E o busílis?

Publicação: 2019-09-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

busilis

Muitas vezes - como se fosse um hábito de linguagem - ouvi meu sogro, doutor Omar Lopes Cardoso, farmacêutico da turma de 1922, Recife, capitão e revolucionário de trinta, dizer, quando queria se referir ao xis de uma questão: “É ai que está busílis”. Os anos passaram, como as águas antigas de um rio, até que outro dia vi num texto do instagram e fui procurar no Houaiss a explicação que sabia ser latina, mas sem saber bem a origem na oralidade do falar brasileiro.

Gosto das palavras e expressões antigas. Não apenas porque realçam quando pousam de novo nas frases de hoje, levadas por um sopro de vida. É como se vivessem outra vez, afinal não é justo esquecê-las. Os estilistas, tocados pela modernidade, até podem dispensá-las e sepultá-las, se desejarem. Há sempre um velho baú onde é possível guardar o que se imagina inservível ou imprestável para os tempos de hoje. A um cronista parnasiano não seria justo abandoná-las.  

  Comecei por Houaiss, por tê-lo à mão. E está lá: “Busílis - cerne da questão ou do problema; dificuldade”. E ao pé do verbete a origem etimológica e erudita desse velho vocábulo: “De origem controversa, busílis, ponto difícil”. E, a seguir: “Tem sido ligado à locução latina ‘in diebus illis’, ‘naqueles dias, atribuída à anedota contada desde o Século XII, de um estudante das classes de latim antigas que ao traduzir entendeu-o ‘indiaes’, as índias, e empacou no busílis”.

Não é bem o caso de procurar alguma utilidade no uso de ‘busílis’. Essas palavras ficam como um guardado preso às coisas mais íntimas da vida. Fazem parte das tralhas inúteis se vistas agora, no frêmito do mundo virtual. Era comum no texto dos velhos cronistas e consta, embora sem glória, no rol das palavras do “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” da nunca menos douta Academia Brasileira de Letras, guardiã constitucional do nosso universo vocabular. 

Deonísio da Silva, no seu “A vida íntima das palavras”, ARX, São Paulo, 2002, registra a versão de Houaiss e acrescenta mais uma: teria sido um velho clérigo que lendo o seu Breviário encontrou ‘no final da última linha de uma página ‘in die’ e no começo da outra ‘bus illis’. Dai virou uma expressão de dificuldade. Guilherme Augusto Simões, no tão rico ‘Dicionário de Expressões Populares Portuguesas’, busílis tem como significado uma só palavra: ‘Dificuldade’. 

No ‘Índice do Vocabulário de Machado de Assis’, da Academia Brasileira de Letras, não há ‘busílis’. O velho Bruxo do Cosme Velho não usou a expressão tão comum na crônica do seu tempo. E parece não existir em João do Rio, que conhecia a alma encantadora das ruas nos seus sentimentos mais íntimos. Mas, é expressão comum, quase um bordão, na boca do policial ‘Rosalvo’, do romance ‘Agosto’ de Rubem Fonseca. E paro aqui. Seria encompridar a conversa.

BRILHO - A Peter Lang, de Oxford, acaba de lançar a tradução para o inglês do livro de Alípio de Souza Filho, ‘Revogar Ideologia, Teoria Crítica dos Construcionistas nas Ciências Humanas’.

MAIS - Alípio, doutor da UFRN, já recebeu proposta para as traduções do livro para o espanhol e o francês. A tradução para o inglês é da professora norte-americana Jennifer Sarah Cooper.

DETALHE - Para quem ainda não sabe: Alípio de Souza Filho é hoje o presidente do “Instituto Humanitas de Estudos Integrados”, criado recentemente pela UFRN. É aberto a cursos eletivos. 

POESIA - Hoje, a partir das 9h, o editor Abimael Silva reúne os amigos e leitores na calçada do Sebo Vermelho, na Av. Rio Branco, para lançar ‘Alma e Poesia do Litoral’, de Eloy de Souza.

DIÁRIO - No mesmo embalo, aproveita e lança também ‘Diário de um Soldado na Companhia das Índias Ocidentais’, de Ambrósio Richshoffer. Um texto originalmente publicado em 1630.

SUICÍDIO - O exemplo vem da paróquia de Parelhas que acaba de organizar a Pastoral voltada para o estudo do suicídio. Os seminários são mantidos pela contribuição do dízimo voluntário.

ARROJO -A nova Pastoral, inédita no RN, além dos estudos e da ação social, é um exemplo de arrojo de como a Igreja pode devolver em serviços a ajuda que recebe para o Óbolo de S. Pedro.

ATENÇÃO - Para quem desejar conhecer o ‘Euclydes da Cunha socialista’: saiu a reunião ‘dos textos esquecidos’, publicados pela Fundação Perseu Abramo. Crônicas e artigos. Com glossário.

RETRATO - Não há retrato mais perfeito do atraso das obras de transposição das águas do São Francisco no RN do que este dado matemático e oficial: dos R$ 3 bilhões necessários às obras do canal de Apodi estão liberados R$ 5 milhões. Ou seria preciso acrescentar mais alguma coisa?

PRAZO - E a escassez absoluta de recursos não é o único problema do Rio Grande do Norte bem debaixo dos olhos dos nossos três senadores e oito deputados federais: as obras foram adiadas, aqui, para 2021. Até agora, portando, nada foi feito. Perdemos para Paraíba e Ceará.

FRAUDE - Pesquisadores da Unicamp mostram que a Reforma da Previdência foi um trabalho de profissionais do governo. O professor Pedro Paulo Zahluth chega a classificá-la de trapaça.

Pós-graduado na California, ele afirma que os brasileiros foram enganados. É esperar a prática.






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