Economia elege oposição na Índia

Publicação: 2014-05-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Edgar Maciel
Agência Estado

São Paulo (AE) - A família que dominou politicamente a Índia na maior parte da história pós-colonial do país acaba de receber uma prova do descontentamento dos eleitores nas eleições gerais deste ano. Em uma campanha liderada por Rahul Gandhi - filho, neto e bisneto de primeiros-ministros -, o partido do Congresso sofreu a maior derrota dos seus 128 anos de história. Ainda com a apuração dos votos em andamento, já estava claro que o próximo chanceler será Narendra Modi, líder do partido nacionalista de oposição Bharatiya Janata (BJP).
Saurabh Das/AP/ECPartido de Narendra Modi obteve maioria ampla nas urnasPartido de Narendra Modi obteve maioria ampla nas urnas

Na noite de sexta-feira, o BJP já havia garantido cadeiras suficientes para controlar a câmara baixa do Parlamento e formar um governo sem a necessidade de coalizão com partidos menores, segundo dados da Comissão Eleitoral indiana.

A votação teve uma participação recorde, com 66,38% dos 814 milhões de eleitores comparecendo às urnas durante as seis semanas de eleições, que começaram em 7 de abril. Em 2009, a participação foi de 58,13%. O BJP conquistou o pleito com a promessa de aceleração do crescimento econômico e com ações mais pró-mercado, visando o investidor estrangeiro. O partido também aproveitou a ampla insatisfação popular com o Partido do Congresso, envolvido em uma série de escândalos políticos nos últimos anos. Além de eleger o primeiro-ministro, o partido nacionalista conseguiu dominar o Parlamento sem precisar formar coalizão. Já o partido do Congresso caminhava para seu pior desempenho eleitoral na história.

Os eleitores construíram a percepção de que Rahul Gandhi não passava de um príncipe herdeiro aguardando a coroação. Grande parte da população que apoiava o partido do Congresso se demonstrou furiosa durante a campanha pela incapacidade do governo de enfrentar a corrupção, o desemprego e os problemas econômicos do país. “Estamos aceitando o veredicto do povo com total humildade”, disse o porta-voz Shakil Ahmed. “Admito que em 2014 o resultado foi pior que a nossa mais desastrosa previsão”, completou.

“O resultado é um choque. Mas o partido do Congresso tem um grande reservatório de força”, afirmou o líder do partido, Jairam Ramesh. O atual primeiro-ministro, Manmohan Singh, ligou para Modi e o parabenizou. Singh afirmou que pediria demissão ao presidente Pranab Mukerjee no sábado.

Durante a campanha eleitoral, Modi explorou as acusações de nepotismo contra o Partido do Congresso. “Ninguém pode salvar esse governo de mãe-filho agora”, disse o primeiro-ministro eleito. Em uma década no Parlamento indiano, Rahul raramente se pronunciou ou levantou questões e foi acusado por não gastar os fundos destinados para o desenvolvimento dos governos locais. Na mais recente eleição estadual, o Congresso perdeu em Bihar e Uttar Pradesh, redutos importantes da família Gandhi.

“Rahul é visto como bem-intencionado e inofensivo, mas ele é desprovido de ideias ou de uma grande visão do que ele quer para o futuro do país”, disse Sumit Chakravartty, analista político e editor da revista Mainstream. “Ele é um comunicador pobre. Quando fala, a única coisa que emerge são mais provas do seu pensamento confuso.”

Analistas políticos relatam que o declínio do Congresso tem sido evidente há anos, principalmente com a retração da economia devido uma sucessão de escândalos de corrupção no país. Alguns também consideram que a dependência do partido na família Gandhi também foi um fator negativo. “A Índia é a maior democracia republicana do mundo e é estranho ter um país governado por uma sucessão de dinastia cada vez mais inapta”, avaliou Mukul Kesavan, historiador da Universidade Jamia Millia Islamia, localizada em Nova Délhi.

Apesar de a família Gandhi estar enfrentando uma crise de popularidade, é prematuro fazer prognósticos sobre as próximas eleições. Em todo o país, a família é comparada como uma versão indiana da monarquia britânica ou a dinastia Kennedy nos Estados Unidos. É um assunto de fascinação e status na Índia. “O partido do Congresso não vai desaparecer. Eles têm vitalidade para se reinventar. Isto pode ser apenas um revés temporário”, disse o jornalista Inder Malhotra, que escreveu uma biografia sobre Indira Gandhi.

A formação do gabinete deve ser anunciado oficialmente nos próximos dias, segundo fontes ligadas a Narendra.

Mudança histórica
A derrota eleitoral da família Ghandi representa uma mudança histórica, tanto para a sociedade indiana como para a tradição do país. O patriarca da família, Jawaharlal Nehru, foi um herói da luta pela independência contra o domínio britânico. A partir de 1947, Nehru assumiu o cargo de primeiro-ministro e governou até sua morte, em 1964.

A filha de Nehru, Indira Gandhi, assumiu o poder, seguida pelo filho, Rajiv. Ambos foram mortos em execuções políticas. A viúva de Rajiv, a italiana Sonia Gandhi, assumiu o partido do Congresso e se tornou a política mais influente do país e, desde então, vinha preparando o terreno para o filho Rahul assumir o legado familiar.

Rahul Gandhi, de 43 anos, se apresentou aos eleitores como um jovem líder que poderia rejuvenescer a frágil economia da Índia. No entanto, a população o via como um privilegiado, distante e fora do contato com a realidade e o cotidiano dos indianos.

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