Em ritmo lento

Publicação: 2013-02-24 00:00:00
Marcelo Lima e Valdir Julião - Repórteres

Qualquer motorista em trânsito pelas duas principais vias de acesso ao centro de Natal –  as avenidas Senador Salgado Filho e Tomaz Landim, nas Zonas Sul e Norte da cidade, respectivamente, - pode observar que ali estão os trechos mais críticos para a fluidez do tráfego,  principalmente, em horários de pico, seja no começo da manhã ou no final da tarde. Segundo estimativas da Polícia Rodoviária Federal (PRF), aproximadamente, 100 mil veículos trafegam, por dia, pela BR-101 Sul, nas duas faixas. Já na BR-101 Norte, o fluxo diário chega a 90 mil veículos, nas duas faixas. 

Não é a toa que, hoje, o transporte em veículos particulares, em Natal, já  é sinônimo de irritação, trânsito parado e grandes perdas de tempo, dinheiro, saúde, além do aumento da poluição, de acidentes, mortes e feridos. Uma amostragem da PRF/RN, feita em 2012, mostrou que, no km-103 da BR-101 Sul, próximo do acesso ao aeroporto, trafegam uma média de 3.500 veículos/hora. Já no km-96, nas imediações do Carrefour, o fluxo de veículos aumenta para quase sete mil veículos por hora.

O grande vilão dessa história é o crescimento da frota de veículos, não obstante considerar que a falta de um transporte coletivo de qualidade contribui para que as pessoas prefiram tirar seus carros das garagens para chegar mais cedo ao trabalho, deixar filhos nas escolas ou ir às compras no comércio, no centro da cidade. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), da frota de todo o Estado (743.040 veículos), Natal detém quase metade - 322 mil veículos.

Zona  Norte

Na Zona Norte de Natal, quem usa o viaduto de Igapó, elege o sinal de trânsito como um dos principais vilões. Ainda na BR 101 Norte, o gancho de Igapó é outro gargalo que trava o trânsito na via. Na Ponte Newton Navarro, os acessos prometidos desde a inauguração da ponte em 2007 fazem falta. Além disso, as tão prometidas obras do Pró-Transporte ainda estão no meio do caminho.

Com somente duas pontes para chegar às outras regiões da cidade - Newton Navarro e Igapó - a Zona Norte tem ainda o fluxo pressionado pelos moradores das cidades da Grande Natal, como  Extremoz, Ceará-Mirim e São Gonçalo do Amarante.

Da segunda-feira ao sábado, a Ponte de Igapó é passagem obrigatório para o instalador de tevê Leandro Ribeiro. Ele diz que já passou mais de meia hora da subida do viaduto de Igapó até o fim da ponte, no bairro Nordeste. “Poderiam fazer uma passarela  para tirar esse sinal”, diz, referindo-se a um sinal de trânsito próximo ao posto da Secretaria de Tributação.

Mas o afunilamento do fluxo no sentido Zona Norte-Centro também pode contribuir para o problema. Os veículos que vem de duas faixas da avenida João Medeiros Filho, de outras duas da Tomaz Landim e de uma marginal do Jardim Lola desaguam em apenas duas faixas, depois do viaduto de Igapó. Isso acontece exatamente onde está o  sinal de trânsito criticado.

Quem está nos ônibus tem a irritação potencializada. O pedreiro Manoel Caetano Damasceno enfrenta, pelo menos, duas horas dentro de ônibus para chegar ao emprego. “É muito difícil. Às vezes, o ônibus passa direto quando não tem espaço pra parar”, contou. Ele  mora em Extremoz e trabalha na Cidade da Esperança, em Natal. Precisa de dois ônibus para ir e voltar do trabalho. O trânsito para quem sai da Zona Norte em direção a Oeste só melhora depois do bairro Nordeste.

1- É a maior zona, tanto em área territorial, quanto em população. Segundo dados do Censo 2010/IBGE possui 303 543  habitantes, o que equivalente a 37,77% da população da capital e supera a população da segunda maior cidade do Estado - Mossoró.  

2- Essa região administrativa é separada das demais zonas de Natal pelo Rio Potengi e se divide em sete bairros: Igapó, Lagoa Azul, Nossa Senhora da Apresentação, Pajuçara, Potengi, Redinha e Salinas.

Zona Sul

Na Zona Sul de Natal, quem usa a BR-101 elege como o principal gargalo o acesso à rodovia, na alça de saída de Neópolis. A falta de recuo da parada de ônibus, situada sob a passarela e que fica em cima do acostamento, está a uns 50 metros do acesso à BR, e prejudica o fluxo. Os carros que saem de Neópolis ou vem dos conjuntos Jiqui, Pirangi e de Nova Parnamirim foram filas de congestionamento.

A situação é mais crítica ainda porque a Salgado Filho é a única entrada de Natal pela Zona Sul. O taxista Lourivane da Silva Pereira, que trabalha há oito anos no ponto de táxi situado embaixo da passarela de Neópolis diz que “com todo mundo voltando de férias e com o começo as aulas, o trânsito só piora”. O taxista aponta soluções. “Se aquela obra do prolongamento da Prudente de Morais estivesse feita, certamente estava melhor, tinha mais opção, principalmente para quem vem do interior”, exemplificou ele.

Outra medida que ele acha importante, era fazer o recúo da parada de ônibus, situada sob a passarela. “O trânsito com a parada recuada ficaria mais livre, os ônibus teriam mais espaço, não atrapalharia muito”, finalizou Pereira.

O motorista Ricardo Pinheiro Borges diz que  usa quase todo o dia o acesso à BR-101. Ele também aponta a parada de ônibus como problema que precisa de solução, rápida porque gera engarramento e lentidão no trânsito, sobretudo entre 7 e 8 horas, quando a maioria das pessoas estãos e deslocando de casa no sentido centro da cidade, seja para o trabalho ou para deixar filhos na escola.

1 - É a segunda maior zona de Natal em extensão territorial e a terceira mais populosa da cidade, com 166. 491  habitantes, o que representa 20,71% da população da capital, segundo o Censo 2010/IBGE.

2 - Essa região administrativa da cidade possui sete bairros: Candelária, Capim Macio, Lagoa Nova, Neópolis, Nova Descoberta, Pitimbu e Ponta Negra. É nela onde se localizam o Centro Administrativo do Governo do Estado,  no bairro Lagoa Nova,
e a praia de Ponta Negra

Solução seria priorizar o ônibus

O chefe da Núcleo de Comunicação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), inspetor Everaldo Morais, aponta como solução a execução de uma política que “priorize o transporte de massa”. O empresário do setor de transporte coletivo, Augusto Maranhão, concorda. Segundo ele, o ônibus precisa ter prioridade no sistema de transporte público coletivo, dando as condições necessárias de mobilidade para que o ônibus consiga andar prioritariamente ante a frota de veículos particulares.

“É preciso dar ao ônibus o seu espaço no contexto urbano. Ao invés de ser um problema, que seja uma solução”, afirma Augusto Maranhão. O ônibus tira quinze, vinte carros da rua, mas os empresários do setor ressaltam que a pessoa só deixa o carro em casa se tiver ônibus bom. “Na hora que dê prioridade, que fizer o ônibus rodar, as pessoas vão dar credibilidade a ele”, afirma o empresário. Os empresários afirmam que as empresas têm feito investimentos para renovar a frota que hoje é 60% acessível e tem idade média de sete anos.

Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Passageiros do RN (Seturn) o volume total de usuários cai nos meses de janeiro e dezembro, principalmente, no caso dos estudantes que utilizam  esse meio de transporte. Em novembro de 2012, o número de usuários do transporte coletivo chegou a 10,85 milhões e baixou para R$ 10,68 milhões em dezembro. Em janeiro deste ano, outra queda, para 9,5 milhões.