E olhe lá!...

Publicação: 2021-01-24 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Não são muitos, Senhor Redator, os que percebem, no engendramento de certas crônicas aparentemente autobiográficas, o artifício de um sempre urdido gosto pessoal quando, e a rigor, cobre também a vida dos outros. A crônica, disse, há anos, Antônio Cândido, é a literatura ao rés do chão. Tem esse humilde condão de retratar as virtudes e defeitos necessariamente não só do cronista, mas não desprezá-la como forma de tentar biografar, também, a vida dos seus leitores. 

E por uma razão simples: o homem é universal e universalmente constituído das mesmas glórias e pecados. Do palácio suntuoso ao abrigo sob o viaduto. Ali, cercado do ouro ou das asas do besouro, vive o homem com seus pontos cardeais: o medo e a coragem, a dor e o prazer. Seus deuses e diabos são os mesmos, como inteiramente iguais são as tentações humanas, esses frutos da carne e do espírito, todas as vezes que reinventar o mundo e com o qual ainda deseja sonhar.

Ser cronista é a arte mais fácil de imitar. Ajuda o seu jeito íntimo de ser, nascido daquelas conversas dos fins de tarde e começos de noite. Estiradas no balcão das bodegas da pobre vila da infância, às margens do mar de fora, dos pobres, o mar dos pescadores; e do mar de dentro, tão cercado de taludes impondo limites e separando as águas que chamavam cristalizadores para que o sol transformasse em cristais de sal vendo a riqueza que partia em navios e nunca mais voltava. 

É rica e é pobre a minha ilha. Até hoje. São nossas as terras velhas, doadas pela força da fé a Nossa Senhora da Conceição, a padroeira, e delas somos seu legítimos foreiros. Rica, desde que era do conde Matarazzo e da condessa Pereira Carneiro, donos da riqueza que a gente ouvia falar, mas não via. E mais rica ainda desde quando ouvia a minha mãe repetir, como numa récita de versos inesquecíveis, do poeta Edinor Avelino, cantando ‘as mais belas salinas do universo’.  

Menino, olhava de longe a conversa dos homens feitos. Abandonavam o corpo cansado nas espreguiçadeiras e camas de vento e conversavam fartos do cozido de peixe ou do escaldado que purgava suas entranhas tão cheias de fome. Enquanto nas salas humildes de suas casas, um São Jorge guerreiro, também cansado de tantos anos de luta, e montado no seu cavalo branco, enfrentava todos os dias o dragão da maldade, como se fora a metáfora dos pecados do mundo. 

Ora, Senhor Redator, que outro destino caberia a um menino de descobertas tão comuns, se só ouvia a conversa dos vizinhos, exaustos das águas, contando histórias do mar? E depois, se por onde andei - e andei muitos mundos - não encontrei outro mar que na sua nobreza não fosse o mesmo mar da infância? Declaro e dou fé, todo arrumado, como se fosse assistir à missa solene do domingo olhando a Elevação do Santíssimo: só poderia, no máximo, ser cronista. E olhe lá! 

GUERRA - É surda, mas é dura, a guerra do Covid-19. A governadora Fátima Bezerra já lançou duas campanhas de marketing, enquanto o prefeito Álvaro Dias, cabreiro, aposta no Drive-thru. 

PROCURA-SE - Por falar no prefeito, tudo indica que ele procura uma mulher que represente as minorias para ser a secretaria da área. A sua ideia é ter uma ação de modernidade e liderança. 

LUTA - O professor e escritor Gaudêncio Torquato entrou na disputa pela vaga do jornalista Nelson Patriota como opção de luta para um grupo da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.

VALOR - Gaudêncio é professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, autor de vários livros e analista político do jornal O Estado de S. Paulo. Um sertanejo de Pau dos Ferros. 

BLAKE - Os leitores, no Brasil, de William Blake, acabam de ganhar a edição bilíngue de todos os seus livros: a Iluminuras reuniu em ‘Visões’, as traduções do premiado José Antônio Arantes. 

MERMOZ - Quem desejar adquirir via on line um exemplar do livro ‘Jean Mermoz’, de Roberto da Silva, basta usar o Mercado Livre. Por transferência eletrônica, boleto ou via cartão de crédito. 

ESTILO - A Caern apareceu na Brigadeiro Gomes Ribeiro: cavou as pedras do paralelo, fechou o vazamento, botou um cavalete com a marca, deixou o buraco aberto e desapareceu. Feito tatu. 

PERIGO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, sobre a lisonja e a vaidade quando se juntam no mesmo espírito: “Deus os fez e o Diabo os juntou”. E beliscou o queijo do Reino. 

POESIA - Os leitores e colecionadores da obra de Manuel Bandeira começam o ano com a nova e belíssima edição Aguilar, reunindo sua poesia completa e sua prosa, em dois volumes. Como na edição, hoje rara, de 1958, mas depois reduzida nas edições seguintes para um volume único. 

VALOR - A nova reunião tem como organizador e compilador o crítico André Sefrin, em dois volumes tamanho grande, capa dura e acondicionados em caixa-box. No mesmo padrão editorial da ficção completa (romances) de Aluízio Azevedo e dos quatro volumes de Machado de Assis.  

RECORDE - A obra completa de Bandeira alcança o recorde de seis edições na Aguilar, a partir da edição princeps, em 1958. Depois, teve novas edições em 1967, 1974, 1977, 2009 e este, de 2020.  São 2.644 páginas, com uma introdução de André Sefrin, bibliografa e sua fortuna crítica.  










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