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Natal
Em Natal, 7 pontos concentram 28% dos homicídios
Publicado: 00:00:00 - 22/08/2021 Atualizado: 16:03:47 - 24/08/2021
Ícaro Carvalho
Repórter

Sete pontos em 10 bairros de Natal concentraram, em 2020, 28% dos homicídios. Os locais que concentram mais homicídios, juntos, foram responsáveis por 85 dos 296 homicídios na capital potiguar no ano passado. Já em 2019, a mancha criminal da capital foi mais espalhada e se concentrou em mais bairros (13) e contabilizou 103 homicídios nesses locais, 36% do total de homicídios daquele ano, que foi de 284. Os dados fazem parte de um estudo feito por pesquisadores em demografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que buscaram entender e contabilizar, do ponto de vista censitário, a criminalidade na capital potiguar.

Adriano Abreu
Moradores de bairros com mais homicídios se dividem: uns se sentem inseguros, outros relatam tranqulidade, apesar dos crimes

Moradores de bairros com mais homicídios se dividem: uns se sentem inseguros, outros relatam tranqulidade, apesar dos crimes


Assinada pelo estudante Pedro Henrique Oliveira de Freitas, mestrando em Demografia, e orientado pelo professor do Departamento de Demografia da UFRN, Jarvis Campos, a pesquisa utilizou dados do Observatório da Violência do Rio Grande do Norte (Obvio/RN) dos dois últimos anos e faz uma correlação das distâncias desses homicídios com equipamentos públicos.

Divulgação
Manchas quentes dos homicídios em Natal no ano de 2020 de acordo com estudo feito por pesquisadores da UFRN

Manchas quentes dos homicídios em Natal no ano de 2020 de acordo com estudo feito por pesquisadores da UFRN


O estudo utilizou a técnica da interpolação de Kernel (que analisa geograficamente o comportamento de padrões) para estimar a densidade da mancha quente nos bairros em que mais se registraram assassinatos nos dois anos analisados pela pesquisa. A mancha vai ficando mais “quente” quando as ocorrências acontecem mais próximas umas das outras num raio de 700 metros, explica Pedro Freitas. Em 2020, observa-se que os homicídios se concentraram em Igapó, Nossa Senhora da Apresentação, Redinha, Pajuçara, Potengi, Lagoa Azul, Quintas, Nordeste, Bom Pastor e Felipe Camarão. As zonas Norte e Oeste somaram 237 dos 296 homicídios em 2020. Em se tratando apenas das manchas quentes, o percentual é de 28%.

“Nosso estudo foca na questão da mortalidade. Estamos falando de mortes externas, que podem ser evitadas. E o que percebemos é que elas se concentram nas áreas onde existe uma ausência de Estado, de programas, políticas, equipamentos urbanos e esse é um dos pontos que vamos debater no trabalho. Mas não é só isso. Nos últimos 10 anos, tivemos a consolidação das facções criminosas e eles vão se instalar nessas áreas e até pela disputa de mercados ilícitos, eles vão atacar um território do outro. E essas áreas mais segregadas sofram dessa violência e esses embates” explica o pesquisador Pedro Henrique Oliveira de Freitas.

Divulgação
Em 2019 as manchas mais escuras mostram a diferença se comparado ao ano de 2020

Em 2019 as manchas mais escuras mostram a diferença se comparado ao ano de 2020


O ano de 2019 foi diferente. As manchas mais escuras do mapa apresentaram doze pontos (em treze bairros), que juntos somaram 111 homicídios. As mortes violentas na capital no ano retrasado se concentraram em Potengi, Nossa Senhora da Apresentação, Lagoa Azul, Pajuçara, Redinha, Igapó, Felipe Camarão, Dix Sept Rosado, Cidade Alta, Cidade Nova, Cidade da Esperança, Nordeste e Guarapes.

Segundo o Anuário Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal 2021, as zonas Norte e Oeste são as duas áreas que possuem menos equipamentos de saúde e segurança, praças, entre outros. Observando as manchas mais quentes em 2020, por exemplo, e correlacionando com dados atualizados da Semurb, nos bairros de Igapó, Nossa Senhora da Apresentação, Pajuçara, Redinha, Quintas e Felipe Camarão, por exemplo, há nenhuma ou no máximo uma instalação relativa à segurança pública em cada bairro.

As zonas Norte e Oeste, juntas, concentram 39% dos equipamentos de segurança pública em Natal, somando 29 de um universo de 74 espaços, entre delegacias distritais, especializadas, unidades da PM e posto de Corpo de Bombeiros. Juntas, essas zonas somam 596.283 moradores, 66% do total de Natal, segundo dados do Anuário.  Para o professor Jarvis Campos, é importante não associar a explosão populacional e consequente processo de urbanização acelerada, que ocorreu em boa parte do século XX no Brasil, como a causa das desigualdades sociais e da violência.

“O processo de periferização e a consequente dinâmica de segregação socioespacial se constituiu na medida em que o Estado (ao longo de décadas) não atuou para minorar as desigualdades sociais, por meio de investimentos em educação, saúde, segurança pública, habitação, etc. A consequência dessa ausência do Estado foi a ocupação desordenada das grandes cidades, como Natal, não dotadas de serviços e infraestrutura adequados, o que, somado à vulnerabilidade crescente, contribuiu para uma segregação socioespacial estrutural, e para um ambiente propício para a dominação de facções criminosas, associadas ao tráfico, e para o cometimento de crimes, dentre os quais os homicídios”, acrescenta.

Pandemia
Em relação a 2020, por exemplo, há um sensível aumento de homicídios em relação a 2019, mesmo com a pandemia de coronavírus, que impôs medidas de distanciamento social e políticas públicas para evitar o deslocamento de pessoas que não fosse para serviços essenciais.

“As facções criminosas vão operar seu trabalho, não vão ligar se o mundo está em isolamento social. Eles vão querer conquistar novos territórios, manter seu mercado. Outro ponto é que muitos policiais pegaram covid, o efetivo policial, os agentes trabalhando no isolamento”, aponta. “Em relação às manchas, notamos semelhanças num nível macro: manchas mais quentes no Norte e Oeste, mas vimos uma diferenciação na distribuição dentro dos próprios bairros”, cita Pedro Henrique Freitas.

Além de fazer um mapeamento por bairros dos homicídios em Natal nos últimos dois anos, o estudo também fez um perfil das vítimas de homicídios em Natal. Em 2020, homens (94,6%), solteiros (70,3%) pretos e pardos (88,8%) e que foram mortos por arma de fogo (88,2%). Os indicadores comportamentais também indicam que a maioria das mortes no ano passado foram relacionadas ao tráfico de drogas (72,3%) e embate policial (14,9%). A perspectiva dos pesquisadores é de que a iniciativa possa ser um mapa que municie o poder público de informações e consiga dar maior atenção a esses espaços carentes de atenção.

“Não basta você mandar policia ostensiva, isso é importante, mas não é a única medida. Existem as de longo prazo e esse estudo é um passo para se buscar o aprofundamento de informações que possam subsidiar as políticas públicas dos governos. Já organizamos um banco de dados espacial, mostramos de forma atualizada essa distribuição e a distância dos equipamentos”, completa o professor Jarvis Campos.

Moradores dizem sentir medo nos bairros
A reportagem da TRIBUNA DO NORTE visitou uma série de lugares na zona Norte de Natal, região administrativa da cidade que mais concentrou casos de homicídios em 2020, 48,3% do total, sendo 143 mortes violentas registradas, de acordo com o estudo dos pesquisadores Pedro Henrique Freitas e Jarvis Campos. Nas ruas, alguns moradores citam o medo de se morar nesses espaços, ao mesmo tempo em que também há registros de quem não tenha a sensação de insegurança, apesar dos índices de violência.

A autônoma Neuza Batista, de 57 anos, que mora em Nossa Senhora da Apresentação, considera que o trecho em que ela mora é “uma rua calma” e que se sente segura, apesar de se recordar de homicídios na vizinhança. “Não saio muito de casa, vivo aqui, não trabalho na rua, é calmo aqui. Mas tem esse medo né? Nesse trecho já teve mortes, mas faz tempo. Aqui me sinto segura”, comenta.

Outro caso é de um motorista de aplicativo, E.B, 34 anos. Ele comenta que na área onde mora, na zona Norte, “para o trabalhador é tranquilo e seguro”.

Segundo ele, que nunca teve problemas relacionados a assaltos onde mora, o problema que acontece no seu bairro “é entre eles, quem mexe com coisa errada”, se referindo as questões ligadas a tráfico de drogas. “O medo é constante pela possibilidade de estar no lugar errado e na hora errada. Num confronto desses, numa execução dessas, você toma uma bala perdida? O maior medo é esse”, cita.        

Dois jovens estudantes, um de 16 e 15 anos, moradores do bairro de Igapó, definem que o trecho onde moram é “perigoso”. “Temos medo de sair e acontecer algo. Já teve várias vezes de ocorrência de homicídios. Às vezes não temos vontade de sair. Minha mãe não quer que eu saia para lugares longes, por conta dessas questões”, refletiu.

Sesed/RN não tem mapeamento criminal em Natal
A Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social do RN (Sesed) não possui um diagnóstico apurado relativo às macro causas do crime em Natal, o que impede ações mais planejadas a médio e longo prazo para as regiões mais afetadas com a violência. É o que analisa o pesquisador e cientista criminal da Coordenadoria de Informática e Estatística (Coine), Ivênio Hermes.

“É necessário haver um programa de diagnóstico da violência no Estado, não é só mapear, onde acontece, dizer quando acontece, mas é entender o por quê e os principais elementos urbanos que o circundam. Por exemplo, no trabalho do pessoal, que alguns crimes acontecem próximos a equipamentos urbanos, deveria ter uma viatura parada ou em ronda para evitar que isso acontecesse. Um estado pobre como o nosso não tem essa verba, não temos esse aporte em lugar nenhum para podermos investir na manufatura, na produção desse diagnóstico”, comenta.

Bate papo com Francisco Augusto Cruz, mestre em Ciências Sociais pela UFRN e especialista em temas ligados à Violência, Segurança Pública, Sistema Prisional, Estado e Políticas Públicas, Cidadania, Educação e Direitos Humanos.

O que explica o fato das zonas Norte e Oeste serem as principais áreas de Natal a registrarem homicídios?
Não dá para fazermos uma abordagem exclusiva pelos mapas, precisamos fazer correlações. A primeira questão, sobre índices de criminalidade nas zonas Norte e Oeste, devem ser levadas em consideração a densidade populacional. Não podemos falar simplesmente da densidade demográfica e populacional como um fator de elevada criminalidade, mas quando associamos esses fatores e analisamos a renda per capita, percebemos a incidência de elevados índices de conflito. Não dá para afirmarmos que somente o crescimento populacional seja capaz de gerar a criminalidade, mas podemos pensar que esses índices representam correlações como o crescimento desordenado da cidade. Se você observar, no mapa, existem ilhas e muros. As ilhas concentram a criminalidade em algumas regiões e a segurança em outra e os muros são os espaços que dificultam a circulação e moradia das pessoas em regiões melhores. A gente entende que a população pobre não obrigatoriamente é violenta, mas a moradia em baixas condições de qualidade de vida incentiva os conflitos, que existem porque as pessoas não têm espaços de convívio, de desenvolvimento, lazer, aparelhos públicos que deem suporte a esse bom convívio. E aí só restam os conflitos e os atos de criminalidade.

Quais são os motivos para essas áreas serem as mais afetadas, até historicamente, pela criminalidade? É a presença de facções criminosas? Tráfico de drogas? Violência interpessoal?
As facções criminosas perceberam que existe um exército de reserva, nas regiões mais carentes do país, e nossa cidade não fica de fora, e elas conseguem recrutar nessas regiões de densidade populacional elevada um exército, uma força de trabalho, para trabalhar na indústria do crime, do tráfico de drogas, no mercado. A criminalidade violenta movimenta bilhões de reais todos os anos. Quando a gente pensa que as regiões mais pobres são mais violentas é nesse sentido: o crescimento é desordenado, desorganizado, não planejado, a ausência do Estado de aparelhos de convívio harmônico, que possibilite o desenvolvimento, como praças, árvores, a iluminação pública, pavimentação, acesso a escolas, a postos de saúde. É uma questão central.

A falta de equipamentos públicos e investimentos pode ser um fator que contribui para o avanço da violência?
A terceira questão é que, cada vez mais, a gente tem percebido, de forma tímida, que têm crescido bastante o número de gestores municipais preocupados com a segurança pública. Lembro que, há alguns anos, participei da conferência municipal de segurança pública em Mossoró, mas não tenho visto isso em Natal. Mas o que acontece é que, nos planos de governo, não têm se feito a inclusão de uma responsabilidade, os gestores não têm tentado se responsabilizar pela SP, em razão de que os municípios têm poucos recursos, então aquilo que não cabe especificamente a ele, ele tenta se eximir da responsabilidade, apesar de não ter essa atribuição, é importante que cada gestor municipal seja corresponsável. São coisas simples. A forma como a cidade é desenhada implica na sua segurança. Essa é uma visão que deve ser do gestor que pensa sua cidade para o futuro. Por exemplo, as estratégias básicas para segurança pública municipal, que analisamos os bairros periféricos, que são aqueles menos desenhados e planejados, por consequência existem mais conflitos, mais crimes violentos e menos violentos. Quando falamos em segurança pública no município, devemos pensar que os bairros devem estar organizados no sentido de que as pessoas devem ver e serem vistas: os pontos de ônibus devem estar em espaços visíveis, o desenho urbano deve dar dificuldades ao delinquente. O controle de acesso aos bairros, deve existir uma entrada e saída, monitoramento eletrônico, reforço territorial no sentido de que as pessoas entendam que o controle e a relação que as pessoas têm com a praça, com os terrenos baldios, casas abandonadas, deve existir um controle social e popular desses espaços. Muitas pessoas moram em regiões que não gostam de morar ali, mas porque precisam. É exatamente isso: quando a cidade é planejada, acolhe as pessoas, elas constroem outra identidade. Veja a identidade de uma pessoa que mora em Capim Macio ou Ponta Negra e um morador que mora em Leningrado ou Planalto, em que a maioria das ruas é de barro, não tem iluminação pública. Os bairros precisam ser revitalizados, não adianta ter uma praça no bairro que foi reformada na década de 80. O processo de favelização, crescimento desordenado e a densidade demográfica, a baixa renda per capita e a ausência de aparelhos públicos de convivência saudável, como praças, parques, ruas, canteiros limpos, tudo isso são fatores que demonstram que nossa cidade, em Natal, têm esses bolsões de violência em razão do descuido que foi promovido ao longo de anos e anos na cidade. A segurança se concentrou na zona Sul de Natal, onde se circula dinheiro, o turismo, onde se tem a maior renda per capita, e se esqueceu do restante da cidade, que sobrevive como pode. Esses regiões mais pobres, alcançadas com o crescimento desordenado, precisam ser considerados na reforma do Plano Diretor. A cidade não pode ser só para empresários e investidores, mas para quem vive.







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