Dos perigos

Publicação: 2019-11-21 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

coluna

Não ponho dúvidas, nem as mais leves, na advertência de Guimarães Rosa quando avisa que viver é muito perigoso. Mas, convenhamos, não é o único perigo dessa vida. Talvez maior, se os leitores aceitam a ousadia, é querer bem. A diferença pode residir na extensão. Se viver é um território existencial que só acaba na morte, desejar pode durar apenas um segundo. Mas, como diria um bom parnasiano, tudo na vida pode ser arriscado, principalmente, amar e odiar.

Vem de antiga tradição esse mistério do encantamento que é querer bem. Dizia-se lá no mais distante da memória afetiva, que querer bem não é pecado, e que simpatia é quase amor. Aceito a tradição sem discutir. Leigo em tudo e sem diploma em nada, gosto muito dos velhos saberes. Esses que passam de boca-em-boca e muitas vezes estiolam-se sob o sol inclemente das modernidades, principalmente as súbitas. Sou de doze, como se diz. Sendo assim, resisto.

Dirá um sábio, desses que perambulam nos salões lítero-recreativos, que não passa de pura obviedade acreditar nesses maneirismos do espírito. Pode ser. Se o coração tem catedrais imensas, na visão agônica do poeta Augusto dos Anjos, há sempre, na noite de cada um de nós, sob a luz parda do camarim, um pobre palhaço a esconder a tristeza. Carlinhos Oliveira, aliás, dizia imaginar o grande espetáculo da noite na qual o palhaço e a platéia chorassem juntos.

O bem humorado Sr. Beyle, aquele que encobria sua verdadeira identidade sob o belo e requintado pseudônimo de Stendhal, no seu tão velhíssimo tratado ‘Do Amor’ que chegou aos olhos do mundo exatamente um século antes do modernismo brasileiro, em 1822, acreditava em quatro amores distintos: o amor-paixão, o amor-gosto, o amor-físico e o amor de vaidade. Toda visão excessivamente esquemática é perigosa, mas esta é a sua classificação do amor.

De nenhum amor o Sr. Beyle afasta o que chama de caráter de beleza.  Mas, a todos eles desenha com traços próprios. O seu exemplo de amor-paixão, por exemplo, é aquele de Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa. O amor-gosto, como nos franceses, e cita Duclos, Crébillon e Chámfort. O amor-físico é o do caçador que procura ‘uma bela e viçosa camponesa que foge para o bosque’. E o amor-vaidade, o que ama ostentar no seu braço uma mulher da moda.

No fim, reconhece o próprio Stendhal, não se pode levar a sério a mania boba de dividir o amor em tipos. E escreve, em 1822: “De resto, em vez de distinguir quatro amores diferentes, podemos muito bem admitir oito ou dez matizes”. E completa: “Talvez haja entre os homens tantas maneiras de sentir quantas maneiras de ver”. No fim, afastados os perigos naturais da paixão, todos os amores são iguais. E nascem, às vezes, de uma simples e súbita admiração.

IPTU - Há quem aposte na Prefeitura que vai ter surpresa para pior no cálculo do IPTU com ‘as atualizações’ inventadas por seus tributaristas. O crivo de corrigir a inflação e uma balela. 

PERIGO - Vaticinava, ontem, uma fonte política mossoroense que o grupo Rosado vai acabar dividido outra vez. Por sobrevivência. O eleitor parece disposto a punir arrumados familiares.

ALIÁS - Na previsão da mesma fonte, no racha, o lado Sandra-Larissa Rosado teria um novo comandante nas lutas municiais e estaduais: o deputado Ezequiel Ferreira. É o que se especula.

BRILHO - De vez em quando esta TN surpreende. Se há os que a sufocam de mesmice, outros a salvam. Como o artigo ‘Olhos Cegos’, de George Wilde. De quem sabe contar uma história.

ABRAÇOS - Dia 3 próximo, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o lançamento do livro ‘Abraços’, reunindo as cartas, cartões e bilhetes de Oswaldo Lamartine a Hélio Galvão.

BRILHANTE - Honório Medeiros, o nosso maior pesquisador da história do cangaço, deu o ponto final no livro sobre Jesuíno Brilhante. Medeiros desfaz o mito de cangaceiro romântico.

VIOLENTO - A pesquisa revela que Jesuíno teve sua imagem amenizada por influência de Câmara Cascudo. Na verdade, nos assaltos, foi tão cruel quanto os outros, inclusive Lampião.

VAZIO - De Nino, nos goles da cerveja que ameniza a canícula: “O mundo se divide entre dois vazios que entristecem o homem moderno”. Afagou a barba e ajuntou: “Do bolso e da alma”. 

HISTÓRIA - Acaba de chegar às livrarias ‘Repressão e Resistência – censura a livros na Ditadora Militar’, de Sandra Reimão, edição da Universidade de São Paulo. Reproduz capas e documentos censurando livros de Ignácio Loyola, Caio Prado, Zuenir Ventura e outros mais. 

TOUCHÉ - Cassiano Arruda Câmara, com seu velho olhar de bruxo a perceber o que sempre é invisível para os olhos comuns, foi perfeito no diagnóstico da doença que hoje paralisa o Estado: “RN vive drama de fazer política sem ter lideranças nem partidos”. Acertou na mosca.

DIGITAL - O rombo de R$ 50 bilhões da previdência estadual é fruto do não recolhimento da parcela do governo de cerca de 40 mil aposentados. Além do fundo da previdência - R$ 1bi - que o governo devorou. Portanto, o governo reforma o que o próprio governo negligenciou.





continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários