“É preciso ter criatividade e inovar no turismo”

Publicação: 2014-02-23 00:00:00
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»entrevista» Caio Luiz de Carvalho - ex-ministro do Turismo e ex-presidente da Embratur

Vinícius Menna
- Repórter

O Turismo tem que oferecer experiências. Apostando nessa ideia, o ex-ministro de Esporte e Turismo e ex-presidente da Embratur, Caio Luiz de Carvalho, veio a Natal para ministrar a palestra “Turismo Criativo”, durante o 5º Fórum de Turismo do Rio Grande do Norte, realizado nos dias 19 e 20, no Centro de Convenções de Natal.
O ex-ministro do Turismo,Caio Luiz de Carvalho, observa que os destinos do Nordeste devem ir além do sol e mar para aumentar o apetite dos consumidores
Na oportunidade, Caio Luiz de Carvalho concedeu entrevista à TRIBUNA DO NORTE e contou sobre a ideia de transformar sol e praia – para citar um exemplo próximo da realidade nordestina – em oportunidades de vivenciar uma experiência turística que vai além de mirar uma bela paisagem.

Em tom descontraído, o ex-ministro analisou as chances que a Copa pode trazer para o turismo potiguar, dissertou sobre o possível legado que o evento pode trazer para o Rio Grande do Norte e para o país, de maneira geral, além de avaliar a política atual de turismo do Brasil – sugerindo o que pode melhorar.

A conversa inclui ainda a opinião do especialista em questões como os preços das tarifas cobradas pelos hoteis, situação que já chamou a atenção do Governo Federal e inclusive do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), órgão do qual ele já esteve à frente. “Não é uma questão que eu queira fugir, mas uma coisa é a negociação na mesa de balcão, outra coisa é o que há por debaixo”, comentou.
Caio Luiz de Carvalho foi ministro de Esporte e Turismo por dois anos na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso e secretário nacional do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo da época do presidente Itamar Franco
A palestra do senhor no 5º Fórum de Turismo foi intitulada “Turismo Criativo”. O que o senhor abordou nessa palestra?
Quando se fala em Turismo Criativo, estamos falando da necessidade de entender que nem sempre matéria-prima é produto. Um belo dia eu recebi uma lição numa aula da Escola Superior de Guerra, em que eu falava da diferença entre matéria-prima e produto. E lá pelas tantas, o diretor da escola falou: “O que o professor está querendo dizer é que no Recife nós temos o Forte de Guararapes. Ele é uma atração cultural fantástica, mas é matéria-prima. Se você contratar a Escola de Dramaturgia de Recife para encenar a Batalha de Guararapes, aí você vai ter um produto”. Então, de certa forma, é um exemplo que estou dando de como isso é possível. Quando eu saí do Ministério, fui para o Peru trabalhar com a cultura Inca. O fascínio que se exerce nos turistas, quando se chega em Cusco e em Machu Picchu, é extraordinário, mas porque tem histórias. E os guias são antropólogos e historiadores que acabam te envolvendo naquele cenário. É uma experiência. É algo mais do que só olhar, é você viver aquilo, participar das coisas. E isso significa inovar, ser criativo. Existem várias maneiras de se fazer isso. São Paulo é muito difícil de se trabalhar por ser uma cidade de negócios, mas se tornou o maior destino turístico do país graças ao tripé “feiras, agenda cultural e negócios”. O que alavancou isso foi uma agenda cultural extraordinária, com Museu da Língua Portuguesa, Museu do Futebol, com a Virada Cultural, e eu tive condições de participar disso com muita alegria. Com isso, aumentou o tempo de permanência do turista e consequentemente a taxa de ocupação hoteleira, enquanto que antes o turista que vinha a São Paulo ia a uma feira de negócios e saía correndo.

Como aplicar essa visão ao Nordeste e a Natal?
No caso do Nordeste, é incontestável as belezas naturais, é uma região mágica, mas é preciso transformar tudo isso em algo diferente. As pessoas querem consumir coisas que ninguém antes consumiu. Nesse sentido, sol e praia é commodity, não só aqui, mas em qualquer lugar do mundo. É preciso uma agenda muito rica o ano inteiro, até por conta da sazonalidade.

E não precisa ser só na parte cultural, mas também com eventos. A cidade de Guaramiranga, no Ceará, tem o Festival Internacional de Jazz e Blues. É uma cidade de 5 mil habitantes, mas que hoje recebe 3 a 4 mil pessoas durante o festival. O Turismo tem que buscar oferecer uma experiência ao turista.

O número de voos para o Rio Grande do Norte caiu nos últimos meses e a taxa de ocupação dos hoteis tem sido baixa. A Copa é uma oportunidade para mudar essa realidade e alavancar o turismo?
Lógico que a Copa é um grande evento. Acho que o Rio Grande do Norte tem um ponto positivo, que é um estádio feito por PPP [Parceria Público-Privada] e que ficou pronto. O que se questiona no Brasil hoje é o legado da Copa e, nesse sentido, o que dá para se buscar de legado é justamente conquistar aqueles que virão.

Em termos de mobilidade urbana, o que tinha que ser feito já foi feito, não dá mais tempo. Tem cidades que não conseguiram fazer nada de mobilidade urbana. A própria São Paulo sofreu muito com isso e o Rio de Janeiro deve ganhar mais com a Olimpíada do que com a Copa.

Com relação a nossa infraestrutura aeroportuária, nós paramos no tempo. Lembro que em 1998, eu vinha de capacete ver as obras do aeroporto Augusto Severo e ele foi inaugurado em 2000 [novo terminal]. E aqui, a oferta ainda aguenta a demanda, mas em Guarulhos, por exemplo, nós atrasamos muito e a infraestrutura precária de lá afeta o país inteiro porque 76% dos voos que chegam ao Brasil, chegam por lá e de lá são redistribuídos.

Nós temos um problema sério de infraestrutura aeroportuária num país que é dependente de transporte aéreo. E Turismo é sobretudo deslocamento, se você não deslocar o turista ele não chega até você. A questão é que na Copa, ele vai chegar e a principal missão é seduzir, conquistar e mostrar o que tem de melhor nessa terra. Falando de Natal, acho que a Copa é positiva.

Qual a perspectiva para o setor em 2014?
Talvez tenhamos um crescimento – puxado pela Copa – em torno de 10%. Falam algo em torno de 20%, mas acho que se ficar em 10% já está muito bem.

Mas a perspectiva para o Turismo continuará boa após a Copa?
Acho que continuam, mas nós temos que equacionar essa questão do transporte aéreo. A grande companhia que faz voos internacionais é a TAP. Se ela resolver mudar os objetivos – acho que ela não vai mudar – nós vamos ficar a pé.
”Sol e praia é uma commodity, não só aqui, mas em qualquer lugar do mundo. É preciso uma agenda muito rica o ano inteiro”
Com relação a hotelaria, Governo Federal e Embratur tem demonstrado preocupação com os preços. Como o senhor vê essa discussão a respeito das tarifas?
É normal que os preços aumentem em mega eventos. O que eu acho interessante – e já falei isso para representantes do Fohb [Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil] – é criar produtos alternativos nas cidades que não serão sedes da Copa e fazer uma grande oferta turística, com preços mais baixos para equilibrar esse mercado. Até porque tem gente que não vai querer saber de futebol e vai viajar, inclusive o próprio brasileiro, que é o grande cliente do Brasil. Nosso cliente maior não é o estrangeiro. Nós tivemos um déficit na balança comercial do ano passado: são 25 bilhões de dólares gastos lá fora e entraram apenas 6 bilhões aqui. São mais de 18 bilhões de dólares de déficit com o Turismo internacional. O brasileiro ir para lá não é ruim. É bom porque ele vai para museu, aprende, melhora a visão do negócio de turismo. Agora, nós não conseguimos aumentar o número de turistas que vem para cá e para que isso aconteça, só se nós fizermos uma grande campanha na América do Sul, já que Turismo é sobretudo deslocamento e para 2020 a Organização Mundial do Turismo diz que 76% das viagens serão de curta distância, com até seis horas de voo. Isso significa investir na América do Sul, onde nós temos mais de 18 milhões de turistas que bviajam até duas vezes por ano par fora do seu destino. E o Brasil não chega a receber 3 milhões de sul-americanos, que são nossos vizinhos. O Peru manda 83, 84 mil peruanos por ano para cá. Mais de 1 milhão e meio de peruanos viajam para fora, em até duas vezes por ano, então essa é a questão. Discurso existe, mas até hoje não houve nenhum grande modelo para a América do Sul. E existe o preconceito do sul-americano para com o sul-americano, que prefere ir para o Hemisfério Norte, e a Copa e a Olimpíada são os grandes momentos para fazer isso, fidelizar esses caras. Mas o que foi feito em função desses eventos em propaganda na América do Sul. Eu não conheço.

Mas voltando a questão dos preços, existem abusos?
Acho o seguinte: essa questão de abuso, o mercado regula. Se existe o exagero, não se compra. Aconteceu isso quando surgiu o plano real, eu lembro, dolarizaram tudo e os hoteis ficaram vazios.

Então é possível que isso afugente os turistas?
Não é uma questão que eu queira fugir, mas uma coisa é a negociação na mesa de balcão, outra coisa é o que há por debaixo. A diária sai por mil dólares, mas depois você vai ver, está 200, 250 dólares, no pacote.

Mas os preços altos podem ser negativos mais para frente também?
Isso pode acontecer, mas na verdade o Brasil já tem fama de caro, isso sim. Tanto que o dólar subiu, muita gente acreditou que isso ia diminuir o número de brasileiros lá fora e esse número aumentou brutalmente porque mesmo com o dólar alto lá fora, ainda está mais barato lá fora do que viver aqui de restaurante. O Brasil está um país caro e tem a questão do custo Brasil e dos impostos.

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Comentários

  • juliana_cms

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