Em busca das matrizes do forró

Publicação: 2019-05-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O pedido de registro das Matrizes do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil entrou em seu momento mais importante, que é a fase do trabalho de campo. O Rio Grande do Norte, como todos os estados do Nordeste, está contemplado, assim como Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e Brasília, que ao longo dos anos acolheram e ajudaram  a fortalecer as tradições do Forró.

O forró como gênero musical só foi nomeado assim por volta dos anos 70. O próprio Gonzaga usava o termo baião no início da carreira. Já a sanfona, instrumento ícone do gênero, não estava presente na origem. O forró de antigamente contava com outros instrumentos, como a rabeca
O forró como gênero musical só foi nomeado assim por volta dos anos 70. O próprio Gonzaga usava o termo “baião” no início da carreira.
Já a sanfona, instrumento ícone do gênero, não estava presente na origem. O forró de antigamente contava com outros instrumentos, como a rabeca


Nesta fase um grupo multidisciplinar que reúne técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pesquisadores da Associação Respeita Januário, de Recife, e colaboradores locais estará batendo perna para investigar as raízes do forró tendo em vista três eixos: festa popular, música e dança. A pesquisa tem prazo de 18 meses para ser concluída e é fundamental para o Conselho Consultivo do Iphan aprovar ou não as Matrizes do Forró como Patrimônio Imaterial do Brasil – a exemplo de algumas expressões que já o são, como as Matrizes do Samba do Rio de Janeiro, o Tambor de Crioula do Maranhão, o Samba de Roda do Recôncavo Baiano e o Frevo.

Segundo o antropólogo Pedro Clerot, do Iphan, essa é uma das maiores pesquisas de bem imaterial empreendidas pelo órgão. “O forró é uma manifestação muito forte. É referência para os artistas contemporâneos. É uma expressão que pode ser vista como gênero musical, dança e celebração popular. Desde a capoeira não trabalhávamos um bem tão difundido no país”, afirma Clerot, que já atuou nas pesquisas sobre o Cordel e sobre o Repente (este último em fase de finalização).

O antropólogo comenta que muitas das respostas que se espera surgirão do contato direto com os forrozeiros. “Essa não é uma pesquisa de gabinete. Ela acontece no contato com as pessoas. Iremos conversar com tocadores de acordeão, zambumba, fazedores de instrumentos, sanfoneiros de oito baixos, tocadores de rabeca, que é um instrumento que ficou esquecido depois do trio gonzagueano. Queremos saber como aprenderam a tocar, quais os problemas que enfrentam. Vamos ouvir o forrozeiro não profissional, o sertanejo que toca para celebrar no interior”, detalha o técnico do Iphan, lembrando que todo o trabalho será registrado em vídeo e texto.

Raul do Mamulengo e sua boneca dançarina: a dança como uma das expressões da cultura forrozeira
Raul do Mamulengo e sua boneca dançarina: a “dança” como uma das expressões da cultura forrozeira

O pontapé inicial da nova fase do pedido de registro do Forró como bem imaterial foi dado na semana passada no Recife, com o Seminário Forró e Patrimônio Cultural. Na ocasião estiveram presentes forrozeiros, artistas, músicos, artesãos, e dançarinos, além de gestores públicos e culturais, produtores e pesquisadores. Os próximos passos serão no período junino, quando pesquisadores vão aproveitar a mais expressiva manifestação cultural do Nordeste para bater perna pela região.

Professor do Departamento de Música da UFPE e membro da Associação Respeita Januário, Carlos Sandroni ressalta a complexidade da pesquisa, mas também comemora estar havendo uma grande mobilização em torno do processo. “O forró vive um dinamismo grande. É uma manifestação bastante difundida e isso leva a apropriações. Nesse sentido, queremos os elementos mais permanentes”, comenta o professor. “O Seminário já foi um passo muito importante. Pudemos conhecer pesquisas recentes sobre o tema. Teses de doutorado sobre Jackson do Pandeiro, dissertação que compara diferentes modos de tocar sanfona. E a mobilização dos forrozeiros é de grande importância também, porque ajuda na salvaguarda”.

Origens do forró
Perguntado se a pesquisa já parte com algum marco inicial do forró, ou uma classificação em quanto gênero (onde o xaxado, xote e baião seriam subgêneros), Sandroni explica que essas questões não são o foco da pesquisa. “A palavra forró está dicionarizada já tem um pouco mais de 100 anos. Mas no sentido de festa, com música e comida, como abreviação de forrobodó. Em jornais há registro de uso do termo no século XIX”, lembra o pesquisador. Já como gênero musical, ele informa que há controvérsias.

No início, forró ou forrobodó era sinônimo de festa
No início, “forró” ou “forrobodó” era sinônimo de festa

“Tem gente que não vê o forró nem como gênero, só como festa, onde os ritmos tocados seriam o xaxado, xote e baião. Na minha opinião o termo só passou a ser usado como gênero musical na década de 70. Luiz Gonzaga, que é referência no forró, não utilizava o termo quando começou a fazer sucesso entre as décadas de 40 e 50. Ele chamava de baião. Só no fim da vida que ele assume o forró totalmente”, comenta Sandroni.

O processo de registro começou em 2011
O pedido de registro das Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil partiu da Associação Cultural Balaio do Nordeste. A solicitação foi encaminhada ao Iphan em setembro de 2011. Desde então uma série de encontros, fóruns e audiências públicas foram realizadas para discutir o processo de encaminhamento do pedido. As diretrizes apontadas no Encontro Nacional para Salvaguarda das Matrizes do Forró, ocorrido em João Pessoa (PB) em setembro de 2015 são o fundamento para a pesquisa que está sendo feita pelo Iphan e a Associação Respeita Januário.

A pesquisa se estenderá até meados de 2020 e resultará no dossiê de registro a ser analisado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, que deliberará se o bem receberá o reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil. Como o Iphan não dispõe de muitos recursos próprios, a pesquisa conta com verba oriunda de emendas parlamentares, dentre as quais, uma de quando a governadora Fátima Bezerra era senadora. Ela, inclusive, foi uma das parlamentares que levou a o pleito dos forrozeiros para dentro do congresso.

Patrimônios imateriais já Registrados no RN
Roda de Capoeira: Livro de Registro das Formas de Expressão, 21/10/2008.

Ofício dos Mestres de Capoeira: Livro de Registro dos Saberes, 21/10/2008.

Festa de Sant´Ana de Caicó: Livro de Registro das Celebrações, 10/12/2010.

Teatro de Bonecos Popular do Nordeste: Livro de Registro das Formas de Expressão, 04/03/2015.

Literatura de Cordel: Livro de Registro das Formas de Expressão: 19/09/2018.







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