Em dez anos, avenida Afonso Pena ganhou 243 empresas; 72 fecharam

Publicação: 2020-02-23 00:00:00
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Uma média de 24 empresas por ano registradas com endereço na avenida Afonso Pena foram abertas na Junta Comercial do Rio Grande do Norte na última década, de acordo com dados oficiais. Por outro lado, no mesmo período fecharam 7 por ano. A última abertura foi de uma loja de brinquedos e aconteceu no dia 13 de fevereiro deste ano.

Créditos: Magnus NascimentoVários imóveis, fechados há alguns anos, estão à vendaVários imóveis, fechados há alguns anos, estão à venda

Em números absolutos, foram 243 empresas abertas e 72 fechadas nos últimos 10 anos na avenida. Apesar dos registros, há uma subnotificação no número de fechamentos. Muitos empresários avaliam que fechar uma empresa é mais difícil que abri-la, devido à burocracia existente, e os registros se mantém.

Os empreendimentos recentes da avenida Afonso Pena tentam adotar um novo perfil para se manterem, devido às mudanças no perfil do consumo e da avenida. Desde 2017, por exemplo, uma loja de roupas femininas do local funciona apostando no marketing através das redes sociais e dos influenciadores digitais.

Nos quase quatro anos de funcionamento, a loja abriu uma nova unidade, em outra avenida da cidade, e criou a linha infantil, que foi instalada na avenida Afonso Pena. “Aqui tem um bom movimento quase sempre. A maioria dos nossos clientes vem porque viram a nossa loja pelo Instagram ou conheceram por algum influenciador, que fazemos parcerias”, afirma a funcionária Letícia Silva.

Outros segmentos também precisaram se adaptar. O restaurante Talher, de Ivone Freire, que funciona desde 1989, iniciou o serviço de entrega para se adaptar ao mercado, que cresceu a partir dos aplicativos digitais. “A gente tem que se adaptar. Não dá para ficar parada”, diz a proprietária.

Créditos: Magnus NascimentoCorretores de imóveis afirmam que há, atualmente, uma maior procura por locação de prédios na avenida Afonso PenaCorretores de imóveis afirmam que há, atualmente, uma maior procura por locação de prédios na avenida Afonso Pena

Já outros estabelecimentos, que antes ficavam no local, de fato foram ao declínio com as mudanças de mercado. É o caso das agências de viagens. Duas agências na avenida Afonso Pena fecharam nos últimos anos porque hoje a internet é o principal meio de compras.

Em determinado trecho da avenida Afonso Pena é possível ver uma antiga imobiliária fechada, ao lado de uma casa abandonada. Esses imóveis foram vendidos para uma construtora, que pretende construir um condomínio na área. Mais uma vez, mostra uma possível mudança na área da Afonso Pena,  que continua em transformação.

Clínicas médicas, barbearias, hospitais, cafés, restaurantes, galerias, padarias, butiques, cigarreiras, escolas, casas antigas, lojas de decoração e espaços vazios. A avenida Afonso Pena é o ajuntamento de tudo isso. Dividida entre dois bairros, Tirol e Petrópolis, tem também dois perfis: em Tirol é mais serviço; Petrópolis, algumas casinhas e restaurantes.

No passado foi rua de terra batida, residencial, comunitária, de casas com arquitetura europeia e de um abrigo antiaéreo. Foi lá onde morou o engenheiro Roberto Freire (que dá nome à avenida), pai de Ivone Freire; Djalma Maranhão, ex-prefeito. Foi lá que Wilma de Fátima montou uma cigarreira e conseguiu sustentar a filha até ela concluir a faculdade. Muitas histórias se resguardam nas grandes copas das árvores da avenida.

Comerciantes e empresários

Créditos: Magnus NascimentoEmpresária Ivone FreireEmpresária Ivone Freire
Ivone Freire
Empresária

“Essa avenida foi saneada por papai (engenheiro Roberto Freire). Vivi aqui até os meus 12 anos. Nossa casa ficava onde já foi o Papi, hoje fechado. Agora funciona a Drogaria Globo. Era uma casa enorme, mais terreno que casa, na verdade. Tinha um abrigo antiaéreo da época da segunda guerra, que eu nunca entrei. Meus irmãos que entraram. Era uma grande família. Depois eu fui morar numa casa na avenida Princesa Isabel (Cidade Alta) e voltei para cá para abrir o restaurante Talher, em 1989. Eu tinha 38 anos. Foi o primeiro restaurante self-service de Natal. Antes, era uma granja pequena, com algumas vaquinhas. Essa família depois foi para São Paulo. Quando eu tive a ideia de montar o Talher, a Afonso Pena, na parte de Petrópolis, já tinha um centro comercial. Mas a parte do Tirol ainda era muito residencial. Como foi o primeiro restaurante self-service,uma novidade em Natal, deu certo de primeira. Muita gente fazia fila aqui, era um espaço bem menor. A fila ia até na calçada, logo no início.

Nos anos 90 e 2000 foi o auge. A Afonso Pena virou a Oscar Freire de Natal. Muitas lojas, restaurantes. Era  um shopping a céu aberto. Muito movimento. Já a parte residencial foi acabando. Em Petrópolis continua, alguns poucos moradores antigos ainda resistem. E eu estava aqui. O declínio começou quando os shopping Midway Mall começou a crescer mais e o estacionamento foi proibido na avenida. Se tornou uma via expressa. Isso acabou com a Afonso Pena. Muita gente perdeu o emprego. Eu ficava aqui na frente do restaurante pedindo para as pessoas virem para cá. Foi realmente complicado, se tornou uma avenida perigosa, sem movimento, pouca iluminação, tinha muito assalto. As lojas foram para outras avenidas ou shoppings. Quando voltou a poder estacionar, em 2017, foi no meio da crise econômica. Hoje, a Afonso Pena está melhor do que antes, mas ainda não se recuperou totalmente. Eu queria que essa avenida voltasse a ser bonita como antes. Agora ela está bem iluminada, mas ainda é escura por conta da copa das árvores. Acho que falta um pouco de cuidado. Mas hoje até uma agência [do Banco do Brasil] que ficava fechada nos fins de semana voltou a funcionar.”

Créditos: Magnus NascimentoComerciante Wilma de Fátima de LimaComerciante Wilma de Fátima de Lima
Wilma de Fátima de Lima
Comerciante

“Eu cheguei aqui porque fiquei desempregada de uma empresa que trabalhei por muito tempo. O dono do ponto, que mora em um condomínio aqui na avenida Afonso Pena, ficou sabendo da história pelo meu irmão e me perguntou se eu não queria vir para cá. Eu vim. Nunca tinha trabalhado no comércio antes. Como eu estava desempregada, ele deixou que eu ficasse aqui 6 meses sem precisar pagar o aluguel, para que eu conseguisse me estabelecer. Não deixei mais o ponto.

Dia 6 de maio fazem 9 anos que eu estou aqui na Afonso Pena nessa cigarreira. Eu acho uma avenida muito movimentada. Foi graças a essa banca aqui que eu consegui formar a minha filha. Agora, é um movimento bom até às 15h. É o melhor horário. Depois disso começa a ficar mais vazia.
A maioria dos meus clientes são do interior. É o pessoal que vem para clínicas, hospitais, fazer exames. Aí muitas vezes tem que ficar aqui, esperar a hora de ser atendido. Aqui eu vendo bolo, salgado, biscoito, refrigerante, água. O pessoal vem mais para lanchar mesmo. Há 2 anos o movimento deu uma baixada, se tornou menor, mas voltou a crescer. Tem meses que é melhor que os outros.

Aqui onde fica o ponto eu acho muito tranquilo, mas ali na frente [mais próximo de Petrópolis] eu acho perigoso. Tem mais assalto. Graças a Deus nunca aconteceu nada comigo por aqui.

Recentemente, foi vendido um quarteirão todo para uma construtora aí. Dizem que vão construir um condomínio. Então, eu acho que não está ruim não, né? Se vão construir um condomínio. E eu vou me mantendo aqui com a minha clientela.”

Créditos: Magnus NascimentoOrizon Fernandes é aposentadoOrizon Fernandes é aposentado
Orizon Fernandes
Aposentado

“Eu fui nascido e criado aqui na avenida Afonso Pena. Antigamente isso aqui era muito diferente. Quando eu era criança, isso aqui aparecia mais sítio Meu pai morava numa casinha mais ali na frente, a gente morava tudo lá. Aqui nessa parte de Petrópolis ainda tem gente de antigamente, como eu. É como uma grande família. Quando eu casei mudei de casa, mas continuei aqui na Afonso Pena, tive dois filhos. E montei um ponto de venda de coco, que existe há 20 anos.

De repente aqui foi mudando. Começou a chegar um monte de loja, mas tem gente que não quer sair daqui. A noite é um lugar tranquilo. Quer dizer, hoje nenhum lugar é tranquilo, mas eu acho aqui bom. Tem iluminação. Em alguns horários, tem gente caminhando por aqui. De manhã, é um enxame de médico caminhando.

Aqui tem muito ponto para alugar porque tão cobrando caro. Tem lugar que cobra R$ 15 mil. Aí fica lá para alugar, já que tem outros que cobram R$ 4 mil, R$ 5 mil. Esses lugares não tem muito movimento, acaba fechando logo porque o preço do aluguel é alto, né? Mas sempre vem outros. Alguns permanecem, outro não. Hoje eu estou vendendo a casa do meu pai. Já chegou gente interessada, mas por uma demora na hora de fazer o inventário a pessoa não quis mais. Preferiu outra. E hoje tem muita gente ainda interessada, mas é em troca de um terreno para construir. Como são muitos herdeiros, não dá certo.

Aqui eu lembro de tudo. Aquela loja aqui era a casa de Dr. Sarinho, aquela outra de Dr. Fonseca. Essas duas lojas aqui de frente, de Jackson. Muda muito, mas eu tenho uma freguesia já pronta. Quando aqui ficou sem poder estacionar, realmente ficou muito ruim. Eu vendia 20, 30 cocos por dia. Agora eu vendo 60, 70. Depende do dia, que o movimento não é igual todos os dias. Mas é muito melhor do que antes.”





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