Educação Museal

Publicação: 2018-09-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

O Rio Grande do Norte tem cerca de 70 instituições museológicas cadastradas no Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Infelizmente, boa parte delas ainda não se comunica com o público como deveria, devido a uma série de fatores culturais, sociais e econômicos. Uma das iniciativas para tornar essa distância menor é a 12ª edição da Primavera dos Museus, cuja programação em Natal estará no Museu Câmara Cascudo, de 17 a 23 de setembro.  Entre palestras, oficinas, mostras, painéis e feira de plantas, uma oportunidade de conhecer mais e refletir sobre a importância desses espaços culturais.

Em cartaz desde o início do ano, “Aves e Evolução - Uma perspectiva histórica” é uma das atrações da temporada
Em cartaz desde o início do ano, “Aves e Evolução - Uma perspectiva histórica” é uma das atrações da temporada

O tema do evento para 2018 é “Celebrando a Educação em Museus”. A programação será realizada no espaço arborizado do MCC, uma área de quase sete mil metros quadrados, preparada para receber os visitantes e palestrantes. A proposta educacional da Primavera dos Museus vem num momento  tristemente oportuno, já que o debate sobre o assunto foi evidenciado pela tragédia ocorrida no começo do mês, o incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, a primeira instituição científica do país, com 200 anos de existência.

“A compreensão sobre o significado do museu em nossas vidas e as novas posturas que devem nos inspirar, são as únicas coisas positivas que podemos tirar dessa tragédia nacional”, afirmou Everardo Ramos, diretor do MCC. A Primavera de 2018 vai evidenciar as potencialidades pedagógicas dos museus no campo do ensino das ciências, dos estudos ambientais, e também do fortalecimento da cidadania.

O primeiro ciclo de ações da Primavera dos Museus em Natal terá um tom de conscientização ambiental. A palestra de abertura, às 14h30, será sobre o Projeto Parque das Ciências e o Parque do Museu. No dia 18, o tema será a horta do MCC: “Práticas pedagógicas em agricultura urbana para uma sociedade sustentável”, às 14h. Dia 23 terá a Feira da Primavera, com venda só de plantas como bromélia, bonsai, rosa do deserto, entre outras, além de produtos de jardinagem.

A Primavera de 2018 vai evidenciar as potencialidades pedagógicas no campo do ensino das ciências
A Primavera de 2018 vai evidenciar as potencialidades pedagógicas no campo do ensino das ciências

No dia 19 terá uma mesa redonda sobre “Ludicidade sustentável”, sobre o uso de sucata e lixo na construção de brinquedos que estimulam a cognição e a criatividade. A oficina “Arqueologia experimental para o ensino da história”, dia 21, propõe o uso de atividades arqueológicas para o ensino de história nas escolas públicas e privadas.

Um dos destaques da programação será a abertura da exposição “Akagantu”, que exibirá material indígena do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (Portugal) ao lado das peças do MCC. O acervo biológico e cultural foi coletado na Amazônia durante uma expedição portuguesa do século 18. Parte desse acervo será apresentado por meio de fotografias e vídeos.

Já as peças do MCC também são oriundas de pesquisas na Amazônia e no Brasil Central, mas já no período contemporâneo. Essa mostra poderá ser vista ao lado de outras exposições já abertas no museu, como “Aves e Evolução - Uma perspectiva histórica”; “Engenhos: Tradição do Açúcar”; “Anatomia Comparada”; “Icnologia: A vida passou por aqui”; “Póstumos: Arqueologia do descaso”, e “A caverna”.

Temática indígena volta a marcar presença na programação do Museu Câmara Cascudo
Temática indígena volta a marcar presença na programação do Museu Câmara Cascudo

A programação cultural inclui também música: dia 21, o Madrigal da Escola de Música da UFRN vai embalar os visitantes com suas vozes e repertório refinado e eclético e no dia 23, às 19h, será a vez dos batuques do Projeto Pau e Lata, que faz música percussiva em instrumentos reciclados. Nos dias 22 e 23 será realizada ainda a 5ª Feira de Fotografia. Serão diversos fotógrafos expondo e vendendo obras em diversos formatos (posters, prints, cartões postais, livros, quadros), a preços variados. Além da feira, também haverá palestras de especialistas, sobre temas relacionados à fotografia.

Olhar de museólogo
Por trás de cada vitrine de museu, está um trabalho de inteligência e sensibilidade. Um dos profissionais mais importantes desse processo cultural é o museólogo. É quem conduz o processo de salvaguarda, pesquisa e comunicação desse patrimônio, material e imaterial. Segundo Gildo José dos Santos, museólogo do MCC/UFRN, há apenas cinco ou seis profissionais dessa área atuando no estado.

Gildo lamenta que o RN não tenha políticas públicas voltadas a instituições museológicas. “Há um certo amadorismo na condução dos museus por aqui. Vigora a ideia de que a peça exposta numa edificação aberta ao público já configura um museu”, diz. Ele acredita que, no geral, os museus potiguares não consideram as complexidades da instituição.

“Museus são instâncias de educação não formal, lugares que nos levam a refletir sobre a nossa realidade, os caminhos que nos trouxeram até aqui e quais os futuros possíveis a partir de nossas posturas enquanto atores sociais. São instituições voltadas ao desenvolvimento humano”, diz. O museólogo critica o senso comum de que museus são lugares feitos para turistas e visitantes aleatórios.

O trabalho em um museu envolve processos de salvaguarda do acervo, pesquisa museológica,  estratégias de comunicação museológica e ação educativa,  pesquisa e avaliação do público. Gildo Santos ressalta que o trabalho do museólogo até extrapola o ambiente dos museus, incluindo também projetos, processos e instituições com foco na relação entre atores sociais e os objetos eleitos como representativos da realidade e, portanto, encarados como patrimônio.

Para Gildo, um dos maiores problemas dos museus potiguares está na condução amadora de boa parte deles. “Parece que todos no RN entendem dos processos museológicos, e não se precisa de profissionais devidamente formados e qualificados para atuação em museus. Volto a repetir que museu não é só um prédio com acervo dentro e aberto ao público” diz ele, que se formou na UFBA. A UFRN ainda não tem graduação na área de museologia.  Ele considera que a falta de visão impede a qualificação das instituições, afasta visitantes, coloca o patrimônio em risco, e empobrece a percepção de riqueza histórica científica e cultural dos museus.

O museólogo também contesta a ideia de que o museu deve ser um lugar parado no tempo, empoeirado. Os museus precisam estar conectados com o seu tempo e com as rápidas mudanças que ocorrem. “A linguagem e estratégias de divulgação de museus são adequadas ao público que o frequenta? Se um museu não me motiva nem me comove em nenhuma medida durante a visitação, eu não volto nem recomendo a outros. Precisamos quebrar essa perspectiva de museus como locais sagrados e reservados a eleitos”, analisa. Para ele, museus são a um só tempo palco e espelho da vida social.

Serviço:
12ª Primavera dos Museus. De 17 a 23 de setembro, no Museu Câmara Cascudo. Acesso gratuito.


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