Elza Dutra sobre suicídios: “É preciso profissionais específicos”

Publicação: 2019-05-26 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Luiz Henrique Gomes
Repórter

O tema do suicídio voltou a ser falado com grande repercussão no Rio Grande do Norte nos últimos 30 dias, desde que um grupo religioso se instalou na ponte Newton Navarro, em Natal, com a intenção de evitar o fato e pedir a instalação de uma grade de proteção na área. A iniciativa chamou a atenção da imprensa nacional, políticos e de outras pessoas que atuam na causa da prevenção ao suicídio. No local, 25 pessoas se suicidaram entre 2008 e 2015, de acordo com uma pesquisa científica feita por Elza Dutra, doutora em psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Apesar da estatística, que mostra uma média de 3 a 4 suicídios por ano ocorridos na ponte, o local se tornou símbolo do ato desde a inauguração, em 2007. O acampamento não é a primeira iniciativa que visa a prevenção. Há cerca de dois anos, placas foram instaladas com mensagem de incentivo à vida numa campanha chamada “Ponte pela Vida”. “Mas não é lá onde a maioria dos suicídios acontece”, explica Elza Dutra. Apesar de considerar as iniciativas louváveis “porque as pessoas estão vendo que alguma coisa precisa ser feita”, a professora faz uma ressalva: “É um paliativo. A solução é melhorar as condições de habitar o mundo”.

Elza Dutra alerta para o risco de tornar o suicídio um espetáculo e afirma que “a solução é melhorar as condições de habitar o mundo”
Elza Dutra alerta para o risco de tornar o suicídio um espetáculo e afirma que “a solução é melhorar as condições de habitar o mundo”

Elza Dutra pensa o suicídio há mais de 20 anos. “Academicamente, vale dizer”, faz questão de ressalvar em um ensaio publicado em 2017. As pesquisas que desenvolve desde a década de 90 trouxeram à tona, por exemplo, as características sociodemográficas dos suicídios ocorridos no Rio Grande do Norte entre a década de 1980 a maio de 2000. Desde então, tem tentado refletir sob a perspectiva da filosofia o que leva às pessoas ao suicídio. “É preciso pensar sobre o que atormenta o homem dessa época”, afirma.

À TRIBUNA DO NORTE, Elza Dutra concedeu uma entrevista durante 50 minutos sobre o tema. Falou sobre as iniciativas e o risco de transformar o suicídio em espetáculo, criticou a tendência geral de considerar o suicídio como decorrência de uma doença e levantou características da sociedade atual que contribuem para o ato. Abaixo, leia os principais trechos da entrevista.

Qual é a situação de Natal e do Brasil quando falamos sobre a quantidade de suicídio?

A primeira questão a chamar atenção é que os dados sempre são subestimados. Estima-se que para cada suicídio, a gente tem em torno de 10 tentativas. Embora exista a subnotificação, a Organização Mundial da Saúde chama a atenção para isso e já tem um acordo com alguns países para eles registrarem. E mesmo com a subnotificação, o suicídio tem aumentado no mundo inteiro. No Brasil também tem aumentado, embora as taxas não sejam semelhantes aos países do Leste Europeu e do Oriente.

E como é a situação do país no continente americano?

O Brasil ocupa o oitavo lugar na América entre os países com mais mortes por suicídio. E, no Brasil, essa é a terceira causa de morte entre os jovens, depois do homicídio e acidentes de trânsito. O Brasil tem uma taxa de 5,5 homicídios e 4,5 mortes no trânsito para cada suicídio, enquanto no Japão são 70 suicídios para cada morte do trânsito. Se suicida muito lá. Essa taxa do Brasil é praticamente no país inteiro. No Rio Grande do Norte, a taxa também é essa.

A senhora percebe que de 2015 (ano da última pesquisa feita por Elza Dutra) para cá houve um aumento de suicídio ou se manteve o mesmo?

Acredito que houve um aumento. Eu ainda não tabulei esses dados, mas, pelas notícias, teve um aumento. Quase todos os dias você tem a notícia de um suicídio. Agora, tem também as subnotificações. Eu acho que os dados são subestimados porque falta averiguar, mas também por conta do preconceito e do tabu.

O tema passou a ser mais debatido nos últimos anos?

Nos últimos cinco anos, tem havido uma campanha muito forte no Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio, que surgiu no Estados Unidos. A campanha foi criada pela Associação Brasileira de Psiquiatria, pelo CVV (Centro de Valorização da Vida) e outras entidades. Tem se falado muito sobre o suicídio e muita gente tem falado sobre isso sem muita propriedade científica, de estudos, sem estar embasado. Hoje, você vai nas mídias sociais e qualquer pessoa está falando e dando curso sobre a prevenção ao suicídio.

Hoje, existe uma campanha muito grande na ponte Newton Navarro, em Natal. A ponte é, de fato, um local onde se suicida muito?

Nos meus dados, foram 25 mortes por suicídio na ponte Newton Navarro entre 2008 e 2015. De lá para cá, o Ciosp (Centro de Monitoramento de Segurança Pública) conseguiu evitar alguns casos. Depois, apareceu Leila Maia e começou uma campanha da Ponte para Vida, que colocou placas ao longo da ponte. Ultimamente, eu vi o pessoal do grupo de evangélicos. Eu acho louvável alguém, como Leila Maia e o grupo de religiosos, ir para a ponte Newton Navarro porque elas tem a disponibilidade de ajudar e estão vendo que alguma coisa precisa ser feita. Mas eu acho que é preciso ter cuidado. Primeiro, a Organização Mundial da Saúde tem uma cartilha sobre como divulgar fatos sobre suicídio na mídia.

A última iniciativa chamou a atenção, inclusive, da imprensa nacional. Quais são os efeitos que isso podem ter se não houver cuidado?

É muito negativo. Não é que se deixe de noticiar o suicídio, mas você tem que ter cuidados. Porque uma notícia sensacionalista sobre o suicídio, dando detalhes, dizendo como foi, mostrando fotos da pessoa, cartas e bilhetes, pode influenciar outras pessoas a se suicidarem. O nome disso se chama 'Efeito Werther', que é um efeito de contágio e influência. Werther é um personagem da literatura que se suicida na literatura. Depois que o livro (Os Sofrimentos do Jovem Werther, de von Goethe) foi publicado, vários jovens também se suicidaram. Então, por muito tempo a imprensa não noticiava o suicídio por conta do medo disso, mas os dados subiram tanto que a gente viu que se precisa falar. Não pode se deixar de noticiar, mas você tem que ver como se dá a notícia.

A iniciativa também tem um componente religioso, por se tratar de um grupo religioso que está lá. Historicamente, a religião trata o suicídio como pecado. Existem vídeos de abordagens no local onde existe um discurso religioso. Qual o efeito disso?

Eu acho que a questão da ponte Newton Navarro, e eu falo do grupo atual que está no local e de outras pessoas, como as que noticiam no Facebook, vai contra a cartilha da Organização Mundial da Saúde. Porque o que você vê é a carga de preconceito e julgamento moral sobre essas pessoas. Isso não é bom. O suicídio já é um tabu, é condenável há muito tempo pela história, passou por uma fase medieval, que considerava o suicídio algo do demônio, e carrega essa carga de preconceito ao longo da história e ainda hoje. A gente vê pessoas que escondem que o filho se suicidou ou tentou suicídio com medo do estigma. Uma pessoa que tenta suicídio passa a ser vista como louca. Quando você vê alguém comentando sobre o suicídio, o comentário mais comum é: 'estava em depressão'. Ou seja, as pessoas precisam justificar como um transtorno mental. E isso é outra questão. A minha missão tem sido ultimamente desconstruir essa patologização do sofrimento.

Como você enxerga essa questão?

Claro, você tem várias formas de ver o suicídio: a corrente da psiquiatria vê de um jeito; algumas religiões vêem sempre como um pecado; a psicologia tem várias formas de ver; e a filosofia tem a sua forma de ver. Eu considero que nem todo suicídio, e eu tento desconstruir não desvalorizando a psiquiatria, é resultado de um transtorno psiquiátrico. Já li na literatura (acadêmica) que somente 5% do suicídios é decorrente de um transtorno mental, como delírio e uma alucinação. A própria literatura diz que você tem os suicídios racionais. As pessoas planejam o suicídio. O que eu tenho dito nos meus artigos é para refletir como está sendo dado  a justificativa da depressão, que está sendo um pano de fundo que as pessoas usam para justificar todo suicídio. A depressão é um transtorno psiquiátrico e tem algumas características, mas como está sendo feito esse diagnóstico? 

Há muito tempo que a ponte carrega o estigma de ser um local de suicídios, até porque no primeiro dia que ela foi inaugurada houve um suicídio. Se ela já tinha esse estigma, fazer uma ação como essa piora esse estigma?

Eu acho que reforça porque a ponte está sendo vista como lugar em suicida pela mídia nacional, inclusive. E eu questiono: até que ponto você pode dizer que a pessoa que estava subindo a ponte estava indo tentar suicídio? Eu acho que são dados que precisamos ver com mais cuidados porque está tendo uma faca de dois gumes. Quanto mais ficarem lá, as pessoas que estão desamparada elas vão para ter um pouco de visibilidade do sofrimento. Talvez não seja para se matar, mas para ter um acolhimento. E será que elas vão se sentir acolhidas? A gente precisa de profissionais específicos, com formação, para atender essas pessoas. Depois que elas são abordadas lá, para onde elas vão? São deixadas em casa?

Qual é a rede assistencial que existe no Estado ou no Município para amparar essas pessoas?

É muito falha. Existem os Caps (Centro de Atenção Psicossocial), mas tem que capacitar esses profissionais de saúde. São poucos profissionais psicólogos, não há um investimento. Nas unidades básicas também quase não há psicólogos. E, mesmo que tenha, esses psicólogos precisam ser capacitados para acolher as pessoas que chegam na urgência. Por incrível que pareça, o próprio profissional de saúde tem dificuldades de acolher, falar sobre isso, ouvir sobre isso. A tendência é não falar sobre isso. Existem muitos profissionais que tentam convencer o outro a não se matar. Não é convencendo que você vai resolver o problema.

Existe também a preocupação por parte da senhora de que no dia em que saírem da ponte acontecer um Efeito Werther?

Fico nessa dúvida do que vai acontecer. Estão pressionando para se colocarem grades ali, como se isso fosse solucionar o problema do suicídio. Sim, é paliativo. Vai ser bom, mais um dispositivo para evitar. Mas a solução é melhorar as condições de habitar o mundo. Que condições hoje são essas? Hoje, os jovens sentem que precisam estudar, trabalhar, fazer um curso... me diga, que perspectiva de vida existe hoje para esses jovens, num país com 14 milhões de desempregados? A gente está num país com muita desigualdade, pobreza, com abusos sexuais. Tudo isso é um fator de risco para o suicídio. A gente está vivendo um desamparo.
















continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários