Doze PMs são presos por extorsão

Publicação: 2015-09-30 00:00:00
Ricardo Araújo
Repórter

Até mesmo por um quilo de queijo ou um frasco de perfume, 12 policiais lotados no 9º Batalhão da Polícia Militar, localizado na Zona Oeste de Natal,  extorquiam traficantes na Favela do Mosquito, nessa mesma região da cidade.  Eles foram presos ontem acusados da prática de crimes como furto, roubo, receptação, prevaricação, tortura, corrupção passiva e associação criminosa. Após dez meses de investigação, o Ministério Público Estadual deflagrou a Operação Novos Rumos, que contou com apoio do Comando Geral da PM, para descortinar o esquema criminoso que envolvia a cobrança de vantagens indevidas pelos policiais militares aos criminosos capturados com drogas e/ou armas. A omissão dos soldados e cabos presos não tinha valor específico. Dependia do porte da boca de fumo e do traficante extorquido.
Na ação de ontem, os policiais militares suspeitos de extorsão saíram do Itep, encapuzados, após realizar exame de corpo delito
Dos 12 mandados de prisão expedidos pela Justiça Estadual, onze foram cumpridos ao longo da manhã de ontem. O soldado André Luiz da Silva Pereira, tido como foragido, se entregou no fim da tarde de ontem. Todos os policiais presos fizeram exame de corpo de delito no Instituto Técnico e Científico de Polícia (Itep/RN), foram ouvidos pelos promotores e conduzidos ao Presídio Militar, instalado no prédio do Bope, na zona Norte de Natal.

De acordo com o promotor de Auditoria Militar, Jorge Augusto de Macêdo Tonel, as investigações que culminaram com a Operação Novos Rumos começou em outubro de 2014 e se relacionam, em parte, com a Operação Citronela, realizada semana passada na Favela do Mosquito e que culminou com a prisão do traficante Joel Rodrigues da Silva.

“Há claríssimos indícios de uma relação simbiótica dos policiais com membros criminosos da Favela do Mosquito”, disse o promotor Jorge Augusto Macêdo Tonel. Apesar de destacar que a prática de ilícitos era “contumaz pelos militares”, o promotor disse que, como “essa investigação terá desdobramentos” não poderia dar  detalhes. Além disso, alegou que o processo estava sob sigilo, mas foi corrigido pela promotora Patrícia Antunes, do Gaeco, quando indagado sobre o vazamento de informações para a Rede Globo. “Soube que o processo está aberto”, refez o argumento. A Secretaria da 11ª Vara Criminal, onde corre o referido processo, negou que o sigilo tivesse sido quebrado pois o próprio MPRN não havia encaminhado o relatório da operação informando ao juiz o cumprimento dos mandados.

Com base nas informações repassadas pelos promotores que conduziram as investigações, os policiais militares presos colaboravam com traficantes cobrando-lhes o pagamento de propina para que o tráfico de drogas e até mesmo homicídios cometidos nas cercanias da Favela do Mosquito não se tornassem casos de Polícia.

“Os policiais praticavam crimes de forma reiterada. Eles entravam em serviço planejando crimes”, destacou o promotor Sílvio Brito. Nas interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, os promotores identificaram que os acusados cobravam o pagamento de “resgates” de traficantes e usuários de drogas presos com o ilícito. Quem não pagasse, era conduzido à Delegacia.

Na Favela do Mosquito, o principal beneficiado com a livre comercialização de drogas era o traficante Joel Rodrigues da Silva, o “Joel do Mosquito”. Ele, porém, tinha que manter o pagamento das extorsões em dia junto aos policiais militares. Em maio deste ano, os acusados expandiram a prática dos crimes e instalaram-na na Comunidade Beira-Rio, na zona Norte da capital. Além da extorsão, os policiais militares presos também são acusados de terem agido de forma omissa num roubo a uma loja de roupas na Cidade da Esperança. Além de terem demorado a chegar ao local do arrombamento, os soldados também roubaram peças de roupas.

Para o Ministério Público, as provas dos crimes são suficientes para a condenação dos suspeitos, mas as investigações vão prosseguir. Não há ainda a definição sobre quantos crimes cada um dos envolvidos cometeu.

Para o comandante-geral da PM, coronel Ângelo Dantas, os fatos citados entristecem a corporação, mas não serão suficientes para desmoralizar ou diminuir a instituição. “Apesar da gravidade desses crimes, a maioria dos policiais militares é de homens comprometidos. Estaremos sempre de cabeça erguida apurando a conduta dos nossos integrantes”, disse coronel Ângelo Dantas. A punição máxima que os presos podem receber no âmbito da PM é a expulsão da Corporação.

Quem é Quem?
Com base em informações nos Boletins Gerais publicados pela Polícia Militar e em consultas ao Portal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, a TRIBUNA DO NORTE montou o perfil de cada um dos acusados com base nos fatos vinculados a cada um deles

- Ivan Ferreira da Silva Tavares
Patente: Cabo
Ingresso na PM: 1997
Histórico: É testemunha no processo Nº 0131388-06.2014.8.20.0001  que tramita no TJRN no qual o Soldado José Cherls Firmiano da Silva responde por lesão corporal.  Responde, em conjunto com o Soldado José Cherls Firmiano da Silva, ao Processo Nº 0101061-82.2013.8.20.0011 por violação de domicílio.  Teve o comportamento avaliado em 2013 e, no ano passado, foi convocado para se inscrever no estágio para Sargento.

- André Luiz da Silva Pereira
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2004
Histórico: É testemunha no Processo Nº 0131388-06.2014.8.20.0001. Teve o comportamento avaliado pela PM no ano passado.

- José Cherls Firmiano da Silva
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2001
Histórico: Responde como réu ao processo Nº 0131388-06.2014.8.20.0001 acusado de lesão corporal. O próprio coronel Ângelo Dantas louvou os policiais Ivan Ferreira da Silva Tavares, José Cherls Firmiano da Silva e Damião Alves da Cunha, no BG Nº 121/2015, por haverem prestado relevantes serviços à comunidade potiguar com a recuperação de um carro, pertencente a outro PM, tomado de assalto em maio deste ano na Cidade da Esperança.

- Isaac Raphael da Cruz Dumaresq
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2006
Histórico: Em processo de promoção para cabo.  

- Thiago Vale Rabelo Teixeira
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2000
Histórico: Respondia a Processo Administrativo Disciplinar instaurado pela Portaria Nº 109/2005 sob a acusação de ter abordado, junto com os policiais militares Sgt RR Francisco Augusto Pereira; Sd PM José Teixeira Neto; Sd PM Roberto Moura do Nascimento; Sd Isaac Vale Rabelo Teixeira; e Carlos Costa Elias Isphair, “no dia 17 de janeiro de 2004, um homem identificado como Pedro Paulo, mediante grave ameaça, tendo seu corpo sido encontrado horas depois com disparos de armas de fogo e sinais de espancamento”. O referido processo foi arquivado por prescrição junto ao Comando da Polícia Militar. Roberto Moura do Nascimento, o Bebeto; e Carlos Costa Elias Isphair, inclusive, foram assassinados anos atrás. Thiago Vale Rabelo teixeira, responde, entretanto, na seara criminal sobre a mesma acusação (Processo Nº 0003707-68.2005.8.20.0001) que tramita no TJRN.

- Damião Alves da Cunha
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2000
Histórico: Integrante da Companhia Independente de Prevenção ao Uso de Drogas – Cipred. Reprovado no Curso de Tiro Policial ano passado. Em processo à graduação de Cabo este ano.

- Marcos Garcia Marinho
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2000
Histórico: Faltou a um processo seletivo para o BPCHoque em 2014. Tirou licença de 61 dias no mesmo ano alegando problemas de saúde.

- Márcio José da Silva Martins
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2001

- Werson Magno de Carvalho
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2009
Histórico: Ingressou na Corporação por força de decisão judicial expedida pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte.

- Antônio Marcos Oliveira da Silva
Patente: Cabo
Ingresso na PM: 1997

- Wilton Franco da Silva
Patente: Soldado
Ingresso na PM: 2000
Histórico: É testemunha em 16 processos que tramitam no Tribunal de Justiça nos quais estão em julgamento as supostas práticas de crimes que vão desde o furto simples ao homicídio.

- Prisões de Policiais Militares
De acordo com o comandante geral da PM, coronel Ângelo Dantas, existem 36 policiais militares presos atualmente no Presídio Militar, em Natal, e nos Batalhões pelo interior do Estado. Os presos de ontem elevarão o número para 48 militares detidos. Destes, 28 são da ativa e 19 são reformados ou da reserva. Ao longo deste ano, nenhuma expulsão foi sacramentada. Dois processos tramitam, por enquanto. Em 2014, quatros PMs foram expulsos da Corporação.