Doze Estados ampliam as restrições devido ao aumento de casos da covid-19

Publicação: 2021-02-27 00:00:00
O crescimento da pandemia no Brasil mobilizou Estados para tentar frear o avanço acelerado da covid-19. Vários governos decretaram nos últimos dias restrições de circulação de pessoas, principalmente no horário noturno, fechamento de estabelecimentos comerciais e até lockdown. Entre os mais restritivos, estão Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Distrito Federal e Bahia, que vão fechar serviços essenciais por um período. 

Créditos: DivulgaçãoCom super lotação nos hospitais e crescente falta de leitos, os pacientes precisam ser transferidos em FlorianópolisCom super lotação nos hospitais e crescente falta de leitos, os pacientes precisam ser transferidos em Florianópolis

Com UTIs lotadas, o foco é evitar a aglomeração de pessoas e com isso tentar diminuir a transmissão do vírus no País. Boletim do Observatório Covid-19, da Fiocruz, aponta 17 capitais brasileiras com ocupação de leitos de UTI de pelo menos 80%. Na quinta-feira, 26, o Brasil teve o maior número de mortes registradas em 24 horas, em um cenário de vacinação lenta. Especialistas temem piora do quadro nas próximas semanas e defendem ações mais rígidas para conter o coronavírus. 

Veja a situação das novas restrições nos Estados:
Bahia 
Com taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 em 83%, o Estado terá atividades não essenciais suspensas por dois dias, a partir da noite de ontem. Começará de forma gradativa, sendo o comércio de rua suspenso às 17h, os bares e restaurantes às 18h e, por último, os shoppings, às 20h. Segundo o governador Rui Costa (PT), "não haverá transporte público durante o toque de recolher e também está proibida a venda de bebida alcoólica até mesmo nos supermercados".

Ceará 
O governo estadual divulgou novas medidas ontem, com toque de recolher entre 20h e 5h, horário que fica mais restrito nos fins de semana (entre 19h e 5h), "com saídas permitidas somente em situação de comprovada necessidade". 


Distrito Federal 
O governo planeja um lockdown total a partir de sábado, 27. A medida é mais rigorosa do que a anunciada na quinta, de lockdown apenas entre 20h e 5h a partir da próxima segunda. Na tarde dessa quinta, o número de leitos de UTI covid adulta disponíveis eram de apenas dois, com ocupação de 98%. 
Goiás 
Com a ocupação de UTI em 93,1%, várias cidades vem endurecendo as restrições, como Goiânia, que limitou o horário de funcionamento de bares e restaurantes até 22h. O governo do Estado já vinha pedindo para os municípios adotarem uma "Lei Seca", restringindo a venda de bebida alcoólica, para diminuir a contaminação do coronavírus.

Paraíba 
A ocupação de leitos de UTI (adulto, pediátrico e obstétrico) é de 67% e nesta semana o governo decretou toque de recolher entre 22h e 5h, até 10 de março. Além disso, houve a suspensão das aulas presenciais nas escolas públicas e bares, restaurantes e lanchonetes só poderão funcionar com mesas entre 6h e 16h. Depois desse horário, não poderá haver o consumo no local, só para retirada ou entrega.

Paraná 
Governo anunciou a ampliação das restrições que incluem a suspensão do funcionamento dos serviços e atividades não essenciais e toque de recolher entre 20h e 5h, para evitar aglomerações e festas. O decreto entra em vigor neste sábado, 27, e vale até o dia 8 de março, "podendo ser prorrogado ou não, a depender do comportamento da pandemia no território paranaense durante o período", disse o governo. Procedimentos eletivos  hospitalares  com demanda de UTI no pós-operatório foram suspensos. No Estado, a taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 está em 94%.

Pernambuco 
Com taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 acima de 90%, o governo estadual anunciou novas medidas restritivas que vão valer deste sábado, 27, até 10 de março. O decreto proíbe qualquer atividade não essencial entre 22h e 5h.

Piauí 
Está com 76% de ocupação nos leitos de UTI, mas com o aumento de casos o governo decretou que o comércio só pode funcionar até as 17h e os shopping centers das 12h às 21h. Entre 23h e 5h, a circulação de pessoas nas vias públicas está proibida. Aos finais de semana, só atividades essenciais poderão funcionar. As medidas valem até 4 de março.

Rio Grande do Norte 
A governadora Fátima Bezerra decretou medidas de restrição, como toque de recolher. A taxa de ocupação de UTI no Estado está em 86,5% (veja as medidas detalhadas na página 9).

Rio Grande do Sul 
Com o sistema de saúde no limite, o governo estadual decidiu colocar todos os municípios do Estado na bandeira preta, fase mais restritiva do plano local contra a covid-19, e cancelar cirurgias eletivas nos hospitais. A ocupação de leitos de UTI atingiu 91,4%.

Santa Catarina 
O governo publicou um decreto colocando todo o Estado em lockdown nos próximos dois finais de semana. Com isso, somente serviços essenciais poderão funcionar entre 23h de ontem até 6h de segunda. No momento, a taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 está em 90,4%.

São Paulo 
O governo paulista insituiu o "toque de restrição", que prevê a limitação da circulação de pessoas entre 23h e 5h em todos os municípios do Estado 26, até o dia 14 de março. O número recorde de pessoas internadas e a taxa de 70,4% de ocupação em UTI para covid-19 motivaram a decisão.

Bolsonaro critica fechamentos nos Estados
No pior momento da pandemia de covid-19 no País, o presidente Jair Bolsonaro disse ontem que o governador que adotar medidas de restrições para evitar a propagação da doença, como recomendam autoridades sanitárias, deverá bancar novas rodadas do auxílio emergencial. A fala ocorre no momento em que governantes locais estudam e adotam medidas de fechamento para combater a disseminação do vírus, que matou quase 253 mil brasileiros desde o início da pandemia.

"O auxílio emergencial vem por mais alguns meses e daqui para frente o governador que fechar seu Estado, o governador que destrói emprego, ele é que deve bancar o auxílio emergencial. Não pode continuar fazendo política e jogar para o colo do presidente da República essa responsabilidade", declarou Bolsonaro durante visita às obras de duplicação da BR-222, em Caucaia (CE).

Na quinta-feira, 25, durante live semanal, Bolsonaro disse que a proposta estudada pelo governo é pagar o auxílio a partir de março, por quatro meses e no valor de R$ 250. O pagamento da nova rodada do benefício, segundo o chefe do Executivo, é "para ver se a economia pega de vez, pega para valer". Contrário a medidas de restrição e incomodado com a pressão em cima do governo, Bolsonaro tem sugerido que a população cobre de prefeitos e governadores o pagamento do auxílio.

"A pandemia nos atrapalhou bastante, mas nós venceremos este mal, pode ter certeza", disse no evento. "O que o povo mais pede e eu tenho visto, em especial no Ceará, é (para) trabalhar. Essa politicalha do ‘fica em casa a economia a gente vê depois’ não deu certo e não vai dar certo."  

Ele visitou obras da duplicação de trecho da BR-222 e o anel viário de Fortaleza. O trecho em duplicação liga o município de Caucaia ao Porto de Pecém. De acordo com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, até março o governo deve entregar seis quilômetros da duplicação. Outros seis quilômetros devem ser entregues até junho. 

No evento, Bolsonaro agradeceu o apoio da população para sua eleição em 2018 e enalteceu as entregas do governo. “Nós sabíamos que não seria fácil, mas os inimigos podem ter certeza de uma coisa: nós não nos entregaremos. Estamos aqui hoje apresentando uma parte do serviço feito pelo nosso ministro Tarcísio, da Infraestrutura. Como vocês podem notar, é um serviço de qualidade, coisa que nunca teve aqui no Ceará”, disse.

Com o presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães, Bolsonaro também fez a entrega simbólica de três unidades habitacionais, de um total de 240 apartamentos que serão entregues. Mais cedo, o chefe do Executivo, acompanhado de ministros, esteve no município de Tianguá (CE), onde assinou ordem de serviço para a retomada de três obras rodoviárias. O presidente deve retornar a Brasília nesta noite com previsão de chegada às 20h30.

Pazuello afirma que foi alertado às vésperas
Em depoimento à Polícia Federal obtido pelo Estadão, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, mudou a versão do governo e disse que não soube do colapso no fornecimento de oxigênio a Manaus (AM) no dia 8 de janeiro, diferentemente do que a Advocacia-Geral da União (AGU) havia informado ao Supremo Tribunal Federal (STF). De acordo com o general, essa data foi inserida por engano em uma manifestação oficial do governo em outro processo do STF, em que partidos buscam garantir a vacinação da população brasileira contra a covid-19. A fala também contradiz o que o próprio Pazuello havia declarado à imprensa no mês passado.

Pazuello prestou depoimento no dia 4 de fevereiro no Hotel de Trânsito de Oficiais do Exército, em Brasília, no âmbito do inquérito sigiloso do Supremo que apura se o ministro foi omisso no enfrentamento da pandemia em Manaus. O teor do depoimento, assim como o inquérito, está sob sigilo. Após a conclusão das investigações, caberá ao procurador-geral da República, Augusto Aras, decidir se denuncia ou não o titular da Saúde.

O depoimento de Pazuello contrasta com uma manifestação assinada pelo ministro-chefe da AGU, José Levi, que afirmou que o Ministério da Saúde  ficou sabendo da “crítica situação do esvaziamento de estoque de oxigênio em Manaus” no dia 8 de janeiro, a partir de um e-mail enviado pela White Martins, fabricante do insumo.

No depoimento à PF, Pazuello afirma que “o documento mencionado nunca foi entregue oficialmente ao Ministério da Saúde, bem como a empresa nunca realizou contatos informais com representantes do Ministério”. O general ainda afirma que um aviso da White Martins do dia 8 é citado em manifestação do governo ao Supremo por “equívoco” de um funcionário do Ministério da Saúde.

Depoimento 
“E o equívoco se deu em virtude do prazo exíguo de 48 horas para apresentação da resposta junto ao STF”, informou Pazuello no depoimento. “O documento chegou ao conhecimento do Ministério da Saúde via Secretário da Saúde do Estado do Amazonas quando da busca de elementos para apresentação de resposta ao Supremo Tribunal Federal por intermédio da AGU na ADPF 756 (uma ação movida por cinco partidos da oposição para que Bolsonaro fosse obrigado a adquirir imunização contra covid-19)”, completa o ministro.

A fala de Pazuello à PF, no entanto, contradiz o discurso do próprio ministro, feito em entrevista à imprensa no dia 18 de janeiro. Naquela ocasião, ele afirmou que soube por meio da própria White Martins, no dia 8, sobre a falta do insumo. “Nós tomamos conhecimento de que a White Martins chegou no seu próprio limite quando ela nos informou. Ou seja, se nós tivéssemos tido essa informação, por menor que seja, ou se nós fizemos imediatamente quando nós soubemos. Nós só soubemos no dia 8 de janeiro. Quando nós chegamos lá, no dia 4, o problema não era oxigênio”, disse o ministro à época.
No depoimento sigiloso, Pazuello reconhece que recebeu pedido do governo Amazonas de envio de 150 cilindros no dia 8 e que o Centro de Operações de Emergência (COE, do Ministério Saúde) avisou, em 9 de janeiro, sobre “colapso dos Hospitais e falta da rede de oxigênio”. 

O general afirma, porém, que “não houve qualquer tipo de menção ao iminente colapso de fornecimento de oxigênio na cidade de Manaus-AM” até aquele momento, segundo registra o depoimento. O ministro disse à PF que apenas na noite do dia 10 o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), relatou “um problema de abastecimento de oxigênio”.