Dom Nivaldo - um santo viveu entre nós

Publicação: 2018-03-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Padre João Medeiros Filho

No próximo dia 15 de março, celebra-se o centenário de Dom Nivaldo Monte. Ele foi o primeiro arcebispo brasileiro a ter assento numa academia estadual de letras. Antes, Dom Silvério Gomes Pimenta e Dom Francisco de Aquino Correia – respectivamente metropolitas de Mariana e Cuiabá – haviam sido escolhidos para a Academia Brasileira de Letras – ABL. Dom Antônio de Almeida Lustosa foi eleito membro efetivo da Academia Paraense, quando arcebispo de Belém. No entanto, tomou posse anos depois, quando titular da arquidiocese de Fortaleza. A essa altura, Dom Nivaldo já era membro da ANRL. Dom José Adelino Dantas, nosso confrade, era acadêmico, antes da sua indicação para o episcopado. Cabe esclarecer que o terceiro prelado do Rio Grande do Norte, Dom José Pereira Alves, pertencia à Academia Pernambucana de Letras, sendo ungido antístite, posteriormente. Até o momento, são vinte e oito prelados brasileiros (cardeais, arcebispos e bispos) eleitos para academias de letras (nacional, estaduais, regionais e municipais).

Além de seu talento e carisma, Dom Nivaldo teve influência de Dom José Pereira, grande amigo de seu irmão Cônego Monte, que foi ordenado por ele em 1927. Sua intenção era levá-lo para Niterói. Porém, desistiu: “Não pretendo deixar o Rio Grande do Norte sem o seu gênio, de incomensurável erudição e cultura”. Vislumbrava também no pequeno Nivaldo uma inteligência ímpar, e assim se expressou: “Este menino promete muito à Igreja”. É inegável a impressão causada pelo renomado orador sacro sobre os irmãos Monte.

Muito poderia ser dito sobre Dom Nivaldo, polivalente e uno. Múltiplo pela diversidade de sua sabedoria, cultura e erudição, nos campos em que atuou, como eclesiástico, escritor, poeta, professor, diretor espiritual e botânico. Uno, porque reunia tudo num mesmo ideal: Jesus Cristo. “Mihi vivere Christus”. “Para mim o viver é Cristo” (Fil 1, 21). Eis seu lema episcopal, esculpido em sua lápide. Toda a sua vida foi dedicada à Igreja de Cristo e ao Reino de Deus. Cada vez mais se aproximava da certeza de que o mais importante não é a quantidade dos anos de vida e sim a intensidade do amor. E isso ele fazia com maestria, contido em seu livro “O coração é para amar”.

Dom Nivaldo merece todas as homenagens que lhe são prestadas, como dar o seu nome a logradouros, escolas, monumentos etc. Biografias, dissertações e estudos mostrando suas inúmeras virtudes humanas e cristãs devem ser elaborados para registro de seu grande valor. Era um apaixonado pela terra e pelas plantas, “nossas irmãs”, como dizia São Francisco de Assis. Por essa razão, é merecedor de um jardim botânico com seu nome. A arquidiocese de Natal e os órgãos governamentais poderiam transformar num lindo jardim botânico a gleba (resquício de mata atlântica) situada no bairro de Emaús, adquirida por ele e hoje patrimônio do arcebispado natalense. Esse jardim seria envolvido pela quietude e unção dos claustros próximos ali existentes (Carmelo e Mosteiro de Sant´Ana). Lá, os estudiosos cuidariam cientificamente da flora regional, como era seu sonho. Assim, o povo poderá usufruir das maravilhas da natureza e sentir mais a presença de Deus.

Nosso arcebispo gostava de citar em suas conferências o Pequeno Príncipe. Ele era também um príncipe do altar, da cátedra, do coração e do bem querer de muitos. A sua existência foi um sacramento da ternura divina, revelando o que de mais humano existe em Cristo e o que de mais divino há no homem. Ele vivenciava o que afirmara Dostoievski: “A ternura salvará o mundo”. Ela é a força mais humilde e, no entanto, a mais poderosa para nos libertar. Muitos chamavam nosso homenageado de “Dom Ternura”. Aliás, ele empenhou-se em cultivar no clero potiguar a arte de ser terno. E com sua comovente lição de humildade e doçura, Dom Nivaldo continua presente entre nós. Como um profeta do afeto e da alegria, foi um semeador incansável da paz e da mansidão, uma estrela que cintila em nossas almas. “Seu nome viverá através das gerações” (Eclo 44, 14). Seus gestos simples, cheios de amor, lembrar-nos-ão o profeta Isaías: “Deus nos embala em seu colo, como uma mãe carinhosa e meiga” (Is 66, 13).


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