Em defesa de Salgado Filho

Publicação: 2020-07-05 00:00:00
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André Felipe Pignataro Furtado
Sócio do IHGRN 


Muito tem se questionado sobre a mudança de nome da Avenida Salgado Filho, uma das principais artérias de Natal. Ela tem início no cruzamento com a Av. Alexandrino de Alencar, no Tirol, corta o bairro de Lagoa Nova, servindo de limite com Candelária, quando já ganha a BR 101, levando os condutores até a zona sul da capital potiguar e ao município vizinho de Parnamirim.

E, pelo fato de pouco se saber sobre Salgado Filho e da sua importância para Natal, vez ou outra, surge a ideia de trocar seu nome por o de algum filho da terra. Em 2015, o então prefeito Carlos Eduardo Alves cogitou trocar o nome da avenida para Agnelo Alves ou Nísia Floresta. Agora é a vez do prefeito Álvaro Dias, que pretende homenagear o empresário Nevaldo Rocha, recém falecido. E ainda há os que querem a troca do nome para Câmara Cascudo.

A justificativa utilizada é sempre a mesma: que Salgado Filho foi um político gaúcho que não teve qualquer relação com Natal, a ponto de merecer tamanha honra. Em verdade, trata-se de um argumento frágil.

Pois bem. A relação de Joaquim Pedro Salgado Filho com Natal teve dois momentos: o primeiro entre 1942 a 1945, e o segundo, e mais relevante, em 1948.

Salgado Filho foi o primeiro ocupante do Ministério da Aeronáutica, criado em 1941 por Getúlio Vargas, às vésperas da participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial. Foi, portanto, na gestão do ministro Salgado Filho que houve a entrega, em 1942, da Base Aérea de Natal, em Parnamirim – que ainda não havia se emancipado – pelos americanos. E, como se sabe, ela teve grande importância para a vitória dos Aliados contra o Eixo, na África, recebendo, por isso, o apelido de “Trampolim da Vitória”. Salgado Filho deixou o ministério em 1945, após a queda de Vargas.

Já em 1948, no dia 05 de agosto, o periódico carioca “O Jornal” publicou uma notícia com o seguinte título: “Vai ser abandonado o aeroporto de Parnamirim”. Consoante a matéria, tal informação foi passada pelo então diretor de Aeronáutica Civil, Cesar Grilo, sob a alegação de “melhor atender aos viajantes, visto Recife dispor de melhores acomodações para recebê-los, e também, principalmente, por não poder o governo no momento arcar com as despesas de dois aeroportos internacionais tão próximos um do outro”.

Naquele mesmo dia, e ainda se recuperando de uma gripe, Salgado Filho fez questão de defender na tribuna do Senado Federal, a manutenção da Base Aérea de Natal, bem como do seu aeroporto civil. Para ele, os aeroportos representavam um importante meio para o desenvolvimento econômico do Brasil e possibilitavam a locomoção pelo seu vasto território. Além disso, Natal tornava mais fácil a navegação aérea para a defesa nacional e a integridade do continente.

O senador gaúcho foi aparteado pelos senadores José Américo (PB), Fernandes Távora (CE) e Augusto Meira (PA), este último natural de Ceará-Mirim, que corroboraram com a sua fala. Esse assunto teve enorme repercussão na imprensa, a ponto de o então ministro da Aeronáutica, Armando Trompowsky, no dia 07 de agosto, em entrevista para o supracitado jornal, dizer que tudo não se passava de um mal entendido e que a base e o aeroporto de Natal seriam mantidos.

Salgado Filho morreu em 1950 de um acidente aéreo. No ano seguinte, o prefeito Olavo Galvão sancionou a lei nº 50, que denomina de Salgado Filho o trecho compreendido entre o Aero Clube e a Base Aérea, em tributo àquele que tanto defendeu a cidade do Natal.