ELE

Publicação: 2020-10-23 00:00:00
Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Muitos anos antes de Pelé dizer “love” em Nova York, o menino Dico derramou sentimentos profundos pela Seleção Brasileira em Três Corações. E chorou no colo da mãe Celeste, lágrimas de torcedor pelo fracasso no Maracanã em 1950. “O Brasil perdeu, mamãe, o Brasil perdeu”. Dico, com a bola de meia, botas de operário como se fossem chuteiras, chutando a decepção do pai, Dondinho, o craque que parou cedo no dia em que estreava pelo Atlético Mineiro. 

Trágica ironia na violência do zagueiro Augusto, que não honrou o nome. E lá foi o moleque, sonhando o sonho do pai, nas botas de sete léguas que lhes encurtaram a distância das nações da Terra em relação às esquinas das ruas de barro em Três Corações e Bauru. Da Vila manjedoura, rei de todos os Santos, Pelé onipotentemente. Nada e nem ninguém, entre Vênus e Plutão, foi igual a Ele.

Entre os milhares de crônicas dos mortais, haverá – talvez - alguma indicando a existência de um ser semelhante nalguma galáxia distante. Mas é só prova de versão literária, nunca de fato científico. Pelé foi mistura de arte e ciência.

Ele também é uma religião, um deus de poderes lúdicos ligando paixões e culturas diversas. Não importa a fé que professe o fiel da bola; se Santos, Botafogo, Flamengo, Boca Juniors, Milan, Real Madrid, Manchester, Barcelona, Benfica, Bangu ou Alecrim. O deus é um só.

Cresceu em templos de doutores da bola até tornar-se o maior deles. Chegou na Vila Belmiro com pouco mais que os 13 anos de um certo garoto nazareno. Os dois primeiros toques na bola foram em passes trocados com Zito, Pagão e Jair da Rosa Pinto. Que batismo!

A fama de craque alastrou-se pelos arredores de São Paulo. A cada êxito de Pelé, o coração de Dondinho disparava em atávica glória. E Dico se aproximava cada vez mais de cumprir a promessa no choro de 1950: “eu vou ganhar uma copa para o Brasil, mamãe”.

Na primeira vez em que o Maracanã viu Pelé foi por um capricho do destino. E ninguém tabelou tão bem com o destino quanto Ele. Fora emprestado, junto com mais nove atletas, ao Vasco da Gama, que estava com o time titular viajando pela Europa.

Mas foi Dico quem jogou, fazendo maravilhas ao lado de Jair da Rosa Pinto – um dos gênios de então – e marcando gols que deixaram boquiaberto o treinador vascaíno. Os dribles fantásticos de Pelé provocaram-lhe êxtase: “Só Leônidas fez coisas assim”, dizia.

Já no vestiário, o menino-prodígio, molhado, encontrou coragem de perguntar ao técnico do Vasco se ele sabia sua identidade. “Claro, você é Pelé”, respondeu. “Mas eu sou também o Dico, e tinha um ano de idade quando um zagueiro do São Cristóvão quebrou o joelho de Dondinho”. Replicou.

O técnico Augusto da Costa não entendeu, até que aquele adolescente, que acabara de deixar o Maracanã em ebulição, contou-lhe que Dondinho era seu pai e que o algoz que lhe interrompera a carreira estava ali agora louvando, quase em oração, o seu rebento, o seu menino. Ah, o destino.

Eu vi deus na TV, eu vi deus em Natal. Pelé onipresente nos cinco continentes, o Rei que nasceu plebeu, roubando amendoim para comprar bola de capotão. O filho que se fez pai, que imaginava Dondinho nos álbuns de figurinhas, e que virou, Ele mesmo, a maior figura do futebol.

Um dia, divino para todo o sempre, o governador do Rio Grande do Norte, Robinson Faria, me colocou ao telefone com o Rei do Futebol; batemos um fio entre Natal e São Paulo. Agradeceu-me o livro que enviei sobre a saga da Copa de 1970. Devolvi a gentileza. O grato era eu, por tudo representado nele; não fosse sua majestade, minha geração estaria agora curtindo rúgbi, golfe ou beisebol.

Nada jamais será igual ao tudo do Rei. E tudo é crível nos feitos de Pelé. Não há efeitos, nem truques, nem fusões. No Olimpo da bola, onde já são eternos Messi, Cruijff, Garrincha, Di Stefano, George Best, Zico, Maradona, Eusébio, Beckenbauer, Puskas, Zizinho e Rivera, só Pelé é deus e estes todos são os seus profetas. Amém! Feliz aniversário, Rei!

Créditos: Divulgação

Peié
Talvez tenha sido o único diálogo futebolístico que eu tive com minha mãe. Um dia, no clima da Copa de 1970, ela contou que em 1962 eu sofrera uma queda ao tentar chutar uma bola, pisar em cima e cair gritando “é gooooool de Peié”.

Caju
Na noite em que lancei a coletânea “Todos Juntos, Vamos”, no Leblon, o genial e genioso Paulo Cezar, já no grau alcóolico, começou a folhear o livro e reclamar que tinha muitas fotos de Pelé. Respondi: Caju, ele ganhou a Copa!

Tivuco
Há dois instantes que marcaram minha vida no Castelão: ver jogar Eusébio e Pelé, respectivamente em 1972 e 1973. Em setembro de 73, num gol de falta do rei contra o América, eu ouvi, do Frasqueirão, o som do seu pé na bola.

Pop Art
Pelé foi modelo de Andy Warhol, ambos se conheceram em 13 de julho de 1977. Após pintar o rei do futebol numa tela, o rei da pop art vaticinou: “Você é a única celebridade que em vez de durar 15 minutos, durará 15 séculos”. 









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