Eleições online para reitor da UFRN

Publicação: 2014-10-19 01:00:00
Nadjara Martins
Repórter

Pela primeira vez, em 56 anos de história, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte elegerá seu representante máximo por meio da internet. Decisão do Conselho Universitário (Consuni) autoriza, pela primeira vez, que o novo reitor seja eleito pela plataforma SIGELEIÇÃO – já utilizada nos pleitos dos departamentos e centros. O objetivo é facilitar a participação da comunidade universitária. Neste ano, as chapas “Alma Mater” e “Avanços e Desafios” concorrem ao posto na eleição do dia 11 de novembro.

Cargo disputado, o reitor é responsável por gerir o terceiro maior orçamento do RN, que chega a R$ 1,2 bilhão. O novo gestor, porém, terá como desafio incrementar essa receita, visto que R$ 1 bilhão do orçamento já está comprometido com a folha de pagamento, de acordo com informações da Reitoria. Os R$ 200 milhões restantes são para custeio e investimento nos quatro campi da universidade – central, Santa Cruz, Currais Novos e Caicó.
Pela primeira vez em 56 anos de história, a UFRN elegerá seu representante máximo por meio da internet, através da plataforma SIGELEIÇÃO
A eleição seguirá o trâmite comum – e polêmico – que é o voto paritário entre as classes da universidade: estudantes, professores e servidores. Cada setor tem peso de 1/3 do total; entretanto, as categorias têm quantidades diferentes de eleitores.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, os representantes das duas chapas comentam as políticas que pretendem adotar, se eleitas. A oposição, liderada por Carlos Chesman, planeja restruturar o modelo “burocrático” da universidade. Já a atual reitora, Ângela Paiva, quer manter a política e interiorização e internacionalização. Veja abaixo:

Chapa: Avanços e Desafios
Ângela Paiva Cruz é a atual reitora da UFRN e concorre à reeleição
Ângela Paiva Cruz (reitora)

Atual reitora da UFRN (2011-2015),  Ângela é formada em Matemática, com mestrado em Filosofia e doutorado em Educação. Ingressou na UFRN em 1983. Coordenou o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) na universidade.

José Daniel Diniz Melo (vice-reitor)
Diretor do Centro de Tecnologia e professor do Departamento de Engenharia de Materiais da universidade. Formado em Engenharia Civil pela UFRN, é mestre e doutor em Engenharia Mecânica e professor visitante da Universidade de Stanford (EUA).

Site das propostas:
www.avancosedesafios.com.br

Quais são os projetos para essa nova gestão?

Daniel Diniz: Esse programa não foi pensado pelos candidatos. Nós visitamos todas as unidades acadêmicas da universidade e ouvimos as sugestões, o que as pessoas esperam da próxima gestão da UFRN, e a partir destas sugestões, nós combinamos as colocações e preparamos esse documento, que foi dividido em quatro eixos: Qualidade Acadêmica, Interiorização e Internacionalização; Gestão eficiente, participativa e transparente; Cidadania, Inclusão Social, Qualidade de Vida e Sustentabilidade; Ciência, Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento. Esses eixos não são isolados. Por exemplo, é impossível pensar inclusão sem sustentabilidade e desenvolvimento. Foi um processo de escuta muito grande.

A outra chapa propõe uma reestruturação do modelo da universidade, com criação de institutos, pois o modelo atual seria centralizador. Qual a visão de vocês sobre isso?
Ângela Paiva: Acho interessante essa visão, porque a gestão universitária é participativa, colegiada e democrática. Nos conselhos superiores eu apenas presido, e tenho voto de Minerva apenas quando é empate. As direções de centros, unidades acadêmicas, alunos e técnicos estão lá. Nós não vamos decidir sozinhos o  caminho da universidade.

Dar autonomia aos institutos não desburocratizaria a universidade. Há alguma proposta semelhante de vocês?

Ângela Paiva: A universidade já tem criado institutos, os próprios departamentos se articulam e discutiram a criação. Quando essa decisão chega na reitoria, essa discussão já aconteceu na base. A universidade pode escolher ter centros ou unidades acadêmicas especializadas. Mas não é a reitoria quem deve determinar isso, deve ser uma escolha da própria universidade em discussões.

Daniel Diniz: No nosso caso nós não propomos a criação de institutos, um modelo pronto, mas que a universidade discuta. Se houver uma mudança no modelo organizacional ela vai ser discutida pela própria universidade.

O grupo político da chapa está à frente da universidade há algum tempo. Por que ela representa renovação, se são os mesmos nomes?
Ângela Paiva: Não são os mesmos. Seriam se estivéssemos eu e Maria de Fátima (Ximenes). Houve uma renovação com o professor Daniel, que indica para a comunidade universitária que a gestão já tem uma composição nova. E o plano de gestão – isso é apenas uma carta de compromissos – nós vamos construir depois da eleição, a partir de novas escutas com a comunidade universitária. Vamos recompor a equipe que estará mais alinhada com os novos objetivos.

Que programas vocês elencariam como importantes para essa nova gestão?

Ângela Paiva: O fortalecimento cada vez maior do processo de interiorização, por isso um esforço muito forte para grupos de pesquisa e pós-graduações serem criadas no interior. Dar condições acadêmicas para que professores e pesquisadores continuem no interior. Estamos com projetos para Restaurante Universitário onde não tem, assim como áreas de esporte e lazer nos campi do interior. Avançamos muito nessa questão. Também queremos a continuidade da internacionalização, que lá na ponta representa a melhoria dos conceitos e avaliação dos cursos.

Mobilidade é uma das principais solicitações da comunidade estudantil. Qual o projeto para a área?

Ângela Paiva: Iniciamos, na minha gestão, a criação de rotas acessíveis que cruzam o campos interior, inclusive com ciclofaixas e todos os itens de acessibilidade. Revisar o plano diretor da universidade é uma das metas, revendo fluxos para que a gente tenha, depois desse crescimento maior.

Daniel Diniz: Existe uma demanda clara da comunidade por ciclovias, é uma tendência da cidade, mais corredores verdes. Na acessibilidade, já evoluímos muito. Sobre o circular, queremos aumentar a oferta de transporte nos campi. Não é meta nossa tirar recursos de programas sociais para  o transporte. Nosso projeto é fortalecer a discussão com a Prefeitura de Natal, mostrando que o transporte está deficiente e fazer com que ele seja melhor. Estamos buscando o oitavo circular, para que ele também circule mais.

Chapa: Alma Mater
Carlos Chesman de Araújo Feitosa é o candidato da chapa Alma Mater
Carlos Chesman de Araújo Feitosa (reitor)
Formado em Física pela UFRN e professor titular – cargo mais alto entre os docentes– do Departamento de Física Teórica e Experimental  da universidade. Realizou o pós-doutorado no Argonne National Laboratory. Foi reeleito para o quadro diretor da Sociedade Brasileira de Física para o biênio 2013-2015.

Rubens Eugênio de Barreto Ramos (vice-reitor)
Professor da UFRN desde 1992, criou o curso de Engenharia de Pós-Produção da universidade. Desde 2007 integra o Departamento de Engenharia Civil nas áreas de Engenharia de Transportes e de Economia Aplicada. Pós-doutor pelo Laboratoire d’Èconomie de Transports, na Universidade de Lyon, França.

Site das propostas:

www.almamaterufrn.wordpress.com

Por que vocês defendem a mudança na estrutura atual da universidade?

Rubens Ramos: Cem por cento de quem está na UFRN hoje não sabe que ela já foi outra coisa. Existiam faculdades independentes que se tornaram departamentos. No mundo, ninguém utiliza esse modelo nosso que é uma anomalia da ditadura militar, que retira a autonomia das unidades acadêmicas. A UFRJ, por exemplo, manteve as suas escolas. A USP manteve totalmente essa estrutura. No resto do Brasil, criou-se esse modelo burocrático. Não é que queremos fazer diferente do Brasil, mas igual ao mundo. A essência do nosso projeto é retomar o modelo original de universidade, democrático e horizontal, onde não é o reitor quem manda.

Como vocês pretendem fazer essa mudança, já que depende das eleições colegiadas? Vai trazer impacto financeiro?

Carlos Chesman: Hoje o poder do reitor é tão concentrado que basta ele se reunir com o conselho e tomar qualquer decisão administrativa. A estrutura atual faz com que o reitor tenha esse poder. Sem esse poder, fica mais fácil fazer essas reformas. Do ponto de vista financeiro, temos o terceiro maior orçamento do estado. R$ 400 milhões de custeio para 40 mil pessoas é um montante, que se comparado há 10 anos, não existia. É substancialmente um recurso grande, dá para fazer mudanças: descentralizar. A vantagem é que transformando centros em laboratórios ou escolas. Faz sentido, no século XXI, que eu, do departamento de Física, diga a uma pessoa da Saúde onde ela deve aplicar os seus recursos? Atualmente, o reitor é quase que um especialista em tudo. Se você descentralizar, fica mais fácil gerir e aplicar os recursos.

Mas esse sistema já não está sendo adotado, com a criação dos Institutos do Cérebro, de Física?

Carlos Chesman: Desculpa, mas é uma gambiarra. Só as pessoas que estão próximas à reitora é que têm o poder. Por que não fazer uma reforma estatutária e conceder esse poder a todos os departamentos?

Rubens Ramos: De qualquer forma é uma autonomia capenga, pois eles estão sob a ordem do reitor. Nós queremos mudar isso, o reitor é uma representação da universidade, ele não deve ser um governador. Essa criação dos institutos também são, claramente, uma pressão da própria academia. Mesmo assim uma anomalia, porque é o reitor quem escolhe.

Como seria a gerência desse modelo? A quem se prestaria as contas do que é feito?

Carlos Chesman: Eles continuariam prestando contas aos conselhos, eles não deixariam de existir, às pró-reitorias. O Consad (Conselho de Administração), porém, seria mais representativos dos laboratórios. A estrutura de prestação de contas continua a mesma, mas mais pessoas terão direito a opinar. Se for o diretor de um instituto, dezenas de institutos terão como participar.

Quais outras propostas vocês ressaltam?

Carlos Chesman: O domínio da língua inglesa tem que acontecer. Já se oferecem cursos, isso é importante, mas não é o resultado final. Falta essa vivência dentro do dia a dia, cursos em inglês. Foi criado um centro de línguas, mas além disso é preciso que as pessoas tenham a necessidade de ler e falar inglês corriqueiramente. Quanto à ligação com a indústria, um professor que vai ser consultor tem que passar por várias instâncias da Reitoria para chegar à Funpec. A empresa não espera e as coisas acabam sendo feitas na gambiarra. Essa descentralização vai soltar as amarras das unidades e melhorar a relação com as empresas. Para os alunos, queremos implantar o Passe Livre. Custará em torno de R$ 16 milhões para a universidade, o que não é nada. Em Chicago os alunos não pagam, e isso não é perda, é investimento.

Rubens Ramos: Vamos dar o dinheiro de duas passagens e negociar o uso ilimitado. É assim que ocorre em todo o mundo. Vamos continuar com o circular. Um ônibus de primeiro mundo custa R$ 500 mil. A universidade não pode ser oito desses em quatro anos? E o próprio Seturn já nos falou que vão colocar motoristas se nós dermos os ônibus. O circular será nosso de qualidade, teremos paradas de primeiro mundo.