Dom Heitor, simplicidade e mansuetude

Publicação: 2020-12-01 00:00:00
João Medeiros Filho
Padre 

No próximo dia 3 de dezembro, celebrar-se-á o septuagésimo aniversário de ordenação presbiteral de Dom Heitor de Araújo Sales, arcebispo emérito de Natal. Bênção de Deus para o clero e os cristãos por seu exemplo de vida devotada à Igreja. Durante todo o seu sacerdócio serviu ao Povo de Deus, em nosso estado. Desempenhou as funções de vigário paroquial na cidade de Nova Cruz, pároco de Santa Teresinha no Tirol (Natal), capelão dos Colégios Marista e Neves, vigário episcopal para as religiosas e vigário geral da arquidiocese. Participou da equipe de formação do Seminário de São Pedro, como diretor espiritual. Foi eleito bispo de Caicó em 1978 (adotando como lema: “Unitate, Pace, Guadium”). Nomeado arcebispo de Natal, no ano de 1993. 

Exerceu o magistério superior na Escola de Serviço Social e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Antes, lecionou no seminário arquidiocesano e ali tivemos o privilégio de ser seu aluno. Primeiro professor da UFRN com o título acadêmico de doutor, obtendo “summa cum laude” na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Integra a Sociedade Brasileira de Canonistas.

Dom Heitor conduz-nos às palavras do Mestre: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Terno e misericordioso, não eleva a voz e trata todos com elegância e atenção. Sua vida transmite-nos a lição do Antigo Testamento: Deus é como “uma brisa suave e mansa” (1Rs 19, 11). Revela-nos que “a discrição é a riqueza da alma e a exuberância do pastor”, segundo as palavras de Santo Irineu, bispo de Lyon. 

Como quarto bispo de Caicó, sucedeu a Dom Manuel Tavares de Araújo, mipibuense como ele, também oriundo do clero natalense. Ali se revelou pastor solícito e dinâmico, reorganizando a diocese, reabrindo o Seminário Santo Cura d´Ars. Restaurou o diaconato permanente, construiu o Centro Pastoral Dom Wagner, o Mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe das Irmãs Clarissas e a nova Residência Episcopal. Instalou a Rádio Rural FM e realizou outras obras importantes no bispado seridoense. No seu pontificado, na sé de Santana, o clero começa a dispor de um plano de saúde e assistência médica. A sua primeira diocese lhe deve, em especial, o exemplo de desprendimento e dedicação, piedade e mansidão. A riqueza interior não necessita de alarde. Seu senso de justiça e caridade recordam-nos as palavras do apóstolo Paulo: “Para todos eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns” (1Cor 9, 22).

Enquanto quarto arcebispo metropolitano de Natal, Dom Heitor organizou o dízimo das paróquias para manutenção do culto divino e das obras sociais da Igreja. Redimensionou o patrimônio da mitra arquiepiscopal. Deu atenção especial às necessidades pastorais e espirituais do arcebispado. Trouxe o Seminário de São Pedro – celeiro de tantas vocações sacerdotais – de volta à sua sede, na Avenida Campos Sales, nº 850. Vale ressaltar que, durante o seu episcopado, aconteceu a beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu pelo Papa São João Paulo II, em 5 de março de 2000. Entregou a arquidiocese ao sucessor – seu ex-aluno Dom Matias Patrício de Macêdo – com as finanças equilibradas e a Rádio Rural, engajada em profícua ação evangelizadora. Na sua emeritude edificou ainda o Mosteiro Carmelitano (Carmelo de Nossa Senhora do Sorriso e Santa Teresinha), em Emaús (Parnamirim).

Tais feitos são centelhas da grandeza de sua alma, generosidade e capacidade de servir. Dele deve-se dizer: um homem escolhido por Deus e totalmente devotado à sua missão e à Igreja de Cristo. Cultura e erudição povoam a sua mente. Nos seus 94 anos goza de uma memória e lucidez admiráveis. Dedica-se à leitura cotidiana e mantém-se atualizado nas ciências eclesiásticas e assuntos sociais. Ao ingressar no seminário com doze anos, iniciou oficialmente sua vida de consagração a Deus. Vive o que exclamou o salmista: “O zelo de tua casa me devora.” (Sl 70/69, 10). Continua sempre aberto a ouvir, consolar, irradiar luz e trazer paz aos que dele se aproximarem. Sua humildade toca e encanta. Dizia Santa Dulce dos Pobres: “Os verdadeiros filhos de Deus revestem-se da simplicidade, que é a linguagem do Infinito.”








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