Duas décadas alimentadas pela música

Publicação: 2018-10-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O Festival MADA está completando 20 anos em 2018. Nesse período aconteceram 18 edições (em 1999 e 2010 o evento passou em branco). Tempo suficiente para o público potiguar não apenas assistir a ascensão da cena local, como ver shows históricos de importantes nomes  nacionais e internacionais. Teve Jorge Ben Jor, Rappa e Sepultura juntos, Mallu Magalhães, The Walkmen, Planet Hemp. A medida que crescia e se firmava como um dos principais eventos do cenário alternativo do Nordeste, o MADA também precisou se adaptar à novos espaços. Começou na rua Chile, foi para a Via Costeira, depois para o Estádio João Câmara (Ribeira) e, pelo quarto ano consecutivo, acontece no Arena das Dunas – nos dias 12 e 13 de outubro.

Jomardo Jomas: “Já tivemos momentos bons e difíceis. Agora o momento é de novas apostas”
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Para lembrar um pouco da história do festival, conversamos com o idealizador do evento, o produtor Jomardo Azevedo. Na entrevista ele cita os shows marcantes, lembra de causos de bastidores, do começo na Ribeira, das mudanças de local, das dificuldades, das edições especiais e de muitas outros fatos. Confira a lista com 18 histórias em 20 anos do MADA.

Criar o festival
Dois meses antes do Mada a gente trouxe um programa da MTV, o Palco MTV, e percebemos que muitas bandas queriam ter participado do programa. Mas não tinha espaço. Então veio o estalo de fazer um festival. Porque dava para colocar muito mais bandas no palco e dava pra trazer a galera da MTV, Multishow, jornalistas. Botar a primeira edição do MADA na rua foi uma loucura danada. Eu tinha ido a alguns festivais, mas ainda não tinha experiência de montar eventos do tipo. O primeiro ano foi aberto. Não sei como conseguimos viabilizar, porque não tinha patrocínio na época.

Perrengues
Na segunda edição do MADA faltou energia no primeiro dia. A gente não tinha gerador. Precisamos distribuir as bandas nos outros dois dias. Isso deu uma confusão grande. Mas faz parte do início de qualquer aventura. Você apanha um pouco.

Rua Chile
Foram cinco anos na Rua Chile. Ficamos lá até 2003. Em apenas um ano não realizamos o festival. Tocaram lá Planet Hemp em 2002 foi um show sensacional. Jorge Ben Jor, Totonho e Os Cabra, Ira também foi muito marcante, Nação Zumbi, Agregados Família do Rap, em 2003, também fizeram shows sensacionais, como Frejat e Fernanda Abreu, com todo o público cantando as músicas.  E além do Largo da Rua Chile a gente usava os bares. Em alguns lugares fazíamos a área eletrônica. Bar das Bandeiras, Blackout, do querido Paulo Ubarana. A gente sente muita saudade dessa época, mas o festival foi crescendo e não deu pra continuar naquele espaço.

Ribeira agitada: Ira na edição 2002 do Mada
Ribeira agitada: Ira na edição 2002 do Mada

Histórias engraçadas
No show do Planet Hemp, com aquela história de legalização da maconha, tinha gente que subia no palco pra entregar seda para o D2. No show do Ben Jor, ele chamou quase todas as mulheres da beira do palco pra subir no palco com ele. A gente preocupado que desabasse porque não tínhamos montado para receber tanta gente. Ele tinha tocado uma hora e meia e tocou no bis mais uma hora e meia. Três horas de show.

Chuva
A chuva sempre foi um sócio oculto do MADA. Até 2010 a gente sempre trabalhou com a possibilidade dela cair. Até mesmo o público já ia preparado. Tinha uns amigos que plantavam e que faziam piada comigo. Perguntavam quando ia ser o MADA para eles já programarem a plantação. Mas tiveram momentos bonitos com a chuva. Em 2008, no show do Cordel do Fogo Encantado, quando o Lirinha cantou “Chover”, a chuva caiu de verdade. Até brinquei que era para termos tirado essa música do repertório. Caiu um temporal.

De frente para o mar
A ida da Ribeira para a Via Costeira exigiu uma grande mudança de estrutura. A logística ficou toda maior. Ao mesmo tempo demos uma guinada importante na programação. Em 2004 trouxemos The Walkmen, nossa primeira atração internacional. Vieram também o Rappa com Sepultura, Marcelo D2, Lulu Santos. Foi uma edição incrível e um dos nossos maiores públicos, algo em torno de 14 mil pessoas.  Demos uma subida de patamar.

Salto para o mar: MADA cresce na Via Costeira
Salto para o mar: MADA cresce na Via Costeira

De volta a Ribeira
Ficamos na Via Costeira até 2011, no ano seguinte voltamos para a Ribeira, num campo de futebol [Estádio João Câmara, na rua Esplanada Jardim, fronteira com as Rocas]. Ficamos três edições nesse lugar. Foi lá que trouxemos Criolo duas vezes, fizemos o show de Karol Conka pela primeira vez. Tivemos Tibério Azul, a portuguesa The Gift. Muitas apresentações importantes. Depois, quando a construção do Arena das Dunas foi concluída, fomos para o Arena das Dunas, o que nos exigiu outro salto de estrutura e logística.

Bandas gringas
A primeira que trouxemos foi The Walkmen. Veio antes de ficar mais conhecida do público. Foi um dos melhores shows em 20 anos do MADA. Mas nem sempre banda gringa dá certo. Chegamos a conclusão que trazer banda pequena é uma aposta que nem sempre dá um bom resultado. E é caro por causa da moeda, é mais burocracia também.

Shows internacionais
Em 2018 resolvemos ir de banda grande para ver como vai ser a resposta do público. Vamos de Franz Ferdinand, uma banda de reconhecimento mundial. É uma experiência, primeiro para entrarmos no circuito de shows internacionais, segundo, para que o público vá se familiarizando com essa ideia. Não é comum em Natal. Normalmente quem quer ver um show diferente tem que viajar.  Mas se você não arriscar acaba não fazendo nunca. Espero que o público compre a ideia, participe.

Shows históricos
The Walkmen, que eu já citei, foi histórico. Jorge Ben Jor, em 2002, nossa primeira grande atração, foi muito marcante também. O encontro de Rappa e Sepultura foi outro. Até hoje o pessoal comenta. Também teve Plebe Rude. O Cordel em 2008 marcou demais. Ano passado teve o Baiana System bastante elogiado.

A turma reunida nos bastidores
Uma coisa legal na época da Via Costeira era os encontros de artistas que rolavam no hotel. Em 2008, Josh House (EUA), Seu Jorge, Lirinha, Mallu Magalhães quando veio a primeira vez, com 15 anos, acho até que veio com o pai, todos se encontraram no lobby do hotel. Tinha um piano lá, o pessoal de várias bandas convidadas ficava tocando. Aí levaram violão, outros instrumentos e de repente já havia um plateia. Eles cantaram e conversaram até às oito horas da manhã. Foi um momento de bastidor incrível.

Mensagens do público
Ao longo desses 20 anos a gente já recebeu todo tipo de mensagem do público. Tem gente que reclama, fala que o MADA não é mais o que era antes. Outros contam que foram em todas edições. Tem gente também que foi nas primeiras edições e hoje já vai com o filho adolescente. São pessoas que acompanharam as transformações do festival e guardam boas lembranças.

Críticas
A gente sempre escuta o público. E depois das redes sociais esse feedback ficou melhor de acompanhar. Antigamente tinha que ir tateando no escuro para saber o que o público pensa. Temos essas opiniões como diretrizes, mas o público pede de tudo, né. Não dá para agradar a todos. A curadoria final é sempre do Mada.

Baixar de patamar
Já tivemos anos difíceis e nos adequamos a realidade do momento. Na Via Costeira houve uma crescida, mas depois precisamos dar uma diminuída para se organizar novamente. Não temos grilo com isso não. Em 2018 estamos dando um salto grande. Depois vamos ver se funcionou. Se não, a gente volta a um patamar menor. Sem grilo. O importante é que o festival aconteça, traga uma programação interessante para a cidade.

Cena de Natal
Antes do festival, Natal já tinha uma cena interessante. Mas nos últimos cinco anos é que as coisa ficaram maiores. Algumas bandas daqui conseguiram conquistar espaços fora do Estado. E o Mada de certo modo eu acho que ajudou a formar a cena que temos hoje. Foi palco para muita gente. Far From Alaska, Talma e Gadelha, Camarones, Plutão, todas estão circulando pelo Brasil e no exterior.

MADA e DOSOL
Natal tem dois festivais reconhecidos no Brasil inteiro. E são dois festivais que movimentam bem a cena brasileira, a circulação de bandas pelo Nordeste. São poucas cidades que tem dois festivais desse porte, ainda mais sendo cidade como Natal, pequena. Cada um dos festivais tem um formato diferente, mas os dois querem a mesma coisa, fazer a cena crescer.

Conceito do festival
O MADA tem que ser entretenimento artístico e formação. Entretenimento é tentar montar um line up com o que tem de mais legal no momento e com bandas que o público já acompanha, mas ainda não teve acesso. E ao mesmo tempo, fazer ações que levem a música local para públicos novos. É ai que entra o projeto Mada Faz Escola.

Sustentabilidade
Esse ano estamos com a campanha plástico zero. Fechamos com startups do bem, valorizando o conceito de doação. Tentamos estar antenados com o que acontece no mundo. No nosso line up, por exemplo, a gente busca em fazer um festival igualitário, dando espaço para bons trabalhos de meninas e meninos.

Confira vídeo sobre o Festival Mada:

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