Quadrantes
Dos dias que avançam dentro
Publicado: 00:00:00 - 28/11/2021 Atualizado: 14:36:53 - 27/11/2021
A ARTE DE RESPIRAR é rara. Pouca gente no mundo faz isso bem. Às vezes, por falta de treino, por falta de paciência, deixo de respirar por uns dias, vou encolhendo como um pacote amassado, vazio, murcho. De repente, percebo que chega alguém respirando e ensinando a respirar. Normalmente, uma moça festiva, dançante, aliciante. Traz consigo uns balões multicoloridos, que são para treinar a hora de puxar o ar levemente, até preencher os pulmões. Depois, é preciso soltar levemente, aliviar a musculatura do peito e manter a fé, cuidando de colocar sorriso verdadeiro no rosto. Vale caminhar até a janela para ouvir os primeiros pássaros do final da madrugada, enquanto a deusa que ensinava a respirar se despede do sonho ao qual nunca se deu continuidade. É hora, então, de treinar um novo movimento de vida, encontrar o espaço verde na alma, refazer o sentido dos pés e andar mais um passo.

ATRAVÉS DA JANELA percebo que o meu olhar se reflete em algum prédio espelhado. Não reconheço bem aquela figura disforme. Parece que há sempre a busca por um desenho exato, mas há somente um perfil obscuro, uma silhueta sombria. Ainda são as dores nunca curadas, ainda uma ponta de solidão, que dá agulhadas na fronte e provoca a contenção de mares e luas surreais, algum arrependimento por ter alcançado tão pouco das loucuras originais.

Esse lamento é quase sempre por ter ousado menos do que o personagem que criei para meu alimento narcísico. E não há mais nada a fazer quanto aos dias já engolidos pela coragem apequenada.

O BARRO VERMELHO é um principado da nostalgia. Tenho voltado os meus olhos para aquela geografia da saudade. Reencontro, em meio a devaneios, os amigos que corriam sem limites e conquistavam territórios e sonhos. Às vezes sinto o cheiro das castanhas assadas em lata e também sinto a pele ardendo nas guerras municiadas por carrapateiras. Nada dói mais do que ter esquecido a maneira engenhosa de subir em árvores e muros de toda aquela vizinhança perplexa, diante de um infante que não temia as quedas. Se aprendi a me reerguer, acredito ter guardado a receita em algum daqueles galhos secos dos quais desabei.

NUM LIVRO, dentre os que preenchiam a estante da casa, vi umas fotos coloridas de Brigitte Bardot e Marilyn Monroe. Disso não esqueço, nem é possível esquecer daquelas loiras cheias de feitiço – uma, americana (M.M.); outra, francesa (B.B.) – e o meu coração de menino ficava encharcado de sonhos.

Aquelas imagens alimentaram as primeiras paixões infantis, meninas que eu seguia somente com o olhar e com a vontade do beijo e do toque nos cabelos macios. Ficava distante e quieto, observando os movimentos delicados e os sorrisos e gritinhos em alto volume, sem saber o que dizer ou fazer. Em algum lugar das primeiras escolas, encontrei uma jovenzinha muito mais ousada do que eu. Ali, ainda no Barro Vermelho, aconteceu o toque mais puro e sereno, doce, entre os lábios de quem nada mais queria falar.

NADA A OPOR à redução de barulhos e de algaravia. O que me acalma? O silêncio! O certo é quando a gente cala por querer próprio, não por mando de alguém e nem da melancolia ou da angústia. Alimenta-me a esperança do grito explosivo, catarse da alegria reconquistada, de quem está inteiro, com todos inteiros ao redor, para continuar ouvindo a música entre os silêncios, sem a dor de calar por vontade alheia.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte