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Rubens Lemos Filho
Eles gostavam de futebol
Publicado: 00:01:00 - 22/05/2022 Atualizado: 13:20:05 - 21/05/2022
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Quando o corpo do policial rodoviário federal, Raimundo Bonifácio Filho, 43 anos, foi posto na sepultura simples do Cemitério de Parangaba em Fortaleza, havia sobre seu caixão a bandeira do Ceará Sporting, time também preferido pelo agente Márcio Hélio Almeida de Souza, 52 anos. 

Raimundo e Márcio foram assassinados por um psicopata numa BR da capital cearense na manhã de quarta-feira e a imagem dos dois sendo abatidos não sai da minha cabeça. 

Na guerra urbana que assola o Brasil, sou polícia até a medula. Tenho ódio e nojo de vagabundo como o que, ao ser ajudado  pelos policiais federais para desocupar uma estrada onde vagava, tomou a arma de um deles e executou os dois. PMs de passagem, trataram de entupi-lo de balas. A perplexidade revolta, dói. As vidas perdidas dos policiais valiam muito, a do bandido, nada, seu fim foi um bem à sociedade. 

A tragédia reacende a cada aparição dos dois corpos estendidos e inertes, dos colegas que chegam e imploram para que Raimundo e Márcio respondam aos seus apelos desesperados. Estavam mortos. Eram gente. Eles, sim. 

Para mim, a certeza de que dois homens de bem foram covardemente brutalizados está na sensibilidade que apenas o futebol permite.  O Ceará, o time alvinegro chamado de Vozão, estava no coração de cada um deles. 

Quem gosta de futebol por amor, merece todas as lágrimas. Como as que derramei e o pavor sentido  enquanto esse crime cruel não sair de minha alma sangrando de assombro. 

Repetir  que os Direitos Humanos não choram pelos patrulheiros é chover no asfalto em que ambos tombaram. Da minha faixa etária, Raimundo e Márcio gritaram gols de Sérgio Alves, Mota e Iarley.

Queria tanto que o pesadelo passasse e eles tivessem acompanhado, ontem, o jogo do Ceará previsto contra o Santos. Tal o Apóstolo Paulo, o mais sábio entre os discípulos, olho ao vazio e o peito aperta enquanto pergunto ao céu sobre a janela aberta e silenciosa: Morte, qual é a sua vitória?

Times 
América: César; Ivã Silva, Lúcio Sabiá, Dick e Vassil; Baltasar, Didi Duarte e Júnior(Norival); Curió, Tulica e Severinho. ABC: Zé Luís; Gelson(Dão), Pirulito(imaginem!), André e Escada; Arié, Alberi e Jadir; Tinho(Ademir), Neinha e Soares. 

Silêncio e assédio 
O silêncio das vítimas, que deixam de fazer denúncias com medo de perder oportunidades, é um dos entraves ao combate do assédio sexual a crianças e adolescentes no esporte.

Canais 
Em audiência pública sobre o tema na Comissão do Esporte da Câmara os debatedores mostraram que providências como a disponibilização de canais de denúncias e a responsabilização das entidades esportivas podem melhorar a situação.

Marginais 
O ex-goleiro Alexandre Montrimas, que atuou por 20 anos e encerrou a carreira em 2015, já fez palestras em mais de 60 clubes sobre assédio sexual. Ele fala de uma situação recorrente: os “olheiros”, como são chamados os caçadores de talentos que param em cidades pequenas, escolhem os futuros atletas, e as famílias deixam os filhos irem atrás do sonho do sucesso, muitas vezes sem conhecer o histórico dessas pessoas.

Abuso 
Montrimas defende a profissionalização dos olheiros e é taxativo: segundo ele, não existe atleta ou ex-atleta que não tenha passado por uma situação de abuso.

Mulheres 
Situações de assédio fizeram a atleta Luciana Neder fundar, há dois anos, a Comissão de Direitos das Mulheres no Jiu-Jitsu. Em menos de dois anos, a entidade recebeu 103 denúncias, sendo três de pedofilia. A comissão ampliou a atuação para outras artes marciais, e Luciana afirma que o silenciamento das vítimas também é provocado pela lentidão nas investigações.

Demora 
“Quando as meninas fazem a denúncia, vão à delegacia, fazem o registro da ocorrência, há uma demora muito grande na solução desses casos. Então, esses treinadores continuam trabalhando e praticando seus crimes de assédio e violência. Enquanto isso, a mulher está afastada temporariamente e até para sempre do esporte”, relatou Luciana Nader.

Profissionais 
Para o representante do Conselho Federal de Psicologia, Rodrigo Acioli, é importante que as entidades esportivas contem com profissionais especializados para enfrentar a questão do assédio sexual. Ele ressalta que é preciso ter atenção não só com os atletas mais conhecidos, mas também com aqueles que treinam diariamente, mas não chegam às competições mais importantes.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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