de seu espaço “Engenho de Arte”, localizado no Mercado de Petrópolis. Um dia, trabalhando em uma pesquisa, ele ouviu o barulho de uma caçamba despejando material por trás do Mercado. E muito papel voou pelos ares. João percebeu  que uma folha de papel deitou no chão, perto do pé da mesa do ateliê. Era um soneto escrito à mão com assinatura de Milton Siqueira, o poeta marginal.  “Acredito que enquanto despejavam o material no lixo atrás do mercado, voou papel para tudo que é lado e foi uma ventania enorme. E nesse voo dos papéis, um deles voou para dentro da minha casa e eu só percebi no outro dia. No sábado retornei e fui recolhendo os papéis pelas árvores, pelo jardim”...

Créditos: Acervo do Instituto Franklin JorgeEdgar Borges, o Blackout, fazia bicos para sobreviver e vendia seus poemas na rua. Perseguido pela política, driblava a dor com roupas coloridas e tinha na poesia sua fuga existencialEdgar Borges, o Blackout, fazia bicos para sobreviver e vendia seus poemas na rua. Perseguido pela política, driblava a dor com roupas coloridas e tinha na poesia sua fuga existencial


João juntou aproximadamente 200 poemas de Milton Siqueira e desde então guarda em uma caixa de sapatos toda uma vida esquecida. Cellina Muniz, escritora, teve contato com o material e chegou a escrever um artigo sobre a preciosidade encontrada por João. Ele que é do Recife, não conheceu Milton de perto, mas agora guarda toda sua memória, ao acaso. “Tinha muito documento, muito material da vida dele, além dos poemas e escritos”, lembra.

Estimulada por esse encontro, Cellina teve a ideia de reunir a memória de Milton Siqueira e Blackout. Promovido pelo Departamento de Letras da Universidade Federal do RN, o encontro intitulado “Poesia Esquecida Potiguar”, acontece nesta sexta-feira, às 10h no auditório do Instituto Ágora. Mediada por Cellina, a roda de conversa é composta além de João Cândido, por Abimael Silva, quem conviveu de perto com Blackout, Moisés de Lima, quem escreveu o obituário de Blackout e o conhecia devido ao convívio próximo de seu irmão com o poeta em Mãe Luísa, e o escritor médico e filósofo Edrisi Fernandes.

Conhecida também como a geração mimeógrafo, a poesia marginal atravessa as ruas, os bares, perfura o capitalismo e não se prende a nenhum regime ditatorial literário.  Neste universo estão os dois poetas do Rio Grande do Norte, que desviam da força do esquecimento e permanecem entre as línguas, letras e na existência. Milton Siqueira e Blackout são assim, livres. “Vou mediar a conversa, pedindo a versão de cada um deles sobre os poetas (Abimael e Moisés se detendo mais sobre Blackout, um poeta preto, pobre e pirado, e Edrisi e João abordando mais a história de Milton Siqueira, que apesar de descender de uma família de poetas, foi proscrito por conta de uma história trágica na sua vida”, contou Cellina ao VIVER.

Cellina que é professora do curso de Letras da UFRN, acredita que a poesia marginal precisa ter mais voz. “Eu já queria há tempos mostrar, especialmente para alunos de Letras, que a poesia potiguar não se reduz a Jorge Fernandes ou Zila Mamede. No ano passado falamos sobre os poetas marginais dos anos 80. Então, seguindo esse movimento, abordamos neste ano esses dois nomes esquecidos”, disse.

Ambos, mas sobretudo o segundo. Como eram poetas que não se enquadravam nos moldes dos panteões academicistas das letras, foram rejeitados,  invisibilizados, esquecidos. “Sem contar na falta de preocupação do Estado com políticas públicas mais consistentes de formação de público leitor: não temos uma biblioteca, uma publicação regular e acessível, poucos editais de incentivo à produção local. Sem falar na lógica de apadrinhamentos políticos”, acredita.

Blackout: “O sistema não queria me ver feliz”
Tinha 15 anos / quando a palavra não era dita / Tinha 20 anos / quando o livro não era aberto / até a penúltima página / Tinha 30 anos somados, rascunhados na minha própria favela / onde trasportava todos os dias sonhos de / morro a morro / Tinha 40 anos / quando o sucesso era verde e amarelo / no bê a bá da minha escola / Ah! tinha muitos anos para viver em Cuba.../ mas num ato infeliz / fuzilaram-me... (R/EVOLUÇÃO) .“Esse poema representa demais o Blackout, o poeta do morro que faz poesia no final dos anos 70 e ele faleceu no auge, é uma pena que ele se foi”, contou o editor do Sebo Vermelho Abimael Silva ao VIVER. Perseguido pela polícia por ser negro e da periferia, Edgar Borges conhecido como Blackout, driblava a dor com roupas coloridas e tinha na poesia sua fuga existencial.

Abimael conviveu de perto com Blackout. “Tive uma boa amizade com ele, até o penúltimo dia dele partir e acontecer a tragédia. É muito cruel o cara ser chamado de Blackout e morrer de choque”.

O poeta partiu em 1989 ao pintar uma casa e sofrer uma descarga elétrica. Ele fazia bicos para sobreviver, além de vender seus poemas nas ruas da cidade. “Ele era muito injustiçado e quase ninguém lembra dele aqui. Conversei com Blackout desde 1995 até 1989, até ele falecer, ele ia sempre ao Sebo, vendia poemas aos clientes. E uma felicidade que tenho é de reeditar o livro “Duas Cabeças”, sua única obra.

O livro seria lançado durante o encontro, porém não ficou pronto a tempo e será lançado na próxima semana depois do dia da poesia com 100 exemplares. “A poesia de Blackout é uma poesia bem sofrida, aquele cidadão injustiçado a vida inteira, revolucionário, não tem essa coisa comum, esse chazinho de folha de laranja”, lembra Abimael.

Para o editor, seria fundamental se ele estivesse hoje entre nós. “Ele quebrava a mesmice da vida e da poesia”.

O editor lembra que Blackout morreu numa segunda-feira e no sábado dias antes, tomou cerveja  e quando foi saindo ele parou na porta e disse: “Adeus adeus adeus, são cinco letras que choram”. “É uma coisa cruel, uma despedida”.

Abimael conheceu Milton Siqueira também, embora nunca tivesse tido coragem de conversar com ele. “Ele era muito explosivo e não admitia provocação. Eu o admirava muito. Tive todos os livros dele, desde Botão de Rosas até o que ele lançou em 79, poemas reunidos. Ele é um poeta super maldito e de altíssima qualidade”. 

Moisés Lima, jornalista lembra de Blackout também com muito carinho. “Eu não era das pessoas mais próximas, meu convívio com ele era do movimento alternativo que tínhamos nos anos noventa e ele era morador de Mãe Luíza, onde mora meu irmão João Batista e Blackout convivia muito com ele. Ele era completamente diferente de tudo”

Moisés lembra que ele era um cara que escrevia os poemas nos guardanapos e distribuía pela cidade, pelos bares. “E ele já apresentava um comportamento de louco, tinha surtos devido ao que sofria pela polícia e chegou a ser internado no Hospital Colônia João Machado e na Casa de Saúde diversas vezes.”

Milton Siqueira: Obra poética encontrada no lixo
Milton Siqueira, diferente de Blackout, era de família de classe alta e como escreveu Cellina em seu artigo, carregava laços sanguíneos com Homero e Esmeraldo Siqueira. Nascido em 1911 e morto em 1988, sua poesia era a das ruas, da revolta, dos infames. Renegado pela família, ele e Blackout se encontraram no bairro de Mãe Luísa, a grande mãe de ossos largos que os abrigou até a morte, para além das ruas.

Créditos: ReproduçãoSiqueira trocava sonetos por dinheiro, mas diferente de Blackout, era de família abastada. Cerca de 200 poemas de sua autoria foram achados em um lixo, nos fundos do Mercado de PetrópolisSiqueira trocava sonetos por dinheiro, mas diferente de Blackout, era de família abastada. Cerca de 200 poemas de sua autoria foram achados em um lixo, nos fundos do Mercado de Petrópolis


“Ele foi isolado da família em Mãe Luíza é onde a história dos dois se cruzam. Milton de uma família de médicos e Blackout pobre”, disse João Cândido, cujo depoimento abre esta reportagem e hoje é quem guarda mais de 200 poemas de Milton.

João acredita que o descarte do material pode ter sido feito por alguém da família, que assim como foi com Milton, resolveu escolher o abandono.

“A ideia é levar a caixa para lá e que as pessoas possam ter contato com a poesia de Milton que foi totalmente esquecida e jogada fora, assim como ele. No século passado era inaceitável ter um poeta em uma família abastada. Tem muita coisa por trás desse material que veio parar nas minha vida da forma mais inusitada possível”, acredita João.

O material é datado, manuscrito e reúne escritos de Milton Siqueira dos anos de 1964 até 1988. “Dá pra fazer uma análise ele fala muito sobre solidão e abandono nos sonetos”.

Milton assim como Blackout trocava o soneto por dinheiro, e esses sonetos estavam dobradinhos e estão todos do mesmo jeito que encontrei. Ele fazia alguns versinhos, comentários, referências a alguns livros, biografias. É notável sua veia satírica, ele era ácido com a sociedade, não suportava os intelectuais, era completamente anarquista. E é um registro do seu próprio abandono também”.

MEU DESEJO
Milton Siqueira

Quando parar meu relógio

Meu infeliz coração

Não faça meu necrológio

Nenhum poeta cagão!



Meu necrológio não quero

Feito pelos literatos

Que estão mais longe de Homero

De que os cachorros e os ratos!


Desejo ser esquecido

Desta geração sem luz

Basta me ser querido

Do meu salvador Jesus.


Dos infames paquidermes

Eu desprezo a hipocrisia

Eu tenho horror a estes vermes

Humanos da tirania!



 (Natal, 2 de março de 1982)













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