Elefantes brancos no Elefante Potiguar

Publicação: 2020-09-27 00:00:00
Tomislav R. Femenick
Jornalista

Partindo da premissa de que o nosso Estado é um dos menores e mais pobres do país, é lógico se pensar com parcimônia no que gastar os parcos recursos de que dispomos. Mais lógico ainda é que se empreguem nossas pobres riquezas em projetos que gerem bem-estar para a população e que possam alavancar nossa renda, através de aumento da produção agropecuária, extrativista, industrial, comercial e de prestação de serviços.

Entretanto, a realidade não é bem assim. Entram governos, saem governos, e o que impera é a construção de “elefantes brancos” que consomem nossos impostos em obras faraônicas e sem serventia, ou, quando muito são empreendimentos que usam apenas parte de suas respectivas capacidades produtivas ou de geração de conforto para nós potiguares. Vejamos alguns exemplos.

O caso exemplar é o Aeroporto Aluízio Alves, localizado em São Gonçalo do Amarante, e que tinha por mote servir a população da região metropolitana de Natal e, por extensão, de todo o Estado. Tudo indicava que fosse mais do que uma superfície terrestre dotada de pista, prédios e equipamentos necessários ao embarque e desembarque de passageiros e cargas; fosse mais que um simples aeródromo. Uma série de fatores apontava esse “algo mais”. Tem a localização privilegiada e a tendência mundial das empresas aéreas de adotarem para suas rotas a logística conhecida como “hub-and-spoke”, usando um aeroporto como ponto de conexões de suas rotas. Não foi o que aconteceu. O aeroporto de Recife, e não o nosso, assumiu este posto. Restaram-nos as agruras de um aeroporto longe, que exigiu investimentos em estradas de acesso. E lá se foram mais gastos públicos.

Outro “nó górdio” foi a Ponte Newton Navarro, necessária como nova ligação do centro à zona norte da capital, já que a ponte de Igapó estava saturada. O problema é que a nova ponte é baixa e não permite a passagem dos grandes transatlânticos. Mesmo assim, o porto de Natal foi dragado e foi construído um moderno e caro Terminal de Passageiros, que custou R$ 74 milhões, até hoje só parcialmente utilizado, quando o é. Por falar no Porto, há também há um terminal pesqueiro, no qual foram investidos R$ 28,1 milhões, cuja situação atual de uso é de “estudo”.

Agora vem o “crème de la crème”, a imponente Arena das Dunas, erguida para a Copa de 2014. São 77.783,50 m² de área construída, que ocupa um terreno de 114.063 m² e tem capacidade para 31.375 pessoas, com custo de ?R$ 423 milhões. Imponente e belo, ocupa o espaço em que antes existia o recém reformado Estádio João Machado. O problema é outro: um belo palácio que realça a precariedade do futebol potiguar. Os dois principais clubes do Estado, o América e o ABC, patinam, quando muito, entre a série “D” e “C”. Traduzindo a situação: é como se os pobres de Paris visitassem o Palácio de Versalhes.

Para driblar a escassez de futebol, a Arena se transformou em espaço multiuso. Lá são realizados shows musicais, espetáculos circenses, quadrilhas juninas e o escambau. Mesmo assim, a operação é deficitária. Sabe quem cobre o rombo? O Erário do governo do Rio Grande do Norte. Um estudo da Controladoria Geral do Estado calcula que nós, o povo potiguar (através do governo do Estado, que usa os nossos impostos para isso), já pagamos à OAS, construtora e operadora da Arena das Dunas, a bagatela de R$ 707 milhões.

Enquanto isso, o Estado está inadimplente com seus funcionários. Há duas folhas de salários atrasadas há cerca de dois anos e sem previsão de quitação. Falta dinheiro para a gasolina dos veículos da saúde e da segurança pública. Nas unidades regulares de saúde falta tudo; algodão, gases, mertiolate. Nas escolas (agora fechadas) há necessidades de reformas, faltam giz, cadernos, livros e lápis. Na Secretaria de Segurança faltam pessoal, coletes à prova de balas, armamento moderno e até a munição é regrada.

A primeira obrigação de qualquer governo é fazer seu povo feliz, não iludido. O Aeroporto de São Gonçalo enchouriçou a vida dos passageiros; a ponte Newton Navarro (por não telas de proteção), virou ponto de suicídios; a Arena virou apenas dunas.